Mostrando postagens com marcador Pagot. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pagot. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de maio de 2012

O fim da farsa de Pagot

Ex-diretor de Infraestrutura de Transportes do Dnit tentou se transmutar de vítima, mas a mentira não foi longe: na gestão dele a Delta multiplicou seus negócios


ANTI-HERÓI - Demitido após o escândalo de corrupção no Ministério dos Transportes, Luiz Pagot, ex-diretor do Dnit, tentou forjar uma história para justificar sua queda, mas acabou desmentido  
ANTI-HERÓI - Demitido após o escândalo de corrupção no Ministério dos Transportes, Luiz Pagot, ex-diretor do Dnit, tentou forjar uma história para justificar sua queda, mas acabou desmentido 
 
Em julho do ano passado, uma reportagem de VEJA revelou que no Ministério dos Transportes funcionava uma organizada estrutura de corrupção.

Em troca de contratos e liberação de faturas, empreiteiras eram instadas a recolher propina ao caixa do Partido da República, o PR, que comanda a pasta.

Dias depois da revelação, a presidente Dilma Rousseff demitiu toda a cúpula do ministério, incluindo Luiz Antonio Pagot, o então diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o órgão responsável pela construção e manutenção das estradas federais.

Pois esse mesmo Pagot, recentemente, tentou se transmutar em vítima, atribuindo sua demissão a um complô tramado pelo grupo de Carlos Cachoeira.

Em sua versão, o defenestrado perdeu o cargo não por seus defeitos, mas por suas qualidades. Ele teria contrariado interesses da construtora Delta, empreiteira que, se sabe agora, tinha Cachoeira como lobista. Pagot chegou a insinuar que a reportagem teve origem em informações da quadrilha de Cachoeira.

O contorcionismo retórico de Pagot, como a mentira, tinha perna curta. Não foi longe. Já se sabia que na gestão dele a Delta multiplicou seus negócios, transformando-se na maior prestadora de serviços do governo, com faturamento superior a 3 bilhões de reais em contratos de rodovias, muitos deles eivados de irregularidades.

Pagot foi um Papai Noel para a empreiteira.

Na semana passada, foram reveladas novas gravações telefônicas captadas pela Polícia Federal que desmontam a tese do ex-diretor do Dnit. Os diálogos mostram que a quadrilha de Cachoeira estava muito preocupada com a demissão de Pagot, que após a divulgação das irregularidades foi convocado para depor perante uma comissão do Senado e ameaçava fazer revelações sobre o esquema de propina no ministério.

Em um dos diálogos, Cachoeira fala com o representante da construtora no Centro-Oeste que, se Pagot dissesse qualquer coisa sobre o esquema, estaria dando "um tiro no próprio pé".

Ele, de fato, se calou diante da comissão do Senado. O ex-diretor do Dnit, segundo a Polícia Federal, participou de um jantar com o senador Demóstenes, Cachoeira e o dono da Delta, Fernando Cavendish, para tratar dos negócios da empreiteira.

Essa relação explicaria em parte o sucesso da Delta, que tinha em seu rol de "consultores" o ex-ministro José Dirceu, apontado pelo Ministério Público como o "chefe da quadrilha do mensalão".

A oposição quer convocar Pagot para depor. Boa chance para ele, desta vez, contar tudo o que sabe.

Por Daniel Pereira, Otávio Cabral e Rodrigo Rangel

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Cachoeira agiu para evitar que Pagot revelasse esquema da Delta no Dnit, indica grampo da PF



Ignorados no plano de trabalho da CPI do Cachoeira, Fernando Cavendish, dono da Delta Construções, e Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do Dnit, são personagens centrais de diálogos telefônicos captados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo, deflagrada em fevereiro.

As conversas revelam indícios da existência de um esquema para favorecer a Delta no Dnit, órgão do Ministério dos Transportes que cuida da construção e manutenção de estradas e toca obras do PAC. O áudio foi veiculado pelo ‘Jornal da Globo’ horas depois da aprovação do plano de ação do deputado Odair Cunha (PT-MG), o relator da CPI.

Soam nos grampos as vozes do contraventor Carlinhos Cachoeira, do senador Demóstenes Torres e de Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta na região Centro-Oeste. A tróica receava que Pagot revelasse os segredos da empreiteira e da quadrilha depois de ter sido demitido do Dnit por Dilma Rousseff, em julho do ano passado.

De acordo com a Polícia Federal, Pagot participara de um jantar com Cachoeira, Demóstenes e Fernando Cavendish. As escutas indicam que o bicheiro recorreu ao padrinho político de Pagot, o senador Blairo Maggi (PR-MT), para conter os arroubos do “afilhado”, cuja queda fora atribuída a irregularidades no Dnit.

Ouvido, Blairo Maggi nega que tenha sido procurado. O nome dele é mencionado numa primeira conversa de Demóstenes com Cachoeira. O senador soou preocupado. Parecia temer que Pagot levasse os lábios ao trombone:

- Demóstenes: Você teve notícia?

- Cachoeira: Não, Blairo mandou falar que não tem nada não. Blairo que manda nele, uai.

- Demóstenes: Mas o Blairo falou que tá tudo ok?

- Cachoeira: Falou… Mandou falar.

- Demóstenes: Ah, então tá bom. Então beleza. Então falou. Até mais.

Noutro grampo, Cachoeira conversa com Cláudio Abreu, na época o mandachuva da Delta no Centro-Oeste. Fica subentendido no diálogo que, se recorresse ao trombone, Pagot teria o que soprar:

- Cachoeira: Ele não vai falar nada não. Senão o cara fala que jantou lá, tal, com…Com Fernando [Cavendish], com ele. Não vai falar isso não, porque tá dando tiro no pé também, né?

- Cláudio: É, positivo. Tem nada a ver.

Um dia depois, Cachoeira e Demóstenes como que celebram o silêncio de Pagot:

- Cachoeira: Doutor, deu certo aí?

- Demóstenes: Uai! Deu. O homem não me falou nada não. Tudo tranquilo.

No seu plano de trabalho, o relator petista Odair Cunha incluiu no rol de personagens a serem inquiridos pela CPI o contraventor Cachoeira, o senador Demóstenes e o ex-diretor da Delta Cláudio Abreu. Porém, excluiu da lista Fernando Cavendish e Luiz Pagot.

A exclusão esconde a intenção não declarada de tentar afastar a CPI da administração federal e do PAC, o programa de obras que Dilma coordenava desde a gestão Lula, supostamente com rigores de “mãe”.



Há 13 dias, numa entrevista ao repórter Murilo Ramos, Pagot associara seu afastamento do Dnit à ação da quadrilha de Cachoeira e do comando da Delta: “Fui surpreendido por ter sido afastado através de uma negociata de uma empreiteira com um contraventor. Isso serviu para que fosse ditado meu afastamento. É um verdadeiro descalabro”, dissera.

Pagot quebrou o silêncio depois que veio à luz um grampo captado pela PF em 10 de maio de 2011, dois meses antes de sua queda. Contém um diálogo de Cachoeira com Cláudio Abreu. O então diretor da Delta informa ao pós-bicheiro que plantara informações contra Pagot na imprensa: “Enfiei tudo no rabo do Pagot”, diz ele a certa altura.

Na versão de Pagot, a plantação de notícias deveu-se a “dissabores” que ele diz ter causado à Delta, cujos contratos com o Dnit “passaram a ter problemas” entre 2009 e 2010. Localizou os “problemas” no Ceará, no Mato Grosso, em Goiás, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O ex-diretor do Dnit contou também que parlamentares fizeram lobby em favor da Delta. Mencionou dois deputados federais: o réu mensaleiro Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Wellington Fagundes (PR-MT). Pagot só não havia informado que participara do jantar com Cachoeira, Demóstenes e Cavendish.

A CPI poderia desvendar os mistérios. Porém, tomado pelo plano de trabalho que apresentou, o relator Odair Cunha não parece interessado nesse pedaço das investigações da Polícia Federal que aproxima a quadrilha de Cachoeira da Esplanada dos Ministérios e das obras do PAC.

Pelo cronograma do relator, a CPI se dedicaria a desvendar a ação da “organização criminosa” comandada por Cachoeira e suas relações com o Legislativo, membros do Judiciário e do Ministério Público, com policiais federais e estaduais, com “servidores e agentes públicos de governos estaduais” e “com setores empresariais e agentes de mercado, inclusive com a diretoria da Delta na região Centro-Oeste.”

Pressionado por parlamentares da oposição, Odair Cunha fez uma concessão. Substituiu a expressão “servidores e agentes públicos de governos estaduais” por “servidores e agentes públicos integrantes de governos federal, estaduais e municipais.” Absteve-se porém de incluir o ex-agente público federal Pagot no rol de depoentes.

De resto, não abriu mão de manter no texto a referência ao “Centro-Oeste”. Alegou que, ao utilizar o vocábulo “inclusive”, deixou em aberto a possibilidade de a investigação ser levada a outros pedaços do mapa brasileiro. Havendo disposição genuína, a entrevista de Pagot indica a necessidade de incluir na geografia do escândalo pelo menos mais duas regiões: o Nordeste (Ceará) e o Sudeste (Rio e São Paulo). Mas, por ora, consta da lista de depoentes da CPI apenas Cláudio Abreu, o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste. Nada de Cavendish.

Por Josias de Souza