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sábado, 12 de maio de 2012

Cavendish diz que sai da Delta para salvar empregos

Em carta de despedida, empresário chama o envolvimento com Carlinhos Cachoeira de 'questões circunstanciais'
Empreiteira, que deve ter nome alterado, foi assumida pela holding J&F; novo presidente será Humberto Farias

Em mensagem de despedida aos funcionários, Fernando Cavendish disse que deixou o comando da Delta para evitar demissões.

"O fator que mais pesou na minha decisão de abrir mão do comando da empresa foi meu compromisso com a preservação do emprego de mais de 30 mil colaboradores."

Ele ainda disse na carta que "a Delta é maior do que todos nós individualmente".

Ontem, a empresa foi assumida pela J&F Participações, holding controladora de empresas como a JBS e a Vigor.

Cavendish deixou a empresa após ter seu nome ligado ao escândalo de Carlinhos Cachoeira.
"A Delta sempre foi um sonho para mim e para todos nós, e eu não posso permitir que esse sonho fosse prejudicado por questões circunstancias", afirmou Cavendish.

O empresário diz que sacrificou o sonho de liderar a corporação. "Faço única e exclusivamente por conhecer, mais do que ninguém, que o sonho de todos é muito maior do que qualquer um de nós de forma individual", disse.

Segundo ele, foi com "nó na garganta" que tomou a decisão. "Peço apenas que esta equipe guerreira continue a ser exemplo de determinação, de seriedade e de comprometimento", disse.
A J&F também indicou ontem o engenheiro Humberto Junqueira de Farias para a presidência da Delta, que deverá ter seu nome trocado.

Junqueira, atual presidente da usina de açúcar e álcool Renuka, trabalhou por 15 anos na Camargo Corrêa. Nela, ele foi presidente da divisão de cimentos e da Cavo, empresa de coleta de lixo e tratamento de resíduos.

BNDES
Em nota, a holding negou que o acordo tenha sofrido interferência do governo.

"A participação do BNDESPar na JBS não o torna acionista direta ou indiretamente de nenhuma empresa da holding, nem dá o direito de qualquer interferência política na J&F."

A nota diz que José Batista Junior não ocupa um cargo executivo no grupo há sete anos. "Suas declarações refletem única e exclusivamente uma opinião pessoal".

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que o banco vai "zelar" para que compra não traga "nenhum risco" para a instituição, sócia da JBS. A declaração foi uma resposta a pedido de abertura de investigação da Procuradoria.

Por FSP

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Não há motivo para Cabral ser convocado, diz Temer

Para vice-presidente, jantar de governador com empreiteiro não é 'ilegal'

Oposição quer que peemedebista explique proximidade com dono da Delta, associada ao esquema de Cachoeira

O vice-presidente Michel Temer, principal líder do PMDB, disse ontem não ver motivos para que o governador do Rio, o peemedebista Sérgio Cabral, seja convocado pela CPI do Cachoeira.

Para ele, as viagens e o jantar do colega de partido com o empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, não configuram crime.

Embora Temer tenha tido o cuidado de ressaltar que não deseja influir na investigação do Congresso, trata-se de uma declaração de peso. O vice é presidente nacional licenciado do PMDB.

Temer falou em entrevista à Folha e ao UOL. Seu recado sobre Cabral reforça a estratégia do governo de proteger os governadores de partidos aliados. Outro citado nas investigações é o governador do DF, Agnelo Queiroz (PT).

Deputados e senadores pró-governo querem impedir a convocação de Cabral e de Agnelo. Ao mesmo tempo, tentarão forçar um depoimento do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

Cabral aparece em viagem ao exterior confraternizando com Cavendish em imagens divulgadas pelo deputado Anthony Garotinho (PR-RJ). Para Temer, esse fato "pode ser apurado".

Indagado se o governador deveria se explicar melhor sobre seu relacionamento com Cavendish, Temer disse que ele poderá fazer isso "não necessariamente na CPI".

"Me me parece que chamar o Sérgio Cabral porque ele jantou com um empreiteiro, ou jantou com secretários ou o que seja... Só se a ilegalidade for jantar com um empreiteiro. Se isto for ilegal, muito bem. Não me parece."

Ele frisou, porém, que a convocação de governadores "é uma decisão da CPI".

CÂMARA
 
Na entrevista, o vice-presidente negou que a relação pouco amistosa da presidente Dilma Rousseff com o líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN), seja um óbice para o peemedebista presidir a Casa a partir de 2013.

"A proximidade com a presidente não é o fator determinante para a decisão", disse.

PT e PMDB têm acordo para que haja um rodízio entre as siglas no cargo de presidente da Casa.
Segundo Temer, Dilma pode se aproximar do PMDB na discussão sobre a reforma do Código Florestal. Se ela vetar texto na íntegra e baixar uma medida provisória no lugar, o partido poderia trocar de posição e ajudá-la.

"Na opinião dele, "se houver uma nova formulação legislativa, ainda que por medida provisória, não é improvável acordo dessa natureza. E o PMDB vai colaborar".

Por Fernando Rodrigues, FSP

domingo, 6 de maio de 2012

Escutas sugerem contato com novo presidente da Delta


Araponga disse ter 'amizadezinha' com executivo que dirige a empresa desde o afastamento do dono da empreiteira 

Construtora nega que Carlos Alberto Verdini tivesse qualquer tipo de amizade com o sargento Idalberto Araújo, o Dada


Escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal sugerem que o grupo do empresário Carlinhos Cachoeira também manteve contato com o executivo que passou a dirigir a Delta Construções depois que vieram à tona as ligações da empresa com Cachoeira.

Carlos Alberto Verdini assumiu a presidência do conselho de administração da Delta há duas semanas, depois que o dono da empresa, Fernando Cavendish, se afastou junto com um de seus principais executivos, Carlos Duque Pacheco.

As investigações da PF indicam que Cachoeira atuou nos últimos anos como representante da Delta em vários Estados, ajudando a negociar contratos obtidos pela construtora.

No dia 12 de abril de 2011, o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Araújo, o Dadá, disse ter proximidade com Verdini, numa conversa com o policial Marcello de Oliveira Lopes, o Marcelão.

Segundo a PF, Dadá é um araponga que tinha papel central no grupo de Cachoeira: ele atuava em benefício da Delta no Centro-Oeste e trocava telefonemas frequentes com o então diretor regional da empresa, Cláudio Abreu.

"Eu estou ligando pro Verdini, e o Verdini também é outro cara que fala a verdade. Eu não estou conseguindo falar com o Verdini. Verdini é a coroa lá do comercial, entendeu? Ele foi sargento da FAB, a gente criou uma amizadezinha com ele", diz Dadá a Marcelão, que buscava ajuda para que a Delta contratasse sua empresa de publicidade.

"Ele está abaixo do Cláudio [Abreu], mas ele mora no Rio, conhece todo mundo, tem uma força. Mas tem menos força de que o Cláudio", diz Dadá. Um dia antes desse diálogo, Dadá já havia contatado o advogado Gustavo Henrique Caputo Bastos, que atuava para a Delta, para saber onde estava Verdini.
"Sabe se o Verdini tá na área, cara?", perguntou Dadá. Caputo diz que não sabia.

A Delta nega que Verdini tenha amizade com Dadá. Cavendish, o dono da empresa, tem procurado transferir para Cláudio Abreu a responsabilidade pelo envolvimento da Delta com Cachoeira.
Mas as gravações da PF sugerem que Cavendish e Pacheco sabiam da relação entre Abreu e Cachoeira.

No caso de Pacheco, as escutas revelam que ele teve encontros com Cachoeira, com a participação de outras pessoas. Numa dessas ocasiões, também esteve presente o diretor da Delta para a região Sul e São Paulo, Heraldo Puccini Neto.

No caso de Cavendish, há indícios de que o executivo tinha ciência da atuação de Cachoeira em favor da Delta. Um almoço entre ele e Cachoeira foi marcado em Brasília, mas Cachoeira não pôde ir.


Por Breno Costa, Fernando Mello e Leandro Colon

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Donos põem Delta à venda para evitar fechamento


No centro do escândalo envolvendo Carlinhos Cachoeira, a construtora Delta foi posta à venda para tentar salvar as operações da empresa.

Segundo a Folha apurou junto a pessoas com acesso à operação, o grupo JBS manifestou interesse na aquisição.

Procurado, o empresário Joesley Batista, presidente da holding que controla o frigorífico JBS, disse que não poderia comentar o caso: "Vixe! Não posso falar disso, não".

Já a Delta optou por não se pronunciar a esse respeito.

As negociações, segundo quem acompanha o caso, estão a cargo do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que comanda o conselho de administração da holding. Procurado, Meirelles não foi localizado.

Até ontem, havia uma orientação para que a operação não fosse confirmada sob pena de prejudicar qualquer costura de negócio para a Delta, líder em contratos do PAC e maior recebedora de recursos do Executivo. A intenção de venda do grupo havia sido publicada pelo jornal "O Globo" no sábado passado.

Sócio majoritário e presidente licenciado da Delta por conta do escândalo, Fernando Cavendish admitiu em entrevista à Folha em abril o risco de a empresa ir à falência após a operação Monte Carlo da Polícia Federal e a instalação da CPI sobre o empresário Carlinhos Cachoeira.

Escutas da PF indicam que o ex-diretor da empresa no Centro-Oeste era parceiro de Cachoeira em negócios. Dinheiro da construtora foi colocado em empresas fantasmas de Cachoeira, que por sua vez alimentaram campanhas políticas.

A Delta vem tentando concentrar as eventuais irregularidades na figura do ex-diretor. Mas outras escutas mostram que Cavendish orientava o ex-diretor, e outros executivos da empresa aparecem ligados ao esquema.

A construtora já deixou o consórcio responsável pelo projeto da Transcarioca (corredor expresso de ônibus), que ligará a Barra da Tijuca à Ilha do Governador, e o que reforma o Maracanã. A construtora poderá enfrentar dificuldades para obter crédito no sistema financeiro.

Com a compra, o grupo JBS expandiria sua atuação para a construção civil.



Por Natuza Nery e Catia Seabra

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Saiba por que a CPI pode assar mais uma pizza




Convocada sob estrondosa unanimidade, apoiada por governistas e oposicionistas, a CPI do Cachoeira expôs seus calcanhares de vidro já na primeira sessão deliberativa. Aprovou-se um plano de trabalho que, seguido ao pé da letra, pode resultar numa pantomima que não cobrirá nem os fatos e indícios já esmiuçados nos inquéritos feitos pela Polícia Federal. Vão abaixo, em seis tópicos, os lances que sinalizam a preparação do forno:

1. A Delta: Dono da empreiteira pilhada em negócios ilícitos com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, Fernando Cavendish foi solenemente ignorado no plano de trabalho apresentado pelo relator Odair Cunha (PT-MG). A exclusão do empreiteiro do rol inaugural de depoentes é inexplicável, inacreditável e inaceitável.
É inexplicável porque o nome de Cavendish consta da Operação Monte Carlo, um dos inquéritos que motivaram a instalação da CPI. Não bastassem as menções, a PF informa que a Delta despejou R$ 39 milhões nas caixas registradoras de empresas de fachada da quadrilha. Suspeita-se que a verba tenha irrigado campanhas eleitorais. Não é dinheiro de cafezinho. A suposição de que os cifrões saíram das arcas da Delta sem o conhecimento do seu controlador é algo que não faz nexo.



O desinteresse por Cavendish é inacreditável porque a voz dele soou numa gravação feita às escondidas por dois ex-sócios. Considerando-se o conteúdo, essa fita deveria atear em qualquer congressista um desejo irrefreável de ouvir o empreiteiro, não o contrário. Cavendish disse:
“Se eu botar R$ 30 milhões na mão de políticos, eu sou convidado pra coisa pra caralho! Pode ter certeza disso, te garanto. Se eu botasse dez pau que seja na mão de nêgo… Dez pau! Ah… Nem precisava de muito dinheiro não, mas eu ia ganhar negócio. Ôooo…”

Noutro trecho, o dono da Delta declarou: “Estou sendo muito sincero com vocês: R$ 6 milhões aqui, eu ia ser convidado. Ô, senador fulano de tal, eu tenho cinco convites aqui. Toma, tá aqui ó. Pá! Se convidar, eu boto o dinheiro na tua mão.”

De resto, a sumiço de Cavendish do plano de trabalho da CPI é inaceitável porque a Delta, sexta maior construtora do país, ocupa o topo do ranking das obras do PAC, o bilionário programa de obras do governo federal. Investigar a empresa em todos os seus desvãos (da sala da diretoria à portaria) não é –ou não deveria ser— algo opcional. Tornou-se um imperativo ético.

 

2. A geopolítica: No plano de trabalho redigido por Odair Cunha e aprovado pela CPI, anotou-se que a investigação vai abarcar a quadrilha e suas ramificações. Ao citar o tentáculo privado da organização, o relator escreveu que serão perscrutadas as relações da turma de Cachoeira “com setores empresariais e agentes de mercado, inclusive com a diretoria da Delta na região Centro-Oeste”.

Ora, Delta Centro-Oeste é coisa inexistente. Afora os contratos beliscados na Esplanada dos Ministérios, a empreiteira toca obras em 23 Estados e no Distrito Federal. Imaginar-se que a empresa opera à magem da lei apenas na região central do país é algo que, de novo, não orna com a lógica. A Contraladoria-Geral da União aponta irregularidades em canteiros administrados pela Delta desde 2008.

A despeito disso, Dilma Rousseff e sua equipe de controladores só acordaram para a encrenca depois que a Delta virou sinônimo de escândalo. Só há 15 dias, por ordem da presidente, o ministro Jorge Hage, chefe da CGU, anunciou a abertura de procedimento administrativo que deve levar à declaração da inidoneidade da empresa. Por que demorou tanto?, os membros da CPI deveriam estar perguntando aos seus botões.

Embora espremido por vários de seus pares, o relator Odair bateu o pé. Recusou-se a excluir do seu plano de ação a limitadora referência ao Centro-Oeste. Trata-se, segundo ele, de mero “ponto de partida”. Alega que o vocábulo “inclusive” autoriza a eventual ampliação do alvo. Se é assim, por que diabos não suprimiu do texto, em nome da objetividade, o dique regional? O desejo do PT de resguardar o governo federal e seu PAC explica a obsessão.

 

3. Os governadores: As operações da PF levaram à grelha dois executivos estaduais: Marconi Perillo (PSDB), de Goiás; e Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal. A divulgação do audiovisual (vídeos e fotos) que desnudou a intimidade de Fernando Cavendish com o governador do Rio adicionou Sérgio Cabral (PMDB) na coluna de devedores de boas explicações. O que fez a CPI? Por ora, nada.

Para não dizerem que não falou de espinhos, o relator Odair programou para 12 de junho uma “audiência pública para debater as relações do sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos com governos estaduais.” Governos? Sim, isso mesmo. Nem sinal dos nomes do tucano Perillo e do petê Agnelo. Nada do pemedebê Cabral. Signatário de requerimentos de convocação dos três, o tucanato silenciou. O petismo ecoou o silêncio. Ficou no ar um cheiro de arranjo, um odor de deixa-como-tá-pra-ver-como-é-que-fica.

4. O procurador-geral: Nenhum nome foi mais mencionado na reunião da CPI do que o de Roberto Gurgel. O senador Fernando Collor (PTB-AL) insistiu na tese de que o chefe do Ministério Público Federal precisa ser convocado. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) deu-lhe razão: “O procurador ter sentado nestas investigações por três, quatro anos não é correto. Ele deve explicações à sociedade brasileira.”

De fato, Gurgel não está bem posto em cena. Recebera em 2009 o resultado da Operação Vegas. Nesse inquérito, a voz de Demóstenes Torres já era ouvida nos grampos da PF em diálogos tóxicos com Carlinhos Cachoeira. Ainda assim, o papelório e os CDs foram tratados na Procuradoria a golpes de gaveta por três arrastados anos.



Convidado a comparecer à CPI, Gurgel invocou uma limitação funcional. Alega que, depondo como testemunha, ficaria impedido de atuar nos inquéritos abertos agora, a seu pedido, no STF. Verdade. Ex-procurador da República, o senador Pedro Taques (PDT-MT) citou na CPI as leis e os artigos que dão suporte à argumentação de Gurgel. Porém, a convocação do procurador não é a única forma de forçá-lo a explicar-se.

A CPI tem poderes para, por exemplo, exigir de Gurgel uma justificativa escrita. Ele diz que o inquérito de 2009 não continha indícios que justificassem sua ação. Se é assim, por que não arquivou? Sustenta que optou “por sobrestar o caso, como estratégia para evitar que fossem reveladas outras investigações relativas a pessoas não detentoras de prerrogativa de foro [investigados sem mandato], inviabilizando seu prosseguimento, que viria a ser formalizado na Operação Monte Carlo.”
Ora, a Monte Carlo nasceu de uma iniciativa da PF, não de uma ordem de Gurgel. Pela lei, o procurador-geral pode, em benefício da investigação, aguardar por um desfecho mais conclusivo. Mas precisaria ter manifestado a intenção num ofício interno. Não consta que Gurgel tenha assinado algo parecido. Quer dizer: faltam explicações. E a CPI, se quisesse, teria como buscá-las sem afrontar as prerrogativas funcionais do procurador-geral.

5. Os congressistas: O plano de trabalho aprovado nesta quarta (2) prevê que a CPI jogará luzes sobre as ramificações de Carlinhos Cachoeira no Poder Legislativo. Agendou-se para 31 de maio a inquirição de Demóstenes Torres. Será ouvido depois que já tiverem passado pelo banco da CPI o próprio Cachoeira e seus operadores sem mandato. Beleza. E quanto aos deputados federais cujas biografias foram umedecidas no Cachoeiragate? Nada.

Afora o pedido de abertura de inquérito contra Demóstenes, já afogado, a Procuradoria da República requereu ao STF a instauração de processos contra três deputados: Carlos Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Nercerssian (PPS-RJ). Encontram-se com água pelo nariz. Mas a CPI, curiosamente, não parece interessada em desatar os nós monetários que os unem a Cachoeira. Por quê? Qualquer criança de cinco anos é capaz de responder.

 

6. O calendário: O relator Odair Cunha anotou no item três do seu plano de ação: “O prazo para conclusão dos trabalhos da CPI é de 180 dias, com término em 4 de novembro de 2012.” Os regimentos da Câmara, do Senado e do Congresso prevêem que comissões parlamentares de inquérito são passíveis de prorrogação.

Considerando-se as dimensões do aguaceiro, seria lícito supor que a nova CPI cogitasse a hipótese de esticar o seu calendário. Com o assentimento de seus pares, o relator prefere não considerar, nem como hipótese, a ideia de uma prorrogação. Na semana passada, logo depois de ser acomodado na cadeira de relator, Odair Cunha dissera, em timbre peremptório:
“Nós temos que analisar o que realmente existir de provas, de indícios. E, a partir dessas provas ou indícios, produzir uma investigação que pode atingir A ou B. Essa é uma questão que nós não temos controle. […] Produziremos uma investigação doa a quem doer.”

Considerando-se o resultado da sessão inaugural, Odair, os 65% de governistas da CPI e até um pedaço da bancada oposicionista parecem agora mais preocupados em controlar “o que nós não temos controle”,  escolher o A e o B que “uma investigação pode atingir” e administrar a cota de sofrimento de cada um. Se doer, que não doa tanto. Encrencas assim, tão vastas e multipartidárias, são um convite à construção dos fornos onde são assados os grandes acordos. Resta saber se o imponderável vai permitir.

Por Josias de Souza

Cachoeira agiu para evitar que Pagot revelasse esquema da Delta no Dnit, indica grampo da PF



Ignorados no plano de trabalho da CPI do Cachoeira, Fernando Cavendish, dono da Delta Construções, e Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do Dnit, são personagens centrais de diálogos telefônicos captados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo, deflagrada em fevereiro.

As conversas revelam indícios da existência de um esquema para favorecer a Delta no Dnit, órgão do Ministério dos Transportes que cuida da construção e manutenção de estradas e toca obras do PAC. O áudio foi veiculado pelo ‘Jornal da Globo’ horas depois da aprovação do plano de ação do deputado Odair Cunha (PT-MG), o relator da CPI.

Soam nos grampos as vozes do contraventor Carlinhos Cachoeira, do senador Demóstenes Torres e de Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta na região Centro-Oeste. A tróica receava que Pagot revelasse os segredos da empreiteira e da quadrilha depois de ter sido demitido do Dnit por Dilma Rousseff, em julho do ano passado.

De acordo com a Polícia Federal, Pagot participara de um jantar com Cachoeira, Demóstenes e Fernando Cavendish. As escutas indicam que o bicheiro recorreu ao padrinho político de Pagot, o senador Blairo Maggi (PR-MT), para conter os arroubos do “afilhado”, cuja queda fora atribuída a irregularidades no Dnit.

Ouvido, Blairo Maggi nega que tenha sido procurado. O nome dele é mencionado numa primeira conversa de Demóstenes com Cachoeira. O senador soou preocupado. Parecia temer que Pagot levasse os lábios ao trombone:

- Demóstenes: Você teve notícia?

- Cachoeira: Não, Blairo mandou falar que não tem nada não. Blairo que manda nele, uai.

- Demóstenes: Mas o Blairo falou que tá tudo ok?

- Cachoeira: Falou… Mandou falar.

- Demóstenes: Ah, então tá bom. Então beleza. Então falou. Até mais.

Noutro grampo, Cachoeira conversa com Cláudio Abreu, na época o mandachuva da Delta no Centro-Oeste. Fica subentendido no diálogo que, se recorresse ao trombone, Pagot teria o que soprar:

- Cachoeira: Ele não vai falar nada não. Senão o cara fala que jantou lá, tal, com…Com Fernando [Cavendish], com ele. Não vai falar isso não, porque tá dando tiro no pé também, né?

- Cláudio: É, positivo. Tem nada a ver.

Um dia depois, Cachoeira e Demóstenes como que celebram o silêncio de Pagot:

- Cachoeira: Doutor, deu certo aí?

- Demóstenes: Uai! Deu. O homem não me falou nada não. Tudo tranquilo.

No seu plano de trabalho, o relator petista Odair Cunha incluiu no rol de personagens a serem inquiridos pela CPI o contraventor Cachoeira, o senador Demóstenes e o ex-diretor da Delta Cláudio Abreu. Porém, excluiu da lista Fernando Cavendish e Luiz Pagot.

A exclusão esconde a intenção não declarada de tentar afastar a CPI da administração federal e do PAC, o programa de obras que Dilma coordenava desde a gestão Lula, supostamente com rigores de “mãe”.



Há 13 dias, numa entrevista ao repórter Murilo Ramos, Pagot associara seu afastamento do Dnit à ação da quadrilha de Cachoeira e do comando da Delta: “Fui surpreendido por ter sido afastado através de uma negociata de uma empreiteira com um contraventor. Isso serviu para que fosse ditado meu afastamento. É um verdadeiro descalabro”, dissera.

Pagot quebrou o silêncio depois que veio à luz um grampo captado pela PF em 10 de maio de 2011, dois meses antes de sua queda. Contém um diálogo de Cachoeira com Cláudio Abreu. O então diretor da Delta informa ao pós-bicheiro que plantara informações contra Pagot na imprensa: “Enfiei tudo no rabo do Pagot”, diz ele a certa altura.

Na versão de Pagot, a plantação de notícias deveu-se a “dissabores” que ele diz ter causado à Delta, cujos contratos com o Dnit “passaram a ter problemas” entre 2009 e 2010. Localizou os “problemas” no Ceará, no Mato Grosso, em Goiás, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O ex-diretor do Dnit contou também que parlamentares fizeram lobby em favor da Delta. Mencionou dois deputados federais: o réu mensaleiro Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Wellington Fagundes (PR-MT). Pagot só não havia informado que participara do jantar com Cachoeira, Demóstenes e Cavendish.

A CPI poderia desvendar os mistérios. Porém, tomado pelo plano de trabalho que apresentou, o relator Odair Cunha não parece interessado nesse pedaço das investigações da Polícia Federal que aproxima a quadrilha de Cachoeira da Esplanada dos Ministérios e das obras do PAC.

Pelo cronograma do relator, a CPI se dedicaria a desvendar a ação da “organização criminosa” comandada por Cachoeira e suas relações com o Legislativo, membros do Judiciário e do Ministério Público, com policiais federais e estaduais, com “servidores e agentes públicos de governos estaduais” e “com setores empresariais e agentes de mercado, inclusive com a diretoria da Delta na região Centro-Oeste.”

Pressionado por parlamentares da oposição, Odair Cunha fez uma concessão. Substituiu a expressão “servidores e agentes públicos de governos estaduais” por “servidores e agentes públicos integrantes de governos federal, estaduais e municipais.” Absteve-se porém de incluir o ex-agente público federal Pagot no rol de depoentes.

De resto, não abriu mão de manter no texto a referência ao “Centro-Oeste”. Alegou que, ao utilizar o vocábulo “inclusive”, deixou em aberto a possibilidade de a investigação ser levada a outros pedaços do mapa brasileiro. Havendo disposição genuína, a entrevista de Pagot indica a necessidade de incluir na geografia do escândalo pelo menos mais duas regiões: o Nordeste (Ceará) e o Sudeste (Rio e São Paulo). Mas, por ora, consta da lista de depoentes da CPI apenas Cláudio Abreu, o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste. Nada de Cavendish.

Por Josias de Souza

terça-feira, 1 de maio de 2012

PMDB tenta evitar convocação de Cabral na CPI do Cachoeira


Nova foto divulgada pelo deputado federal Anthony Garotinho em que o governador aparece ao lado de Cavendish
Foto: Divulgação

Tranquilos até poucos dias atrás com o tiroteio entre PT e oposição, que mantinha o PMDB distante do alvo central da CPI do caso Cachoeira, integrantes da cúpula do partido começaram a se mobilizar no fim de semana para tentar blindar o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e evitar que seja aprovada sua convocação para depor logo no início dos trabalhos.

Dirigentes peemedebistas não escondiam nesta segunda-feira o desconforto e a preocupação com a superexposição das relações de Cabral com o dono da Delta, Fernando Cavendish, em fotos divulgadas pelo ex-governador e deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ).


A avaliação feita em conversas reservadas era de que a CPI começa a caminhar com as próprias pernas, e que a cúpula do PMDB terá que rever sua estratégia inicial de se manter à margem da CPI que nunca quis. Por isso, apesar do feriado de hoje, o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), chega a Brasília para uma reunião com o presidente licenciado do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e com o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), para discutir como conduzir o caso e não deixar que o foco da CPI extrapole o objeto de sua criação: o esquema Carlinhos Cachoeira, Delta e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO).

A preocupação é com o descontrole das investigações além dos limites dos negócios da Delta no Centro-Oeste — que podem atingir os governadores Marconi Perillo (GO) e Agnelo Queiroz (DF). O governador do Distrito Federal é o único que já tem pedido de inquérito aberto pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, sob a alegação de que assessores receberam propina para facilitar contratos em seu governo. Marconi Perillo é acusado de relações estreitas com o grupo de Cachoeira e Demóstenes, que teriam indicado servidores em postos de alto escalão em seu governo. Mas não há ainda inquérito ou gravações que o incriminem diretamente.

Um dos representantes do PMDB na CPI, o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) disse, num primeiro momento, que seria inevitável a convocação de Cabral.

— Será uma oportunidade para ele se explicar sobre as denúncias de que privilegiou a Delta por ser amigo do Fernando Cavendish. Não faria sentido chamarmos outros governadores acusados de envolvimento na teia da CPI, como o Perillo e o Agnelo, e deixarmos o Cabral de fora só porque pertence ao PMDB ou porque governa o Rio — declarou Ferraço no domingo ao site IG.

Nesta segunda-feira, depois da mobilização da cúpula peemedebista, Ferraço estava mais cauteloso, alegando que Garotinho estava fazendo disputa política:

— O Renan me deu liberdade para agir de acordo com minhas convicções. E minha convicção é que não vou ser instrumento de lutas regionais. Pode tirar o Garotinho da chuva! — disse Ferraço, ontem, ao GLOBO.

Preferindo manter-se no anonimato, um deputado do PMDB faz a mesma avaliação que Ferraço:
— A CPI começa a ganhar rumo próprio. Quem é que vai convocar o Perillo e o Agnelo e depois botar a cara lá para defender o Cabral? Quem defender Cabral vira alvo. Como que o Renan, que quer ser presidente do Senado, vai defender isso? Só por baixo dos panos.

Nas conversas de bastidores, peemedebistas avaliaram que a situação de Cabral se complicou muito no final de semana com a divulgação dos vídeos e fotos. Mas a ordem interna é não alimentar essa polêmica.
— A CPI é para investigar o Cachoeira e as investigações das operações da Polícia Federal. Se tem outras ramificações, lá na frente a CPI terá que investigar. Temos que aguardar o plano de trabalho da comissão para ver onde e o que tem de ligação com Cachoeira — disse ex-líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), ressaltando que não é da CPI.

Cabral, que não tem relação estreita com seus partidários no Congresso, está procurando aproximação maior e sondou pessoas do partido para refutar suspeitas de que privilegiou a Delta.

domingo, 29 de abril de 2012

Dono da Delta conhecia 'esquema Cachoeira', diz PF

Escutas sugerem que Cavendish orientava diretor ligado a grupo
Entrega de agrados a políticos incluiu vinho raro
As investigações da Polícia Federal no caso Cachoeira indicam que Fernando Cavendish, presidente licenciado da Delta Construções, tinha conhecimento e orientava a atuação de seu ex-diretor para o Centro-Oeste, Cláudio Abreu.

Demitido após a revelação de que trabalhava em conjunto com Carlos Cachoeira, Abreu sempre teve sua atuação classificada como autônoma pela Delta, empreiteira líder no recebimento de recursos do Executivo federal desde 2007.

As escutas também sugerem que Cachoeira remunerou um assessor do ex-diretor do Dnit Luiz Antônio Pagot, que ameaçava dar um depoimento explosivo em Brasília.

Nos volumes do inquérito, Cachoeira aparece ainda como patrocinador de presentes luxuosos a políticos, entre eles um lote de vinhos raros comprado para Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), ameaçado de cassação. Advogado do senador -e também do governador Marconi Perillo (PSDB-GO), citado nas investigações-, Antonio Carlos de Almeida Castro diz que a operação está baseada em escutas ilegais.

Por FSP

sábado, 28 de abril de 2012

Garotinho está em guerra declarada com Sérgio Cabral

O Deputado Federal Antony Garotinho (PSB) está em guerra total com o Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

Após publicar fotos (Aqui) e um vídeo (Aqui), Garotinho diz que possui "farto material com fotos e vídeos", que comprovam a relação promíscua entre Sérgio Cabral e Fernando Cavendish, dono da Delta, construtora-mor do PAC e totalmente enrolada com Carlinhos Cachoeira e sua quadrilha.

Garotinho encerra assim o post com o vídeo sobre o casamento de Cavendish, marcado por Sérgio Cabral:

"Nossa próxima publicação será Cabral, Cavendidsh, Côrtes e amigos se deliciando no show do U2, em Paris. Será que vai dizer também que era missão oficial?"


Ou seja, mais chumbo grosso vem por aí.

Aguardemos.

Garotinho exibe vídeo de Cabral com Cavendish






Um dia depois de levar à web fotos de Sérgio Cabral (PMDB) com Fernando Cavendish, Anthony Garotinho pendurou em seu blog um vídeo.

Na fita, o governador do Rio e o dono da Delta Construções aparecem ao lado das respectivas mulhere e de outros dois casais.

A cena foi gravada num restaurante. “Ainda não confirmamos se é em Paris ou em Montecarlo, no principado de Mônaco”, anota Garotinho. As imagens registram o instante em que, sob pressão de Cabral, Cavendish marca para 5 de dezembro de 2009 seu casamento com Jordana, que morreu no ano passado, num acidente de helicóptero na Bahia.

Celebrou-se no jantar outra data festiva. A certa altura, Adriana, a mulher de Cabral, pede ao marido que verifique as horas. “Faltam dez minutos”, diz o governador. E a primeira-dama: “Dez minutos para o meu aniversáááário!”

Na cruzada que empreende para tentar empurrar Cabral para dentro do Cachoeiragate, escândalo estrelado pela Delta, Garotinho avisa que dispõe de “farto material de vídeos e fotos”. Quer dizer: o inimigo de Cabral ainda não logrou atingir o seu intento político, mas logo, logo fará de seu blog uma coluna social.

Por Josias de Souza

 

Faz de Conta

Estamos começando a viver um clima de faz-de-conta mesmo antes da CPI do Cachoeira começar seus trabalhos de fato.

O PT formalmente declara-se disposto a limitar as investigações sobre a empreiteira Delta ao que acontecia na sua direção do Centro-Oeste, cujo diretor já está preso. Como se os métodos adotado naquela região do país pela empreiteira nada tivessem a ver com a sua cultura nas demais regiões do país.

Ora, a empreiteira tem (ou tinha) obras em praticamente todas as unidades da federação, sobretudo devido ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e nada indica que seus métodos de ganhar licitações fossem diferentes em Goiás e no Rio de Janeiro, por exemplo.

A relação próxima, quase promíscua, do empresário Fernando Cavendish com o governador Sérgio Cabral e seus secretários, se não estivesse já demonstrada no episódio do trágico acidente de helicóptero ocorrido em Porto Seguro, fica explicitada pelas fotos que o deputado e ex-governador Garotinho postou em seu blog ontem.

A comemoração do governador e vários de seus secretários em Paris com o empreiteiro revela um tipo de comportamento incompatível com o decoro de servidores públicos, além de uma intimidade suspeita com o empreiteiro responsável por grandes obras no estado.

Nenhum daqueles funcionários públicos provavelmente terá condições de provar que pagou a farra com dinheiro próprio, mesmo que alguns deles, como o secretário de Transportes Julio Lopes, pudessem ter condições de fazê-lo.

E o secretário de governo Regis Fichtner, que é o encarregado de uma auditoria dos contratos da Delta com o estado, nessa fase em que se pretende fazer desaparecer os traços de ligação entre a empreiteira e o governo do Rio, aparece abraçado a Cavendish em uma das fotos, o que o descredencia para a tarefa.

Não é possível fazer de conta que a relação profissional da Delta com políticos de vários partidos e em vários estados não merece ser investigada quando há claros indícios de que os métodos utilizados no Centro-Oeste não eram específicos apenas daquela região do país onde atuava originariamente o bicheiro Cachoeira.

Também o senador petista Humberto Costa quer fazer de conta que não existem as gravações que implicam o senador Demóstenes Torres em diversos crimes e desvios de conduta.

Como relator da Comissão de Ética do Senado, que vai julgar o senador amigo do bicheiro, ele diz que não vai usar as gravações por temer que elas sejam desqualificadas pelo Supremo Tribunal Federal, o que anularia uma eventual decisão da Comissão baseada nelas.

Ora, se não vai se basear nas gravações, presume-se que Humberto Costa vai inocentar o senador Demóstenes Torres, ou então vai condená-lo por ter recebido do bicheiro um fogão e uma geladeira importadas como presente de casamento, o que ele já admitiu da tribuna do Senado.
Enquanto seus desvios éticos se resumiam a isso, o senador de Goiás se sentiu em condições de subir à tribuna para se defender, e recebeu o apoio de nada menos que 44 senadores de todos os partidos, dispostos a lhe perdoar esse pequeno desvio de conduta.

A situação de conluio com o bicheiro só ficou clara depois que as gravações da Polícia Federal vazadas para a imprensa mostraram o grau de intimidade entre os dois, e a atuação do senador em órgãos do governo e no próprio Senado a favor dos interesses de Carlinhos Cachoeira.

A atuação de sua defesa, na tentativa de impugnar as provas obtidas através das gravações, é perfeitamente compreensível, mas não se compreende que seus pares se antecipem a uma decisão da Justiça que está longe de ser consensual e retirem dos autos da Comissão de Ética as provas contra Demóstenes.

Aliás, foi mais uma vez devido ao vazamento de gravações e de dados do processo que a opinião pública ficou sabendo da verdadeira dimensão de mais esse escândalo.
Parece, portanto, mais um faz-de-conta o empenho do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski para que o processo que ontem colocou à disposição de várias comissões do Congresso não vaze.

O ministro chegou a citar os artigos que punem com a prisão a quebra do sigilo de Justiça. Embora seja esse o papel que lhe cabe, não é possível esquecer que o relatório está com ele há meses e há meses vem sendo vazado diariamente de diversas maneiras, sem que se possa saber as origens dessas informações.

As penas a que se refere Lewandowsky em seu ofício ao Congresso se referem àqueles que quebram o sigilo, e já há jurisprudência no sentido de que os meios de comunicação que reproduzem essas informações não são alcançáveis pelas punições, mas sim os servidores públicos que são os responsáveis pela preservação do sigilo do processo.

Nesse caso como em vários outros que provocaram a demissão de diversos ministros do governo Dilma, foram as revelações da imprensa que escancararam os desvios que estavam acontecendo em diversos ministérios, e sem essas revelações não teria sido possível apanhar os servidores públicos que se desviaram de suas funções.

Mesmo que nenhum deles tenha sido preso ou que os processos sobre seus “malfeitos” acabem dando em nada, pelo menos a opinião pública ficou sabendo o que se passava nas entranhas do governo.

Agora mesmo temos o exemplo do Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, que ficou com a investigação da Polícia Federal e do Ministério Público em sua gaveta inexplicavelmente sem denunciar o senador Demóstenes Torres ao Supremo, o que só viria a acontecer quando o escândalo estourou e as gravações foram vazadas pela imprensa.

A intenção de quem vaza essas informações, e os seus efeitos colaterais que podem favorecer o interesse de partes em conflito no submundo, não têm importância diante dos benefícios à sociedade que as revelações trazem. Assim como o ex-governador Garotinho tem interesse político em denunciar seu hoje inimigo Sérgio Cabral, também o bicheiro Cachoeira tinha muitos interesses em jogo quando fazia suas gravações clandestinas.

Mas a revelação por parte da imprensa ajuda a colocar luz no ambiente público.

Por Merval Pereira

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Em seu blog, Garotinho divulga imagens de Cabral com Cavendish







O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PP-RJ) colocou em seu blog fotos do atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), em momentos descontraídos ao lado do dono da Delta, Fernando Cavendish.

De acordo com Garotinho, as fotos foram tiradas em 2009 no Hotel Ritz, em Paris. Nas fotos, Cavendish aparece com secretários de Estado com lenços na cabeça e em posições que simulam danças. Além de Cavendish, no grupo estão o secretário de Saúde, Sergio Cortês, e o de governo, Wilson Carlos.

Já o governador Sérgio Cabral aparece em duas fotos, uma agachado fazendo pose e em outra dando risada. Segundo o ex-governador Garotinho, Cabral estaria dançando na “boquinha da garrafa”. Ele divulgou ainda mais fotos, entre elas uma na qual Fernando Cavendish aparece “abraçado com Régis Fichtner, em Paris, o homem designado por Cabral para investigar os contratos da Delta com o Estado”.

Recentemente, o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão defendeu os contratos com a Delta ao dizer que “obedeceram a todos os editais”. Pezão afirmou ainda que a Delta é “uma empresa agressiva, por isso tem mais contratos”.



Em nota, a Delta Construção afirmou não comentar sobre “fotos que retratam alguns minutos de descontração entre empresários e algumas pessoas que ocupam postos públicos e têm convívio social”. Ainda segundo a nota, “as fotos foram tiradas em confraternização posterior à homenagem pública recebida pelo governador do Estado do Rio. Isolar esses flagrantes instantâneos do contexto e dar-lhes conotação política não ajuda a explicar questões profundas que se colocam neste momento e para as quais a Delta Construção também procura respostas”.

A assessoria do governador Sérgio Cabral emitiu nota para explicar que o governador esteve em Paris “nos dias 14 e 15 de setembro de 2009″ em missão oficial. Segundo a nota, “após a solenidade, o Barão francês Gerard de Waldner (casado com a brasileira Sílvia Amélia de Waldner), chamou ao Clube Inglês convidados dele em homenagem ao governador e à condecoração recebida. Estavam presentes, secretários de estado, empresários brasileiros; o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman; empresários portugueses, como Antonio Pereira Coutinho; empresários franceses, como Thierry Peugeot, e Martin Bouygues”.

Por OESP

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Fernando Cavendish deixa comando da Delta


O empresário Fernando Cavendish renunciou na manhã desta quarta-feira (25) à presidência do Conselho de Administração da construtora Delta, depois de denúncias envolvendo seu nome ao do empresário Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso por suspeita de corrupção.
Cavendish será substituído pelo diretor da Delta Carlos Alberto Verdini.

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A Delta informou que o diretor Carlos Pacheco, envolvido nas denúncias, também se desligou da empresa.
A construtora está envolvida em várias obras públicas e já deixou o consórcio que reforma o Maracanã e pode sair da Transcarioca, além de ter pedido para sair de obras contratadas pela Petrobras para o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) e Reduc (Refinaria Duque de Caxias).
 
PRISÃO
Claudio Abreu, ex-diretor da Delta Construções e apontado como membro do grupo do empresário Carlinhos Cachoeira, foi preso hoje m Goiânia. Ele será transferido para Brasília.
A prisão é decorrência de uma operação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, em conjunto com a Polícia Civil do Distrito Federal, batizada de Saint Michel. As medidas foram cumpridas nas cidades de Brasília, São Paulo, Anápolis e Goiânia.
Também foram presos hoje um vereador de Anápolis e um servidor do governo do Distrito Federal, Valdir Reis.
As prisões são um desdobramento da Operação Monte Carlo, realizada pela Polícia Federal em 29 de fevereiro e que prendeu Cachoeira, suspeito de comandar uma rede de jogos ilegais.
Segundo a Delta, Abreu foi afastado da empresa no dia 8 de março pelo Conselho Deliberativo. Após o afastamento, a empresa destaca que instalou uma auditoria no escritório regional Centro Oeste da empresa, sediado em Goiânia.
"O escritório regional era dirigido por Cláudio Abreu. A Delta Construção deseja apurar a extensão e a intensidade do relacionamento do ex-diretor da empresa com o empresário Carlos Augusto Ramos e fatos, atos e ações narrados em inquérito pelo Ministério Público e pela Polícia Federal", informou a assessoria de imprensa.



  

sábado, 21 de abril de 2012

O primeiro round

A CPI criada para investigar os negócios do contraventor Carlos Cachoeira tem um grande desafio: desvendar o segredo do sucesso da empreiteira Delta, que tem na raiz de sua impressionante trajetória amizades influentes e pagamentos a políticos em troca de obras em governos e estatais


Por Hugo Marques, Daniel Pereira e Rodrigo Rangel

SOCIEDADE - A investigação sobre um esquema ilegal de jogos comandado por Cachoeira (à esq.) revelaram que a Delta, do empresário Fernando Cavendish (à dir.), usa políticos e dinheiro sujo para expandir seus negócios SOCIEDADE - A investigação sobre um esquema ilegal de jogos comandado por Cachoeira (à esq.) revelaram que a Delta, do empresário Fernando Cavendish (à dir.), usa políticos e dinheiro sujo para expandir seus negócios (Fotos Dida Sampaio/AE; Eduardo Knapp/Folhapress)

 
A Polícia Federal sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos
VEJA publicou em maio do ano passado uma reportagem exclusiva mostrando o que já parecia ser muito mais que uma simples coincidência: a empreiteira Delta fora alçada à condição de maior parceira do governo federal no mesmo ano em que contratou os serviços de consultoria do deputado cassado e ex-ministro José Dirceu. A Delta, mostrou a reportagem de VEJA, além de multiplicar sua carteira de obras, expandira sua atuação para setores nos quais não tinha experiência, como óleo e gás. Na ocasião, dois ex-sócios da empresa forneceram a primeira pista para desvendar essa impressionante história de sucesso. Segundo o depoimento deles, a empreiteira usava a influência que mantinha junto a políticos para obter vantagens. O próprio presidente da empresa, Fernando Cavendish, explicou como agia e qual era o preço a ser pago. Ele disse que com "6 milhões de reais comprava um senador". Sua explicação seguinte ficaria famosa: "Se eu botar 30 milhões de reais na mão de políticos, sou convidado para coisas pra c...". A conversa, gravada pelos ex-sócios, foi classificada como simples bravata por Cavendish. Não era. Ela era reveladora de um método.
A Delta vai aparecer como figura de proa na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada na semana passada no Congresso Nacional, em Brasília, para investigar as relações do contraventor Carlos Cachoeira - preso por comandar um esquema ilegal de exploração de jogos - com políticos e empresas que têm contratos com a administração pública. A construtora figurará como a principal acusada no esquema baseado em pagar propina em troca de favores e contratos em governos. Segundo a Polícia Federal, a empreiteira usou os tentáculos de Cachoeira para corromper autoridades nos governos de Tocantins, Distrito Federal e Goiás. Cavendish e a Delta tiveram sua ação restrita a essas três unidades da Federação? Não. O esquema atuou também no âmbito federal, usando o mesmo método de subornar políticos e servidores públicos para obter contratos. A engrenagem funcionou ativamente dentro de ministérios no governo passado e engolfou até mesmo a Petrobras, a maior e a mais poderosa das estatais brasileiras. A Petrobras é o principal dínamo dos investimentos públicos do país, protagonismo acentuado com a descoberta das reservas de petróleo no pré-sal. No governo Lula, foi aparelhada politicamente por militantes do PT, que ganharam o controle de cargos de diretoria. O aparelhamento político de estatais, como sempre, termina em prejuí­zo para a empresa e os contribuintes.
 
PROPINA - Em maio do ano passado, reportagem de VEJA revelou que o ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à Delta. Sócios da empreiteira, José Quintella e Romênio Machado revelaram a natureza do trabalho encomendado ao ex-ministro: abrir as portas do governo e de estatais
PROPINA - Em maio do ano passado, reportagem de VEJA revelou que o ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à Delta. Sócios da empreiteira, José Quintella e Romênio Machado revelaram a natureza do trabalho encomendado ao ex-ministro: abrir as portas do governo e de estatais
No fim de 2008, a Petrobras convidou a Delta para duplicar o parque de expedição de diesel na Refinaria de Duque de Caxias (Reduc). Um convite inusitado, uma vez que a empreiteira era especializada em obras rodoviárias e construção civil. Para suprir a carência técnica e se habilitar, a Delta comprou a Sigma, empresa que já tinha diversas parcerias com a estatal. Depois dessa negociação, a empreiteira assinou um contrato com a Petrobras no valor de 130 milhões de reais. A aproximação entre a Delta e a Sigma foi feita pelo engenheiro Wagner Victer, auxiliar do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que é compadre de Cavendish. O negócio parecia bom para todos os envolvidos. A Petrobras contratou a obra por um preço considerado baixo, a Delta se cacifou para atuar no bilionário ramo do petróleo e os donos da Sigma ficariam ainda mais ricos. Mas nem tudo correu como se esperava. Cavendish e seus sócios se desentenderam ao cabo de disputas financeiras. Dos ex-sócios inconformados partiu a revelação, certamente de alto interesse para a CPI instalada na semana passada, segundo a qual, para conseguir o contrato na Petrobras, a Delta teria pago propina. Sob a condição de anonimato, um deles contou a VEJA que a Sigma, além de servir como fachada técnica para as operações da Delta, funcionou como caixa para quitar faturas em que a própria Delta preferia não aparecer como devedora. Para ocultar o pagamento de propina, segundo o relato gravado do ex-sócio, que diz temer por sua segurança, a Sigma foi orientada a simular a contratação de serviços para justificar a saída da propina. Os diretores da Delta indicavam o valor e os funcionários da estatal a ser beneficiados. A fatura era então encaminhada a José Augusto Quintella e Romênio Marcelino Machado, ex-donos da Sigma que continuaram na empresa. Seguindo orientações de Cavendish, eles providenciavam notas frias para justificar os gastos com a propina. Essas notas eram assinadas por Quintella e Machado e por Flávio Oliveira, diretor da Delta. Só funcionários da área operacional da Petrobras, segundo o ex-sócio, receberam 5 milhões de reais. Um volume ainda maior teria sido pago a dirigentes da empresa. Desse mesmo caixa saíram os recursos para pagar os trabalhos de consultor prestados por José Dirceu.
Quintella e Machado não quiseram dar detalhes sobre o caso a VEJA. "Essa história será devidamente esclarecida no momento oportuno", disse Quintella, em nome dos antigos donos da Sigma. Os dois conhecem de perto a Delta. Foram eles que contaram a VEJA que Cavendish contratou, em 2009, o deputado cassado e ex-ministro José Dirceu como consultor com o objetivo de azeitar negócios junto à Petrobras, que era comandada por José Sergio Gabrielli, integrante da corrente política de Dirceu. Foi em uma reunião com Quintella e Machado que Fernando Cavendish fez seus notórios comentários sobre os preços e as vantagens de comprar autoridades. Na mesma conversa, gravada, Cavendish traçou o caminho até o cofre da Petrobras: "A Reduc foi convidada pelo jogo político da Delta. A gente foi convidado por uma articulação, um pedido que foi para cá, foi para lá...".
 
A Petrobras não quis se pronunciar sobre os fatos narrados por Cavendish e seus ex-sócios. A Delta diz que ganhou o contrato legalmente e não pagou propina. A CPI instalada na semana passada certamente terá meios de obter de Cavendish e da própria Petrobras informações mais consistentes sobre como o jogo político levava determinadas empresas a obter contratos na estatal no tempo em que Dirceu e Gabrielli reinavam. A Delta passou a existir como empreiteira de grande porte e alcançou o posto de maior fornecedora de serviços do estado brasileiro no governo Lula. Um "jogo político" que a CPI faria aos brasileiros o enorme benefício de elucidar. Não é pouca coisa. Segundo as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público que levaram Carlos Cachoeira à prisão, o contraventor funcionava como captador de negócios e lobista destacado da Delta Construções. Cachoeira operava em sintonia com Cláudio Abreu, designado formalmente pela empreiteira como seu representante para a Região Centro-Oeste. Os dois cuidavam de obter contratos junto aos governos do Distrito Federal, Goiás e Tocantins. Abreu tinha também missões junto a órgãos do governo federal. Foi ao cumprir uma dessas missões que ele emplacou a Delta como a principal parceira do Ministério dos Transportes e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Diretores da Delta passaram a visitar quase diariamente as dependências do ministério durante a gestão do senador Alfredo Nascimento, demitido no ano passado do cargo de ministro pela presidente Dilma Rousseff.
Na semana passada, Luiz Antonio Pagot, ex-diretor do Dnit demitido no bojo do episódio que levou à queda do ministro Alfredo Nascimento, se disse vítima de uma trama que teria sido tecida contra ele exatamente por ter oferecido obstáculos aos interesses da Delta no órgão. Estranha linha de defesa. Foi na gestão de Pagot que a Delta mais do que dobrou seu faturamento em contratos com o Dnit, alcançando 658 milhões de reais em 2010. É quase 90% de tudo o que a empreiteira faturou no governo federal. Que obstáculo, então, foi esse? Suposta vítima de uma conspiração, Pagot, lembre-se, foi quem reuniu empresários no Ministério dos Transportes para ouvir uma explanação do deputado Valdemar Costa Neto, do PR, réu no processo do mensalão. Entre os convidados por Pagot estavam empreiteiros e consultores. Costa Neto falou da importância para o PR de tirar do papel obras bilionárias de restauração de rodovias federais. Muitos dos participantes da reunião, inclusive concorrentes da Delta, ficaram sabendo mais tarde que, se fossem escolhidos para fazer as obras, deveriam entregar ao partido propinas de 4% a 5% do valor de cada fatura paga. A investigação jornalística tem de se contentar com as informações recebidas e checadas das fontes que participaram da reunião. A CPI tem força e os meios legais para passar a limpo essa história.
A Polícia Federal sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Carlinhos Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos. Entre 2010 e 2011, empresas-fantasma criadas por Cachoeira receberam da Delta nada menos que 40 milhões de reais. Ras­trean­do o caminho do dinheiro, os policiais e promotores descobriram que parte dele foi parar na contabilidade de empresas que no mesmo período fizeram repasses a políticos - doações eleitorais declaradas, inclusive. O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) estão entre os que receberam doações de campanha de empresas cujas contas foram irrigadas com recursos que Cachoeira recebia da Delta. Na semana passada, Cavendish foi assertivo em uma entrevista à Folha de S.Paulo. Ele disse que dá dinheiro a políticos para receber, em troca, informações sobre licitações. "Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é toma lá dá cá." O método da Delta é conhecido. Para ganhar os contratos, a empresa joga o preço lá embaixo. O pulo do gato vem depois, quando a parceria já está em vigor. Em alguns casos, a empresa não executa os serviços certa de que não será incomodada pelos órgãos contratantes comandados por políticos de partidos aquinhoados com doações. Dessa forma, sobra dinheiro para abastecer os cofres da empresa e para remunerar os amigos no poder. Outra prática é inflar contratos com reajustes e aditivos. Conforme revelado por VEJA, a presidente Dilma Rousseff, antes de demitir a cúpula dos Transportes, deu um pito nos seus integrantes justamente em razão do excesso de aditivos contratuais: "Vocês precisam de babá".
O procurador Marinus Marsico, representante do Ministério Público no Tribunal de Contas da União, diz que os aditivos que inflam os contratos não têm outro nome: "É roubalheira mesmo". Incentivador da CPI do Cachoeira, o ex-presidente Lula sabe dos riscos embutidos na investigação de aliados. Na quarta-feira, ele perguntou a peemedebistas: "E o Serginho, como está?". Ele se referia a Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro. Cabral é padrinho de casamento de Cavendish. Conheceram-se em 2000 e se tornaram amigos inseparáveis. O fortalecimento dessa relação foi acompanhado pelo crescimento vertiginoso da Delta em contratos com a administração fluminense. Em dez anos, a empresa conseguiu 2,2 bilhões de reais com o estado do Rio. A maior parte - 1,4 bilhão - veio depois que Cabral assumiu o governo, em 2007. Em 2003, a Delta faturou 228 milhões de reais, entre clientes públicos e privados. Em 2010, 3,5 bilhões de reais, um crescimento de 1 400%. O ritmo das doações também aumentou. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Delta doou, legalmente, meros 60 000 reais em 2002. Em 2010, doou 2,3 milhões - metade para o PT, metade para o PMDB.
Com reportagem de Alessandra Medina e Ana Luiza Daltro



 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

'Nunca vi Demóstenes', diz dono da empreiteira Delta


FERNANDO CAVENDISH NEGA QUE SENADOR SEJA 'SÓCIO OCULTO' DE SUA EMPRESA E AFIRMA NÃO TER CONHECIMENTO DE IRREGULARIDADES



O empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, em entrevista à Folha
O empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, em entrevista à Folha



Acusado de abastecer empresas do esquema de Carlos Cachoeira, o empreiteiro Fernando Cavendish nega qualquer irregularidade. Ele concedeu ontem entrevista exclusiva à Folha.


Em uma conversa gravada, o senhor disse que, se colocar R$ 30 milhões na mão de político, ganha negócio. O senhor já pagou suborno?
Nesta conversa, eu debatia com sócios da Sygma, empresa [da área de petróleo e gás] que adquirimos por R$ 30 milhões. Eles não performavam. Eu os chamei para renegociar o preço. E me gravaram clandestinamente. Eu queria dizer: 'Olha, R$ 30 milhões, se eu fosse fazer projetos políticos, doações de campanha...'

Ganho qualquer negócio.
A expressão foi muito ruim. Ficou horrível, horrível. E agora vou encarar uma CPI da pior forma possível.

Já pediram propina ao senhor? E o senhor pagou?
Olha só, o que se pede são apoios políticos, para campanhas, que é uma coisa legitimada, oficializada e que várias empresas fazem.
Se apoio projetos, faço doações, não é que depois vá ganhar [licitações para obras]. Mas posso estar pelo menos bem representado, tenho a oportunidade de ter informação dos futuros investimentos, das prioridades políticas.
Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é normal? Não é toma lá dá cá. Tem licitação.

A relação de empreiteiras e políticos no Brasil são historicamente promíscuas.
Toda relação entre seres humanos que buscam a intimidade do dia a dia, de trabalho, gera às vezes alguns desvios. Essa intimidade, essa promiscuidade, não são só as construtoras que fazem isso. Só que tem um problema: a gente mexe com dinheiro público. E aí não podemos errar, não podemos pecar.

O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) é sócio oculto da Delta, como diz o Ministério Público?
Não. Nunca vi o Demóstenes. Ninguém é sócio da Delta. Põe isso na sua cabeça. Já inventaram dezenas de sócios para a Delta. [O ex-governador do Rio Anthony] Garotinho foi sócio da Delta, o [ex-prefeito do Rio] Cesar Maia foi sócio. Esquece isso. Não existe. É factóide.

A Delta teria abastecido empresas fantasmas de Cachoeira em Goiás e, através delas, pago propina.
A empresa tinha um diretor no Centro-Oeste, Claudio Abreu. Sou presidente do conselho, no Rio. Não sei o que está acontecendo em Goiás, no Nordeste, no Norte.
O Claudio conheceu o Carlos Augusto Ramos [Carlinhos Cachoeira]. Eu sei quem cada um tá conhecendo? O que me importa são os resultados, os números, que me enviam em relatórios semestrais. Eu não pouso em Goiânia há cinco anos.
Eu sabia por alto que ele conhecia [ Cachoeira]. Para mim, era um empresário, era um cara bem visto no Estado. Eu não conheço os caras do Rio, vou conhecer de Goiás?
Nesse período todo de escuta, não tem uma única conversa que dê um indício de que eu tinha um conhecimento dessa movimentação.
O Claudio, nessa amizade, extrapolou os limites da atuação dele na Delta.

Conheceu Cachoeira?
Tive um encontro casual no bar de um hotel, o Claudio estava lá e me apresentou, muito rápido.
O Claudio Abreu nunca informou que dava dinheiro para o esquema do Cachoeira?
Nunca. Ele era sócio de terceiros, ia comentar comigo? A gente abriu uma auditoria para investigar essa movimentação.

Foram R$ 39 milhões. Não deu para perceber?
A empresa rodou nesses dois anos, 2010 e 2011, R$ 5 bilhões. Tem 46 mil fornecedores. Esse dinheiro nesse universo, é imperceptível.

A Delta é acusada também de favorecimento no Distrito Federal. O senhor conhece o governador Agnelo Queiroz?
Nunca vi. Eu tenho um crédito lá de R$ 30 milhões para receber, no contrato do lixo. A gente lá só apanha. Se eu tivesse ajudado na campanha dele, precisava de Dadá [araponga do esquema Demóstenes], de fulaninho, de beltraninho, contando história lá embaixo?

E o governador de Goiás, Marconi Perilo?
Não conheço, nunca vi.

Por que a Delta contratou o ex-ministro José Dirceu como consultor?
Um diretor nosso conheceu um assessor do José Dirceu. E falou pra mim: 'Quer conhecer o José Dirceu?' Só que fizeram um contrato de R$ 20 mil. Até hoje não consegui entender. Mas o imbecil lá resolveu fazer isso. Tanto é que, quando soube, eu disse: 'Pode parar essa porra!' Eu estive com José Dirceu uma vez só. Ele falou sobre a Índia, outros países. E foram dizer que a Delta é o que é por causa dele. Isso é esdrúxulo.

Como a Delta conseguiu tanta obra no PAC?
Mas essa é uma sacanagem. Quando o PAC foi proposto, anunciaram R$ 250 bilhões de investimentos em quatro anos. Quando fizeram um levantamento aí em um site, houve a indicação de que a Delta estava liderando o PAC. A gente tinha faturado uns R$ 400 milhões em 2009. Mas isso era em investimentos dos ministérios. Virei líder do PAC.
Sabe quanto vão custar [as hidrelétricas de] Santo Antonio, Belo Monte, Jirau? Só Santo Antonio corresponde ao faturamento de dez anos da Delta. Como posso, com essa minha conta de retalho, de 'trocentos' contratinhos que, somados, dão R$ 800 milhões, liderar o PAC? Estou liderando p. nenhuma. Mas fica bonito, na hora de bater no PT, dizer que o líder do PAC está cheio de problemas. Esquece. Eu devo estar em décimo no ranking do PAC.

O senhor é amigo do governador do Rio, Sergio Cabral. E, no governo dele, ganhou R$ 1,4 bilhão em contratos.
Não é justo falarem isso, não é decente. Eu cresci muito mais no governo do Rio antes de ele assumir. Em 2001, 80% da carteira da Delta era do Estado do Rio.
Conheci Sergio Cabral há dez anos, por meio das nossas esposas. Eu admiro ele como governante, amigo, pai, filho, irmão. É um puta sujeito. No acidente de helicóptero em que morreram as pessoas que eu mais amo [sua mulher e filho, em 2011], eu estava com ele [Cavendish e Cabral iam a uma festa na Bahia]. Tá bom. Mas não comecei a estar com ele depois de ser governador. Nós eramos a maior empreiteira do Rio antes do governo Cabral, com Cesar Maia e Garotinho. Eu era chamado o rei do Rio. Hoje a maior é a Odebrecht.

A Delta cresceu no Rio?
Quando assumi a Delta, em 1995, levando a empresa de Recife, onde foi fundada, para o Rio, tínhamos 200 funcionários. O DNER era praticamente nosso único cliente. Nossas primeiras obras foram na prefeitura do Rio, na gestão do Cesar Maia.
Ele abriu o mercado. Não exigia qualificação técnica mais restritiva que exigisse empresas maiores. Para nós foi ótimo. A gente sabia trabalhar com custo baixo, produtividade e ter um preço muito competitivo. Só existe uma forma, pelo menos para a Delta, que era uma empresa nova, de ganhar as concorrências: disputando preço.
Isso foi dito pelo filho do Cesar Maia [Rodrigo Maia, do DEM]: "Graças à Delta, nós tivemos essa economia de orçamento". Em todas as áreas em que atuamos, quem oferece preço baixo é a Delta.
Eu não sou mais querido por isso, não. Eu sou mais odiado. Esse nível de agressividade sempre foi na contramão da cultura do mercado.
Muitos se enganam, dizem que eu sou um cara muito articulado politicamente. Mentira! Eu sou o grande articulador, lobista profissional? Isso é uma mentira.

De que estados vêm seus maiores faturamentos?
Do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde fazemos obras de conjuntos habitacionais, urbanização. Fizemos também a ampliação da Marginal [Tietê].

O escândalo prejudica os negócios?
Vou quebrar.

Será?
Vou quebrar. Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação imediata de órgãos de controle. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido.
O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos.
Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito. Aí vem a Receita Federal. Todos precisam mostrar que a empresa tem que ser fiscalizada em todos os níveis. Não tenho caixa. Se eu não receber antes de acabar meu dinheiro, eu quebrei.

Por Mônica Bergamo, Folha de São Paulo

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O medo da CPI da 'tia do PAC'



Se Dilma Rousseff é a 'mãe do PAC', a empreiteira Delta, com R$ 3,6 bilhões de encomendas, é sua tia 

Materializou-se um pesadelo do comissariado petista. Foi ao ar o grampo em que o empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira, Delta diz que "se eu botar 30 milhões [de reais] na mão de um político, eu sou convidado para coisa para c..... Pode ter certeza disso, te garanto".
A versão impressa dessa conversa surgiu em maio passado, numa reportagem da revista "Veja". Ela descrevia uma briga de empresários, na qual dois deles, sócios da Sygma Engenharia, desentenderam-se com Cavendish e acusavam-no de ter contratado os serviços da JD Consultoria, do ex-ministro José Dirceu, para aproximar-se do poder petista. A conta foi de R$ 20 mil.
À época, o senador Demóstenes Torres, hoje documentadamente vinculado a Carlinhos Cachoeira, informou que proporia uma ação conjunta da oposição para ouvir os três empreiteiros. Deu em nada, como em nada deram inúmeras iniciativas semelhantes. Se houve o dedo de Cachoeira na denúncia dos empresários, não se sabe.
Diante do áudio, a Delta diz que tudo não passou de uma "bravata" de Cavendish. O doutor, contudo, mostrou que sabe se relacionar com o poder. Tem 22 mil funcionários e negócios com obras e serviços públicos em 23 Estados e na capital.
No Rio de Janeiro, participa do consórcio da reforma do Maracanã. Seu diretor regional de Goiás era interlocutor frequente de Carlinhos Cachoeira. Na última eleição, Cavendish botou R$ 1,1 milhão no cofre do Comitê Nacional do PT e R$ 1,1 milhão no PMDB. Em ambos os casos as doações foram legais.
Em apenas 15 meses, durante o segundo mandato de Sérgio Cabral, de quem Cavendish é amigo pessoal, a Delta conseguiu contratos no valor de R$ 1,49 bilhão, R$ 148 milhões sem licitações. Suas contas com o PAC chegam a R$ 3,6 bilhões.
Talvez o comissariado petista pensasse que o grampo de 2009 seria sepultado. Seu erro foi, e continua sendo, acreditar que pode empurrar esse tipo de conta para mais tarde. Se o comissário Ruy Falcão acreditou que a CPI em torno das atividades de Carlinhos Cachoeira exporia a "farsa do mensalão" (rótulo criado por Lula), enganou-se.
O PT tem um encontro marcado com as malfeitorias de seu comissariado. Desde 2004, quando apareceu o primeiro grampo de Cachoeira, no qual ele corrompia um servidor que se tornaria subchefe da Casa Civil, a questão é simples: corta na carne ou continua a contaminar o organismo.
O que o comissariado vem fazendo é mostrar-se poderoso o suficiente para dobrar as apostas. Tamanha é sua onipotência que há nele quem creia ser possível contaminar ministros do Supremo Tribunal Federal.
Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo e ex-ministro de Lula, condena a possibilidade de o ministro José Dias Toffoli vir a se declarar impedido de julgar o mensalão, mesmo tendo sido assessor do PT, da Casa Civil de José Dirceu e advogado-geral da União de Lula. Nas suas palavras: "Ele não tem esse direito". (O ministro Ricardo Lewandowski, em cuja mesa está o processo do mensalão, pertence a uma próspera família de São Bernardo, em cuja Faculdade de Direito diplomou-se.)
Passaram-se sete anos do surgimento da palavra "mensalão" e o PT continua adiando a hora da faxina. Na semana passada, os comissários flertaram com a ideia da criação de uma CPI que supunham letal para a oposição. Em poucos dias, descobriram que estavam enganados.

Por Elio Gaspari - Folha

terça-feira, 17 de abril de 2012

Fernando Cavendish (Dono da Delta Construções) em: O preço de um político




Sob investigação da Polícia Federal por seu envolvimento com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, a empresa Delta Construções encontra-se pendurada nas manchetes de ponta-cabeça há semanas. As suspeitas que recaem sobre a empresa ganharam o adorno de uma voz.

Sem que soubesse, o presidente da Delta, Fernando Cavendish, foi gravado por ex-sócios numa reunião ocorrida em dezembro de 2009. Na fita, o empresário declara que, pagando propina a políticos, é possível obter contratos com o governo.

O áudio veio à luz no blog QuidNovi, do jornalista Mino Pedrosa. Ele já trabalhou para Cachoeira. Hoje, é visto como uma espécie de porta-voz oficioso do contraventor. Por mal dos pecados, a Delta reconheceu, em nota, que a voz que soa na fita é mesmo de Cavendish.

Num trecho, o mandachuva da Delta soa assim: “Se eu botar R$ 30 milhões na mão de políticos, eu sou convidado pra coisa pra caralho! Pode ter certeza disso, te garanto. Se eu botasse dez pau que seja na mão de nêgo… Dez pau! Ah… Nem precisava de muito dinheiro não, mas eu ia ganhar negócio. Ôooo…”

Noutro trecho, Cavendish declara: “Estou sendo muito sincero com vocês: R$ 6 milhões aqui, eu ia ser convidado. Ô, senador fulano de tal, eu tenho cinco convites aqui. Toma, tá aqui ó. Pá! Se convidar, eu boto o dinheiro na tua mão.”

O dono da Delta conversava com dois empresários da Sygma, uma empresa com a qual mantinha sociedade na época. Na nota que divulgou nesta segunda (17), a Delta não nega o teor das declarações do seu presidente. Informa apenas que o áudio foi “produzido clandestinamente, montado e editado”.

O texto acrescenta que “os ex-sócios dessa empresa perderam um processo de arbitragem e hoje estão sendo acionados pela Delta por calúnia e difamação.” Alega que as frases de Cavendish “foram pronunciadas em tom de bravata, em meio a uma discussão entre ex-sócios que, desde então, se enfrentam na Justiça.”

Alega-se, de resto, que “o áudio não representa o que a Delta e seus controladores pensam.” Curioso, muito curioso, curiossíssimo. Quer dizer que, em reunião fechada, longe dos refletores, o presidente da campeã de faturamento nas orbras do PAC se expressa assim, por meio de bravatas vadias? Então, tá.

Afora as complicacões que já enfrenta junto à Polícia Federal e ao Ministério Público, a Delta tornou-se alvo obrigatório da CPI do Cachoeira. A oposição avisa que Cavendish, cujas bravatas denunciam os métodos, será personagem do primeiro lote de requerimentos de convocação de depoentes.


Via Josias de Souza

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Os dedos de Midas e o cordel das marionetes

Sobre CPIs, o que mais se ouve é que “todo mundo sabe como começa mas ninguém imagina como termina”. Quanto a essa CPMI que está sendo instalada no Congresso sobre as relações de Carlinhos Cachoeira com Demóstenes, como alvo principal, e deputados federais como secundários, especulação e receio não vão faltar.

Ainda em silêncio, Cachoeira sinaliza com a delação premiada para alertar os amigos que, conforme o aperto da corda e antes que perca o ar, informações podem surgir. A possibilidade tem tirado a tranquilidade de muita gente, de diferentes matizes e escalões políticos. E pra piorar, logo-logo deve surgir uma figura nova para ampliar o leque e apimentar o caldo da CPI.

Vamos pagar pra ver como será a entrada de Fernando Cavendish em cena. Presidente do Conselho Administrativo da Delta Construções, que detém os maiores volumes de contratos com entes públicos no país, Cavendish é o Midas do PAC. Só em 2011 seus contratos com o governo federal ficaram em torno de R$ 3 bilhões. A cronologia mostra a ascensão dele, que passa de figurante de 5ª, de pé ao fundo, a convidado de honra, com assento em palanques em lançamento / inauguração de obras.

Dizem que tudo o que Fernando Cavendish toca vira ouro. Menos para o ex-amigo e sócio Marcelino Machado, que foi “tocado” para fora da sociedade por discordância de condutas e hoje está numa pendenga litigiosa envolvendo as empresas Delta e Sigma. A Delta tem negócios em várias áreas com prefeituras, governos estaduais e com a administração federal. Contratos são aditivados a torto e a direito e os MPEs começam a abrir caixas-pretas por esse Brasil afora. Quando o MPF entrar, a coisa deve empretejar de vez.

Fernando Cavendish era o patrão maior de Cláudio Abreu, defenestrado de uma diretoria regional da Delta após a ação da PF que prendeu Cachoeira, Wladimir Garcez, delegados e – não se sabe em quanto tempo – mas ainda deve botar mais gente na cadeia. É lógico supor que nada deveria acontecer sem o conhecimento dele. E também que não se colocaria uma estrutura como a da Delta a serviço de terceiros sem uma contrapartida. Conivência, sociedade, formação de quadrilha...?

A mídia fala em “tentáculos” de Carlinhos Cachoeira. O alcance deles é o que a CPI deve começar buscando. Não seria surpresa se mais à frente descobrirem que esses tentáculos foram manobrados por alguém mais acima. Seria como imaginar a encenação do malfeitor num teatrinho de marionetes. E que nas pontas que conduzem as cordas estariam nada menos que os dedos de Fernando Cavendish – por trás do palco, mas participando da cena como operador maior de atores e figurantes desse triste cenário político.

Por Caio Jacobson - Brasil247