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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Marconi Perillo é citado 237 vezes em escutas da Operação Monte Carlo



O delegado Matheus Mella Rodrigues afirmou nesta quinta-feira, 10, na sessão reservada da CPI do Cachoeira, que durante as interceptações telefônicas feitas na Operação Monte Carlo o nome do governador de Goiás, Marconi Perillo, foi citado 237 por pessoas envolvidas no esquema comandado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira. A Monte Carlo levou à prisão Cachoeira e seu grupo no final de março.
O investigador disse que em apenas duas ocasiões Perillo aparece conversando diretamente com Cachoeira. As ligações, segundo parlamentares ouviram do delegado, serviram para marcar jantares com a participação dos dois.

"Fazendo uma figura de linguagem: o que dá para entender é que o governador de Goiás era o Cachoeira", afirmou o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), que defende a imediata convocação do governador tucano para explicar a ligação de Perillo com o contraventor.

"O fato de existirem essas ligações não querem dizer nada", afirmou o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES). O peemedebista disse, que, embora acredite que tenha havido uma "promiscuidade" de integrantes do governo de Goiás com o grupo do contraventor, é necessário avaliar a conveniência de convocar autoridades para não se perder o foco das investigações.

Na sua exposição inicial, o delegado também disse, segundo integrantes da CPI, que foram interceptadas com autorização judicial 260 mil ligações, das quais 17 mil consideradas pela PF como importantes para a investigação. Houve ainda 4 mil ligações fortuitas, quando surgem pessoas que originalmente não tem vinculação direta com os fatos sob apuração.

O investigador afirmou que há 81 autoridades com foro especial citadas nas conversas. Entre elas, vereadores, deputados federais e estaduais, senadores, secretários de Estado, ministros do Supremo Tribunal Federal.

Por Ricardo Brito, OESP

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Saiba por que a CPI pode assar mais uma pizza




Convocada sob estrondosa unanimidade, apoiada por governistas e oposicionistas, a CPI do Cachoeira expôs seus calcanhares de vidro já na primeira sessão deliberativa. Aprovou-se um plano de trabalho que, seguido ao pé da letra, pode resultar numa pantomima que não cobrirá nem os fatos e indícios já esmiuçados nos inquéritos feitos pela Polícia Federal. Vão abaixo, em seis tópicos, os lances que sinalizam a preparação do forno:

1. A Delta: Dono da empreiteira pilhada em negócios ilícitos com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, Fernando Cavendish foi solenemente ignorado no plano de trabalho apresentado pelo relator Odair Cunha (PT-MG). A exclusão do empreiteiro do rol inaugural de depoentes é inexplicável, inacreditável e inaceitável.
É inexplicável porque o nome de Cavendish consta da Operação Monte Carlo, um dos inquéritos que motivaram a instalação da CPI. Não bastassem as menções, a PF informa que a Delta despejou R$ 39 milhões nas caixas registradoras de empresas de fachada da quadrilha. Suspeita-se que a verba tenha irrigado campanhas eleitorais. Não é dinheiro de cafezinho. A suposição de que os cifrões saíram das arcas da Delta sem o conhecimento do seu controlador é algo que não faz nexo.



O desinteresse por Cavendish é inacreditável porque a voz dele soou numa gravação feita às escondidas por dois ex-sócios. Considerando-se o conteúdo, essa fita deveria atear em qualquer congressista um desejo irrefreável de ouvir o empreiteiro, não o contrário. Cavendish disse:
“Se eu botar R$ 30 milhões na mão de políticos, eu sou convidado pra coisa pra caralho! Pode ter certeza disso, te garanto. Se eu botasse dez pau que seja na mão de nêgo… Dez pau! Ah… Nem precisava de muito dinheiro não, mas eu ia ganhar negócio. Ôooo…”

Noutro trecho, o dono da Delta declarou: “Estou sendo muito sincero com vocês: R$ 6 milhões aqui, eu ia ser convidado. Ô, senador fulano de tal, eu tenho cinco convites aqui. Toma, tá aqui ó. Pá! Se convidar, eu boto o dinheiro na tua mão.”

De resto, a sumiço de Cavendish do plano de trabalho da CPI é inaceitável porque a Delta, sexta maior construtora do país, ocupa o topo do ranking das obras do PAC, o bilionário programa de obras do governo federal. Investigar a empresa em todos os seus desvãos (da sala da diretoria à portaria) não é –ou não deveria ser— algo opcional. Tornou-se um imperativo ético.

 

2. A geopolítica: No plano de trabalho redigido por Odair Cunha e aprovado pela CPI, anotou-se que a investigação vai abarcar a quadrilha e suas ramificações. Ao citar o tentáculo privado da organização, o relator escreveu que serão perscrutadas as relações da turma de Cachoeira “com setores empresariais e agentes de mercado, inclusive com a diretoria da Delta na região Centro-Oeste”.

Ora, Delta Centro-Oeste é coisa inexistente. Afora os contratos beliscados na Esplanada dos Ministérios, a empreiteira toca obras em 23 Estados e no Distrito Federal. Imaginar-se que a empresa opera à magem da lei apenas na região central do país é algo que, de novo, não orna com a lógica. A Contraladoria-Geral da União aponta irregularidades em canteiros administrados pela Delta desde 2008.

A despeito disso, Dilma Rousseff e sua equipe de controladores só acordaram para a encrenca depois que a Delta virou sinônimo de escândalo. Só há 15 dias, por ordem da presidente, o ministro Jorge Hage, chefe da CGU, anunciou a abertura de procedimento administrativo que deve levar à declaração da inidoneidade da empresa. Por que demorou tanto?, os membros da CPI deveriam estar perguntando aos seus botões.

Embora espremido por vários de seus pares, o relator Odair bateu o pé. Recusou-se a excluir do seu plano de ação a limitadora referência ao Centro-Oeste. Trata-se, segundo ele, de mero “ponto de partida”. Alega que o vocábulo “inclusive” autoriza a eventual ampliação do alvo. Se é assim, por que diabos não suprimiu do texto, em nome da objetividade, o dique regional? O desejo do PT de resguardar o governo federal e seu PAC explica a obsessão.

 

3. Os governadores: As operações da PF levaram à grelha dois executivos estaduais: Marconi Perillo (PSDB), de Goiás; e Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal. A divulgação do audiovisual (vídeos e fotos) que desnudou a intimidade de Fernando Cavendish com o governador do Rio adicionou Sérgio Cabral (PMDB) na coluna de devedores de boas explicações. O que fez a CPI? Por ora, nada.

Para não dizerem que não falou de espinhos, o relator Odair programou para 12 de junho uma “audiência pública para debater as relações do sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos com governos estaduais.” Governos? Sim, isso mesmo. Nem sinal dos nomes do tucano Perillo e do petê Agnelo. Nada do pemedebê Cabral. Signatário de requerimentos de convocação dos três, o tucanato silenciou. O petismo ecoou o silêncio. Ficou no ar um cheiro de arranjo, um odor de deixa-como-tá-pra-ver-como-é-que-fica.

4. O procurador-geral: Nenhum nome foi mais mencionado na reunião da CPI do que o de Roberto Gurgel. O senador Fernando Collor (PTB-AL) insistiu na tese de que o chefe do Ministério Público Federal precisa ser convocado. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) deu-lhe razão: “O procurador ter sentado nestas investigações por três, quatro anos não é correto. Ele deve explicações à sociedade brasileira.”

De fato, Gurgel não está bem posto em cena. Recebera em 2009 o resultado da Operação Vegas. Nesse inquérito, a voz de Demóstenes Torres já era ouvida nos grampos da PF em diálogos tóxicos com Carlinhos Cachoeira. Ainda assim, o papelório e os CDs foram tratados na Procuradoria a golpes de gaveta por três arrastados anos.



Convidado a comparecer à CPI, Gurgel invocou uma limitação funcional. Alega que, depondo como testemunha, ficaria impedido de atuar nos inquéritos abertos agora, a seu pedido, no STF. Verdade. Ex-procurador da República, o senador Pedro Taques (PDT-MT) citou na CPI as leis e os artigos que dão suporte à argumentação de Gurgel. Porém, a convocação do procurador não é a única forma de forçá-lo a explicar-se.

A CPI tem poderes para, por exemplo, exigir de Gurgel uma justificativa escrita. Ele diz que o inquérito de 2009 não continha indícios que justificassem sua ação. Se é assim, por que não arquivou? Sustenta que optou “por sobrestar o caso, como estratégia para evitar que fossem reveladas outras investigações relativas a pessoas não detentoras de prerrogativa de foro [investigados sem mandato], inviabilizando seu prosseguimento, que viria a ser formalizado na Operação Monte Carlo.”
Ora, a Monte Carlo nasceu de uma iniciativa da PF, não de uma ordem de Gurgel. Pela lei, o procurador-geral pode, em benefício da investigação, aguardar por um desfecho mais conclusivo. Mas precisaria ter manifestado a intenção num ofício interno. Não consta que Gurgel tenha assinado algo parecido. Quer dizer: faltam explicações. E a CPI, se quisesse, teria como buscá-las sem afrontar as prerrogativas funcionais do procurador-geral.

5. Os congressistas: O plano de trabalho aprovado nesta quarta (2) prevê que a CPI jogará luzes sobre as ramificações de Carlinhos Cachoeira no Poder Legislativo. Agendou-se para 31 de maio a inquirição de Demóstenes Torres. Será ouvido depois que já tiverem passado pelo banco da CPI o próprio Cachoeira e seus operadores sem mandato. Beleza. E quanto aos deputados federais cujas biografias foram umedecidas no Cachoeiragate? Nada.

Afora o pedido de abertura de inquérito contra Demóstenes, já afogado, a Procuradoria da República requereu ao STF a instauração de processos contra três deputados: Carlos Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Nercerssian (PPS-RJ). Encontram-se com água pelo nariz. Mas a CPI, curiosamente, não parece interessada em desatar os nós monetários que os unem a Cachoeira. Por quê? Qualquer criança de cinco anos é capaz de responder.

 

6. O calendário: O relator Odair Cunha anotou no item três do seu plano de ação: “O prazo para conclusão dos trabalhos da CPI é de 180 dias, com término em 4 de novembro de 2012.” Os regimentos da Câmara, do Senado e do Congresso prevêem que comissões parlamentares de inquérito são passíveis de prorrogação.

Considerando-se as dimensões do aguaceiro, seria lícito supor que a nova CPI cogitasse a hipótese de esticar o seu calendário. Com o assentimento de seus pares, o relator prefere não considerar, nem como hipótese, a ideia de uma prorrogação. Na semana passada, logo depois de ser acomodado na cadeira de relator, Odair Cunha dissera, em timbre peremptório:
“Nós temos que analisar o que realmente existir de provas, de indícios. E, a partir dessas provas ou indícios, produzir uma investigação que pode atingir A ou B. Essa é uma questão que nós não temos controle. […] Produziremos uma investigação doa a quem doer.”

Considerando-se o resultado da sessão inaugural, Odair, os 65% de governistas da CPI e até um pedaço da bancada oposicionista parecem agora mais preocupados em controlar “o que nós não temos controle”,  escolher o A e o B que “uma investigação pode atingir” e administrar a cota de sofrimento de cada um. Se doer, que não doa tanto. Encrencas assim, tão vastas e multipartidárias, são um convite à construção dos fornos onde são assados os grandes acordos. Resta saber se o imponderável vai permitir.

Por Josias de Souza

terça-feira, 1 de maio de 2012

Cachoeira negociou compra de partido


Gravações de conversas do empresário feitas pela PF indicam que assédio do grupo recaía sobre nanicos PRP e PRTB


O empresário Carlos Cachoeira, acusado de corrupção e suspeito de comandar uma rede de jogo ilegal, negociou a compra do controle de um partido político, conforme indicam gravações feitas pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo.

Uma sequência de diálogos ocorrida em maio de 2011 faz referência ao negócio e cita o nome do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o de um assessor do governador Agnelo Queiroz (PT-DF).

No dia 5 daquele mês, apontam os grampos, Cachoeira havia jantado com Perillo na casa do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO).

No dia seguinte, Cachoeira conversa com Edivaldo Cardoso, ex-presidente do Detran-GO, que também participara do encontro.

"O partido que o Marconi falou ontem é o P de pato, R, P de pato?", pergunta Cachoeira, se referindo ao nanico PRP (Partido Republicano Progressista).

Cachoeira prossegue: "O cara de Brasília, que eu ajudei muito na campanha, é do partido. (...) Hoje é chefe de gabinete do Agnelo."

O empresário se refere ao então chefe de gabinete do governador petista, Cláudio Monteiro, que foi candidato a deputado distrital pela sigla, em 2010. O tio dele é presidente do PRP em Brasília.

PESQUISA
 
Três dias depois desse diálogo, Cachoeira fala com o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá, apontado como o araponga do grupo, que sugere contato com outro nanico, o PRTB.

"Lá é o Levy Fidelix o presidente. Aí alguém tem que ligar lá pra falar pra ele vir a Brasília", diz Dadá.

No mesmo dia, Cachoeira pede para o ex-vereador Wladimir Garcez, apontado pela PF como seu assessor e contato direto do grupo com Perillo, mandar mensagem "para o nosso maior", perguntando "se é bom pegar o PRTB."

No dia 16 de maio, Dadá diz a Cachoeira que Levy Fidelix, do PRTB, chegaria a Brasília para tratar do assunto.

Um dia antes, no entanto, Cachoeira havia manifestado estar "de olho" no PRP e que o objetivo era "tomar o partido".

O atual presidente da sigla em Goiás, Jorcelino Braga, se filiou à legenda em setembro, quatro meses após o diálogo.

Em outros grampos da PF naquele mesmo mês aparecem menções a valores a serem pagos a um partido, não identificado. Em um deles, Dadá informa a Cachoeira ter conversado com um advogado, que teria aumentado o preço da transação, de R$ 200 mil para R$ 300 mil.

"Que que isso? Está roubando", reclama Cachoeira. Dadá diz que, feito o pagamento, Cachoeira poderia nomear o presidente estadual e, posteriormente, os diretórios municipais, ficando com o controle da sigla. Cachoeira diz para oferecer R$ 150 mil, podendo chegar a R$ 200 mil.


Por Fernando Mello, Breno Costa, Leandro Costa e Lúcio Vaz

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Os alvos da CPI do Cachoeira


Políticos e empreiteira campeã no recebimento de recursos federais estão na mira de comissão



Carlos Cachoeira, acusado de comandar esquema de corrupção
Carlos Cachoeira, acusado de comandar esquema de corrupção
 


Preso desde o dia 29 de fevereiro após a deflagração da Operação Monte Carlo, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, é acusado de comandar um esquema de exploração de jogos ilegais e de corrupção que envolveria congressistas de seis partidos diferentes, integrantes do governo de dois Estados e a empreiteira campeã no recebimento de recursos do Executivo federal. Veja quem são os principais alvos da CPI que investiga as relações do empresário.


DEMÓSTENES TORRES SENADOR (Sem Partido-GO) 

AS SUSPEITAS
O senador tinha relação próxima com Cachoeira e, segundo indicam as gravações, atuava no Congresso, no Judiciário e no Executivo em prol de interesses do empresário. A Procuradoria-Geral da República diz que ele recebeu R$ 3,1 milhões do grupo
LOBBY NO EXECUTIVO
Senador ajudou a abrir portas na Anvisa para representantes de laboratório controlado por Cachoeira. Também disse ter pedido a Fernando Haddad (Educação) reunião para discutir pendência em faculdade de aliado do empresário
LOBBY NO CONGRESSO
Acompanhava e informava Cachoeira sobre a tramitação de projetos de interesse do grupo, como o que tratava dos jogos
LOBBY NO JUDICIÁRIO E NO MINISTÉRIO PÚBLICO
Após receber pedido de Cachoeira, Demóstenes diz que atuaria para promover a transferência de MS para GO de PMs acusados de integrar grupo de extermínio
CARGOS
Demóstenes acionou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e conseguiu emprego no governo de MG para parente de Cachoeira. O tucano diz que desconhecia parentesco da funcionária
ALERTA
O senador, que é procurador de Justiça, avisou o grupo de Cachoeira de que haveria operação policial e do Ministério Público de combate a caça-níqueis
NEGÓCIOS
Demóstenes é apontado como sócio oculto da Delta, já que em grampos aparece trabalhando por interesses da empresa, como na ocasião em que, diz a PF, negociou para que a Prefeitura de Anápolis (GO) pagasse dívida de R$ 20 milhões à empreiteira
PAGAMENTO
Senador ganhou R$ 3,1 milhões do grupo, segundo o Ministério Público. Demóstenes também recebeu presentes de Cachoeira, entre eles um lote do vinho Cheval Blanc, lote 1947
O QUE DIZ A DEFESA
Não se manifesta sobre diálogos isolados. Afirma que essas gravações são ilegais, por terem sido feitas sem autorização do Supremo (senadores têm foro privilegiado)


AGNELO QUEIROZ GOVERNADOR (PT-DF)
 
AS SUSPEITAS
Integrantes de seu governo tinham relação próxima com o grupo de Cachoeira, cujo interesse estaria no contrato da Delta com o DF para coleta de lixo.
INFLUÊNCIA
O então chefe de gabinete de Agnelo, Cláudio Monteiro, recebeu de Cachoeira um aparelho de telefone supostamente a prova de grampo. Monteiro também teria tido reuniões com o grupo. Segundo a PF, há suspeita de pagamento de propina para que a Delta recebesse verbas do governo do DF
NEGÓCIOS
Grupo de Cachoeira negociava propinas para receber pagamento por contratos da Delta no DF, indicam escutas
RELAÇÃO
Um dia depois de negar, Agnelo admitiu que se encontrou uma vez com Cachoeira, quando era diretor na Anvisa. O empresário também atua no ramo farmacêutico. Petista afirma que conversa girou em torno de amenidades
GRAMPOS
Adversários de Agnelo teriam sido monitorados ilegalmente por integrante da Casa Militar do governo que tem contato com o grupo de Cachoeira
O QUE DIZ A DEFESA
Nega relação do governador com Cachoeira e influência dele no governo do DF


DELTA CONSTRUÇÕES
 
AS SUSPEITAS
Empresa, que é campeã no recebimento de recursos do Executivo federal, atuaria conjuntamente com o grupo de Cachoeira na obtenção de contratos com o poder público. Tanto Cachoeira quanto Demóstenes são apontados na investigação como sócios ocultos da empreiteira
CONEXÃO GOIÁS
O diretor da empresa no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, que foi demitido e atualmente está preso, era parceiro de Cachoeira
CONEXÃO SP
Cachoeira tinha contato direto com diretor da Delta em SP e na região Sul, Heraldo Puccini Neto, contra quem há ordem de prisão
CONEXÃO DIRETA
O presidente da empresa, Fernando Cavendish, sabia das ações de Cláudio Abreu no DF e em GO, segundo a PF. O número 2 da empresa, Carlos Pacheco, também tinha participação no grupo, diz a investigação. Em meio à crise, os dois se licenciaram da administração da empresa
O QUE DIZ A DEFESA
A Delta abriu uma auditoria para identificar o que foi feito pela direção da empresa no Centro-Oeste. Nega irregularidades em contratos públicos e diz que é vítima de vazamentos "parciais e descontextualizados" de áudios


MARCONI PERILLO GOVERNADOR (PSDB-GO)
 
AS SUSPEITAS
Integrantes e aliados do governador têm atuação próxima a Cachoeira, entre eles três funcionários do alto escalão do governo, que foram exonerados após serem citados em gravações da Operação Monte Carlo. Sua então chefe de gabinete, por exemplo, teria recebido de Cachoeira presentes e informações sigilosas sobre operações policiais. Em escutas, o ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcez (PSDB), aliado de Perillo há mais de 20 anos, dá a entender que Cachoeira fazia nomeações de pessoas para cargos do governo
RELAÇÃO
No início das investigações, Perillo disse que tinha relação "quase inexistente" com Cachoeira. Segundo ele, os encontros que teve como o empresário foram protocolares. Em uma escuta interceptada pela PF, entretanto, ele liga para cumprimentar Cachoeira por seu aniversário e sinaliza intimidade
Rapaz, faz festa e não chama os amigos?", diz Perillo, em telefonema de 2011 para congratular Cachoeira por seu aniversário
INFLUÊNCIA
Grupo de Cachoeira tinha relação com servidores de confiança do governador, como sua ex-chefe de gabinete, Eliane Pinheiro, para quem, diz a PF, bancava viagens e presentes. Outro que constantemente se comunica com Cachoeira é o ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcez (PSDB), aliado de Perillo
PAGAMENTO
Cachoeira enviou dinheiro a aliado de Perillo que estaria dentro do palácio do governo, apontam áudios captados pela PF. Tucano diz que suspeita é "leviana".Além disso, Cachoeira ordena, em um grampo, entrega de dinheiro "para o governador". Perillo nega ter negociado com Cachoeira e diz que vendeu imóvel seu para outra pessoa, sem saber que ela teria relação com Cachoeira. O empresário foi preso nesse imóvel
O QUE DIZ A DEFESA
Nega qualquer influência de Cachoeira no governo. Afirma que o governador mantém apenas uma relação "esporádica" com o empresário

Por FSP


AP Comenta

Estes são os alvos postos.
Mas o ex-presidente Lula tem a Revista Veja como inimiga figadal e semeia isso, fazendo com que os "blogueiros progressistas(?!?!)" a coloquem como alvo real.

sábado, 28 de abril de 2012

Faz de Conta

Estamos começando a viver um clima de faz-de-conta mesmo antes da CPI do Cachoeira começar seus trabalhos de fato.

O PT formalmente declara-se disposto a limitar as investigações sobre a empreiteira Delta ao que acontecia na sua direção do Centro-Oeste, cujo diretor já está preso. Como se os métodos adotado naquela região do país pela empreiteira nada tivessem a ver com a sua cultura nas demais regiões do país.

Ora, a empreiteira tem (ou tinha) obras em praticamente todas as unidades da federação, sobretudo devido ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e nada indica que seus métodos de ganhar licitações fossem diferentes em Goiás e no Rio de Janeiro, por exemplo.

A relação próxima, quase promíscua, do empresário Fernando Cavendish com o governador Sérgio Cabral e seus secretários, se não estivesse já demonstrada no episódio do trágico acidente de helicóptero ocorrido em Porto Seguro, fica explicitada pelas fotos que o deputado e ex-governador Garotinho postou em seu blog ontem.

A comemoração do governador e vários de seus secretários em Paris com o empreiteiro revela um tipo de comportamento incompatível com o decoro de servidores públicos, além de uma intimidade suspeita com o empreiteiro responsável por grandes obras no estado.

Nenhum daqueles funcionários públicos provavelmente terá condições de provar que pagou a farra com dinheiro próprio, mesmo que alguns deles, como o secretário de Transportes Julio Lopes, pudessem ter condições de fazê-lo.

E o secretário de governo Regis Fichtner, que é o encarregado de uma auditoria dos contratos da Delta com o estado, nessa fase em que se pretende fazer desaparecer os traços de ligação entre a empreiteira e o governo do Rio, aparece abraçado a Cavendish em uma das fotos, o que o descredencia para a tarefa.

Não é possível fazer de conta que a relação profissional da Delta com políticos de vários partidos e em vários estados não merece ser investigada quando há claros indícios de que os métodos utilizados no Centro-Oeste não eram específicos apenas daquela região do país onde atuava originariamente o bicheiro Cachoeira.

Também o senador petista Humberto Costa quer fazer de conta que não existem as gravações que implicam o senador Demóstenes Torres em diversos crimes e desvios de conduta.

Como relator da Comissão de Ética do Senado, que vai julgar o senador amigo do bicheiro, ele diz que não vai usar as gravações por temer que elas sejam desqualificadas pelo Supremo Tribunal Federal, o que anularia uma eventual decisão da Comissão baseada nelas.

Ora, se não vai se basear nas gravações, presume-se que Humberto Costa vai inocentar o senador Demóstenes Torres, ou então vai condená-lo por ter recebido do bicheiro um fogão e uma geladeira importadas como presente de casamento, o que ele já admitiu da tribuna do Senado.
Enquanto seus desvios éticos se resumiam a isso, o senador de Goiás se sentiu em condições de subir à tribuna para se defender, e recebeu o apoio de nada menos que 44 senadores de todos os partidos, dispostos a lhe perdoar esse pequeno desvio de conduta.

A situação de conluio com o bicheiro só ficou clara depois que as gravações da Polícia Federal vazadas para a imprensa mostraram o grau de intimidade entre os dois, e a atuação do senador em órgãos do governo e no próprio Senado a favor dos interesses de Carlinhos Cachoeira.

A atuação de sua defesa, na tentativa de impugnar as provas obtidas através das gravações, é perfeitamente compreensível, mas não se compreende que seus pares se antecipem a uma decisão da Justiça que está longe de ser consensual e retirem dos autos da Comissão de Ética as provas contra Demóstenes.

Aliás, foi mais uma vez devido ao vazamento de gravações e de dados do processo que a opinião pública ficou sabendo da verdadeira dimensão de mais esse escândalo.
Parece, portanto, mais um faz-de-conta o empenho do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski para que o processo que ontem colocou à disposição de várias comissões do Congresso não vaze.

O ministro chegou a citar os artigos que punem com a prisão a quebra do sigilo de Justiça. Embora seja esse o papel que lhe cabe, não é possível esquecer que o relatório está com ele há meses e há meses vem sendo vazado diariamente de diversas maneiras, sem que se possa saber as origens dessas informações.

As penas a que se refere Lewandowsky em seu ofício ao Congresso se referem àqueles que quebram o sigilo, e já há jurisprudência no sentido de que os meios de comunicação que reproduzem essas informações não são alcançáveis pelas punições, mas sim os servidores públicos que são os responsáveis pela preservação do sigilo do processo.

Nesse caso como em vários outros que provocaram a demissão de diversos ministros do governo Dilma, foram as revelações da imprensa que escancararam os desvios que estavam acontecendo em diversos ministérios, e sem essas revelações não teria sido possível apanhar os servidores públicos que se desviaram de suas funções.

Mesmo que nenhum deles tenha sido preso ou que os processos sobre seus “malfeitos” acabem dando em nada, pelo menos a opinião pública ficou sabendo o que se passava nas entranhas do governo.

Agora mesmo temos o exemplo do Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, que ficou com a investigação da Polícia Federal e do Ministério Público em sua gaveta inexplicavelmente sem denunciar o senador Demóstenes Torres ao Supremo, o que só viria a acontecer quando o escândalo estourou e as gravações foram vazadas pela imprensa.

A intenção de quem vaza essas informações, e os seus efeitos colaterais que podem favorecer o interesse de partes em conflito no submundo, não têm importância diante dos benefícios à sociedade que as revelações trazem. Assim como o ex-governador Garotinho tem interesse político em denunciar seu hoje inimigo Sérgio Cabral, também o bicheiro Cachoeira tinha muitos interesses em jogo quando fazia suas gravações clandestinas.

Mas a revelação por parte da imprensa ajuda a colocar luz no ambiente público.

Por Merval Pereira

Cachoeira mandou entregar dinheiro 'para o governador'

O empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, orientou um de seus operadores a entregar dinheiro a um assessor do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), em julho de 2011.
Escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal durante investigações sobre os negócios de Cachoeira mostram-no tratando do assunto com o ex-vereador Wladimir Garcez, um de seus operadores.

"É pro governador", disse Cachoeira a Garcez. "Vamos lá pagar logo pra ele no palácio lá. Chega lá, paga pro Jayme. Já manda ele levar o dinheiro, já entrega a chave aí pra ele, depois tira os trem que tem que tirar aqui."

Jayme Rincon é um dos principais auxiliares de Perillo no governo de Goiás. Ele preside a Agência Goiânia de Transporte e Obras Públicas e foi um dos responsáveis pela arrecadação de fundos para a campanha de Perillo.

À Folha o governador negou ter feito negócios com Cachoeira, mas reconheceu que seu operador atuou como intermediário na transação. Perillo afirma que vendeu o imóvel por R$ 1,4 milhão para outro empresário, Walter Paulo Santiago.

A Folha não conseguiu localizar Santiago ontem. Na campanha eleitoral de 2008, ele se candidatou a vereador em Goiânia e declarou à Justiça Eleitoral que não tinha renda nem patrimônio.
Quem ocupa o imóvel desdesde a sua venda é o próprio Cachoeira. Ele estava na casa quando foi preso em fevereiro, acusado de explorar jogos ilegais e outros crimes.

O diálogo entre Cachoeira e Garcez é mais um indício de que Perillo manteve com o empresário nos últimos anos um relacionamento bem mais próximo do que ele tem admitido em suas entrevistas.
A revista "Época" publicou outro diálogo em que Cachoeira trata da venda do imóvel com Cláudio Abreu, ex-diretor da construtora Delta na região Centro-Oeste. Ele se irrita quando questionado pelo telefone sobre o negócio.

"Você [ininteligível] de falar para os outros que eu tenho casa para vender no Alphaville... do Marconi, rapaz?", diz Cachoeira. "Pode de jeito nenhum falar que eu que tenho casa para vender."
No início da semana, o blog QuidNovi divulgou o conteúdo de outro diálogo, em que o grupo de Cachoeira fala de uma entrega de dinheiro no palácio do governador, escondido numa caixa de computador.

A PF interceptou 12 conversas entre Cachoeira e seus assessores na qual tratam do assunto. Todas de junho de 2011. A PF desconfia que o dinheiro teria como destino final o governador Perillo.
"Cê contou?", pergunta Cachoeira ao assessor. "Então lacra aí, entrega pro Gleybão entregar pro Wladimir lá na praça lá. Ele está lá na praça perto de palácio. Fala pra ele passar lá e deixar", orienta o empresário.

Dois assessores de Perillo já foram afastados do governo por causa de suas relações com Cachoeira. A chefe de gabinete dele e o presidente do Detran também foram mencionados em conversas com o empresário.

Por Andreza Matais, Rubens Valente e Natuza Nery

domingo, 22 de abril de 2012

Perillo é citado como 'irmão' por aliado de Cachoeira



Gravação de conversas entre empresário e seu braço-direito sugere relação próxima com governador goiano
Tucano diz que nunca tratou de assuntos de governo com membros do esquema de Carlinhos Cachoeira

Interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal em abril de 2011 sugerem que a relação entre o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, era mais próxima do que o político admite.
No dia 2 de março, Perillo declarou à Folha que esteve com Cachoeira em eventos festivos, "nada que possa caracterizar relação próxima".
Os diálogos gravados durante a Operação Monte Carlo mostram que as demandas do grupo de Cachoeira -que está preso sob acusação de contravenção- eram manobradas por Wladimir Garcez.
Ex-vereador de Goiânia, ele agia como operador político e "ponte" de Cachoeira com o governo goiano.
Em um diálogo, Garcez diz a Cachoeira que teve uma conversa "de irmão" com Perillo, no gabinete do governador. Segundo Garcez, Perillo chegou a lhe segredar inúmeros dados sobre as contas do governo e pediu "reserva".
"Foi uma coisa assim, íntima mesmo, sabe", contou Garcez a Cachoeira. "[Perillo] até pediu para nós olharmos uma coisa para ele depois."
A PF concluiu que eles se referiam a Perillo, apesar de o tucano não ser citado nominalmente na conversa.
"Ele quer que eu olhe para ele o quê?", questiona Cachoeira. Segundo Garcez, Perillo disse que "é uma coisa que eu quero conversar com ele [Cachoeira], é porque confio nele, tá, e em você [Garcez]".
Em outra conversa, Cachoeira diz ter usado o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) para pressionar Perillo a manter aliados do grupo em cargos do governo de Goiás.
Ao ouvir boato segundo o qual um aliado seu não seria nomeado no governo, Cachoeira reclamou: "Marconi, na hora que saber disso, vai ficar puto. Já mandei avisar ele. O Demóstenes já está ligando para o Marconi".
Cachoeira diz que a reação de Demóstenes seria forte. "Demóstenes já ia ligar para ele: 'Olha, Marconi, você está é fodido se não pôr o cara lá. (...)'. E o Marconi não vai pôr o cara? Ele tá é fodido."
O interlocutor de Cachoeira, Lenine Araújo de Souza, seu assessor, diz que o grupo estaria também perdendo um cargo do governo estadual em Anápolis (GO). O empresário afirma que Perillo não iria confirmar o novo nome no cargo. "Não vai, não. Já mandei dossiê, o Wladimir [Garcez] vai falar com o Marconi."
Outro telefonema entre Garcez e Cachoeira indica que Edivaldo Cardoso, então presidente do Detran de Goiás, repassava aos dois informações que lhe eram transmitidas pelo governador.
Na última quarta-feira, Cardoso pediu exoneração do cargo.

Por Natuza Nery, Rubens Valente e Dimmi Amora - FSP
 

sábado, 21 de abril de 2012

O primeiro round

A CPI criada para investigar os negócios do contraventor Carlos Cachoeira tem um grande desafio: desvendar o segredo do sucesso da empreiteira Delta, que tem na raiz de sua impressionante trajetória amizades influentes e pagamentos a políticos em troca de obras em governos e estatais


Por Hugo Marques, Daniel Pereira e Rodrigo Rangel

SOCIEDADE - A investigação sobre um esquema ilegal de jogos comandado por Cachoeira (à esq.) revelaram que a Delta, do empresário Fernando Cavendish (à dir.), usa políticos e dinheiro sujo para expandir seus negócios SOCIEDADE - A investigação sobre um esquema ilegal de jogos comandado por Cachoeira (à esq.) revelaram que a Delta, do empresário Fernando Cavendish (à dir.), usa políticos e dinheiro sujo para expandir seus negócios (Fotos Dida Sampaio/AE; Eduardo Knapp/Folhapress)

 
A Polícia Federal sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos
VEJA publicou em maio do ano passado uma reportagem exclusiva mostrando o que já parecia ser muito mais que uma simples coincidência: a empreiteira Delta fora alçada à condição de maior parceira do governo federal no mesmo ano em que contratou os serviços de consultoria do deputado cassado e ex-ministro José Dirceu. A Delta, mostrou a reportagem de VEJA, além de multiplicar sua carteira de obras, expandira sua atuação para setores nos quais não tinha experiência, como óleo e gás. Na ocasião, dois ex-sócios da empresa forneceram a primeira pista para desvendar essa impressionante história de sucesso. Segundo o depoimento deles, a empreiteira usava a influência que mantinha junto a políticos para obter vantagens. O próprio presidente da empresa, Fernando Cavendish, explicou como agia e qual era o preço a ser pago. Ele disse que com "6 milhões de reais comprava um senador". Sua explicação seguinte ficaria famosa: "Se eu botar 30 milhões de reais na mão de políticos, sou convidado para coisas pra c...". A conversa, gravada pelos ex-sócios, foi classificada como simples bravata por Cavendish. Não era. Ela era reveladora de um método.
A Delta vai aparecer como figura de proa na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada na semana passada no Congresso Nacional, em Brasília, para investigar as relações do contraventor Carlos Cachoeira - preso por comandar um esquema ilegal de exploração de jogos - com políticos e empresas que têm contratos com a administração pública. A construtora figurará como a principal acusada no esquema baseado em pagar propina em troca de favores e contratos em governos. Segundo a Polícia Federal, a empreiteira usou os tentáculos de Cachoeira para corromper autoridades nos governos de Tocantins, Distrito Federal e Goiás. Cavendish e a Delta tiveram sua ação restrita a essas três unidades da Federação? Não. O esquema atuou também no âmbito federal, usando o mesmo método de subornar políticos e servidores públicos para obter contratos. A engrenagem funcionou ativamente dentro de ministérios no governo passado e engolfou até mesmo a Petrobras, a maior e a mais poderosa das estatais brasileiras. A Petrobras é o principal dínamo dos investimentos públicos do país, protagonismo acentuado com a descoberta das reservas de petróleo no pré-sal. No governo Lula, foi aparelhada politicamente por militantes do PT, que ganharam o controle de cargos de diretoria. O aparelhamento político de estatais, como sempre, termina em prejuí­zo para a empresa e os contribuintes.
 
PROPINA - Em maio do ano passado, reportagem de VEJA revelou que o ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à Delta. Sócios da empreiteira, José Quintella e Romênio Machado revelaram a natureza do trabalho encomendado ao ex-ministro: abrir as portas do governo e de estatais
PROPINA - Em maio do ano passado, reportagem de VEJA revelou que o ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à Delta. Sócios da empreiteira, José Quintella e Romênio Machado revelaram a natureza do trabalho encomendado ao ex-ministro: abrir as portas do governo e de estatais
No fim de 2008, a Petrobras convidou a Delta para duplicar o parque de expedição de diesel na Refinaria de Duque de Caxias (Reduc). Um convite inusitado, uma vez que a empreiteira era especializada em obras rodoviárias e construção civil. Para suprir a carência técnica e se habilitar, a Delta comprou a Sigma, empresa que já tinha diversas parcerias com a estatal. Depois dessa negociação, a empreiteira assinou um contrato com a Petrobras no valor de 130 milhões de reais. A aproximação entre a Delta e a Sigma foi feita pelo engenheiro Wagner Victer, auxiliar do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que é compadre de Cavendish. O negócio parecia bom para todos os envolvidos. A Petrobras contratou a obra por um preço considerado baixo, a Delta se cacifou para atuar no bilionário ramo do petróleo e os donos da Sigma ficariam ainda mais ricos. Mas nem tudo correu como se esperava. Cavendish e seus sócios se desentenderam ao cabo de disputas financeiras. Dos ex-sócios inconformados partiu a revelação, certamente de alto interesse para a CPI instalada na semana passada, segundo a qual, para conseguir o contrato na Petrobras, a Delta teria pago propina. Sob a condição de anonimato, um deles contou a VEJA que a Sigma, além de servir como fachada técnica para as operações da Delta, funcionou como caixa para quitar faturas em que a própria Delta preferia não aparecer como devedora. Para ocultar o pagamento de propina, segundo o relato gravado do ex-sócio, que diz temer por sua segurança, a Sigma foi orientada a simular a contratação de serviços para justificar a saída da propina. Os diretores da Delta indicavam o valor e os funcionários da estatal a ser beneficiados. A fatura era então encaminhada a José Augusto Quintella e Romênio Marcelino Machado, ex-donos da Sigma que continuaram na empresa. Seguindo orientações de Cavendish, eles providenciavam notas frias para justificar os gastos com a propina. Essas notas eram assinadas por Quintella e Machado e por Flávio Oliveira, diretor da Delta. Só funcionários da área operacional da Petrobras, segundo o ex-sócio, receberam 5 milhões de reais. Um volume ainda maior teria sido pago a dirigentes da empresa. Desse mesmo caixa saíram os recursos para pagar os trabalhos de consultor prestados por José Dirceu.
Quintella e Machado não quiseram dar detalhes sobre o caso a VEJA. "Essa história será devidamente esclarecida no momento oportuno", disse Quintella, em nome dos antigos donos da Sigma. Os dois conhecem de perto a Delta. Foram eles que contaram a VEJA que Cavendish contratou, em 2009, o deputado cassado e ex-ministro José Dirceu como consultor com o objetivo de azeitar negócios junto à Petrobras, que era comandada por José Sergio Gabrielli, integrante da corrente política de Dirceu. Foi em uma reunião com Quintella e Machado que Fernando Cavendish fez seus notórios comentários sobre os preços e as vantagens de comprar autoridades. Na mesma conversa, gravada, Cavendish traçou o caminho até o cofre da Petrobras: "A Reduc foi convidada pelo jogo político da Delta. A gente foi convidado por uma articulação, um pedido que foi para cá, foi para lá...".
 
A Petrobras não quis se pronunciar sobre os fatos narrados por Cavendish e seus ex-sócios. A Delta diz que ganhou o contrato legalmente e não pagou propina. A CPI instalada na semana passada certamente terá meios de obter de Cavendish e da própria Petrobras informações mais consistentes sobre como o jogo político levava determinadas empresas a obter contratos na estatal no tempo em que Dirceu e Gabrielli reinavam. A Delta passou a existir como empreiteira de grande porte e alcançou o posto de maior fornecedora de serviços do estado brasileiro no governo Lula. Um "jogo político" que a CPI faria aos brasileiros o enorme benefício de elucidar. Não é pouca coisa. Segundo as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público que levaram Carlos Cachoeira à prisão, o contraventor funcionava como captador de negócios e lobista destacado da Delta Construções. Cachoeira operava em sintonia com Cláudio Abreu, designado formalmente pela empreiteira como seu representante para a Região Centro-Oeste. Os dois cuidavam de obter contratos junto aos governos do Distrito Federal, Goiás e Tocantins. Abreu tinha também missões junto a órgãos do governo federal. Foi ao cumprir uma dessas missões que ele emplacou a Delta como a principal parceira do Ministério dos Transportes e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Diretores da Delta passaram a visitar quase diariamente as dependências do ministério durante a gestão do senador Alfredo Nascimento, demitido no ano passado do cargo de ministro pela presidente Dilma Rousseff.
Na semana passada, Luiz Antonio Pagot, ex-diretor do Dnit demitido no bojo do episódio que levou à queda do ministro Alfredo Nascimento, se disse vítima de uma trama que teria sido tecida contra ele exatamente por ter oferecido obstáculos aos interesses da Delta no órgão. Estranha linha de defesa. Foi na gestão de Pagot que a Delta mais do que dobrou seu faturamento em contratos com o Dnit, alcançando 658 milhões de reais em 2010. É quase 90% de tudo o que a empreiteira faturou no governo federal. Que obstáculo, então, foi esse? Suposta vítima de uma conspiração, Pagot, lembre-se, foi quem reuniu empresários no Ministério dos Transportes para ouvir uma explanação do deputado Valdemar Costa Neto, do PR, réu no processo do mensalão. Entre os convidados por Pagot estavam empreiteiros e consultores. Costa Neto falou da importância para o PR de tirar do papel obras bilionárias de restauração de rodovias federais. Muitos dos participantes da reunião, inclusive concorrentes da Delta, ficaram sabendo mais tarde que, se fossem escolhidos para fazer as obras, deveriam entregar ao partido propinas de 4% a 5% do valor de cada fatura paga. A investigação jornalística tem de se contentar com as informações recebidas e checadas das fontes que participaram da reunião. A CPI tem força e os meios legais para passar a limpo essa história.
A Polícia Federal sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Carlinhos Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos. Entre 2010 e 2011, empresas-fantasma criadas por Cachoeira receberam da Delta nada menos que 40 milhões de reais. Ras­trean­do o caminho do dinheiro, os policiais e promotores descobriram que parte dele foi parar na contabilidade de empresas que no mesmo período fizeram repasses a políticos - doações eleitorais declaradas, inclusive. O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) estão entre os que receberam doações de campanha de empresas cujas contas foram irrigadas com recursos que Cachoeira recebia da Delta. Na semana passada, Cavendish foi assertivo em uma entrevista à Folha de S.Paulo. Ele disse que dá dinheiro a políticos para receber, em troca, informações sobre licitações. "Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é toma lá dá cá." O método da Delta é conhecido. Para ganhar os contratos, a empresa joga o preço lá embaixo. O pulo do gato vem depois, quando a parceria já está em vigor. Em alguns casos, a empresa não executa os serviços certa de que não será incomodada pelos órgãos contratantes comandados por políticos de partidos aquinhoados com doações. Dessa forma, sobra dinheiro para abastecer os cofres da empresa e para remunerar os amigos no poder. Outra prática é inflar contratos com reajustes e aditivos. Conforme revelado por VEJA, a presidente Dilma Rousseff, antes de demitir a cúpula dos Transportes, deu um pito nos seus integrantes justamente em razão do excesso de aditivos contratuais: "Vocês precisam de babá".
O procurador Marinus Marsico, representante do Ministério Público no Tribunal de Contas da União, diz que os aditivos que inflam os contratos não têm outro nome: "É roubalheira mesmo". Incentivador da CPI do Cachoeira, o ex-presidente Lula sabe dos riscos embutidos na investigação de aliados. Na quarta-feira, ele perguntou a peemedebistas: "E o Serginho, como está?". Ele se referia a Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro. Cabral é padrinho de casamento de Cavendish. Conheceram-se em 2000 e se tornaram amigos inseparáveis. O fortalecimento dessa relação foi acompanhado pelo crescimento vertiginoso da Delta em contratos com a administração fluminense. Em dez anos, a empresa conseguiu 2,2 bilhões de reais com o estado do Rio. A maior parte - 1,4 bilhão - veio depois que Cabral assumiu o governo, em 2007. Em 2003, a Delta faturou 228 milhões de reais, entre clientes públicos e privados. Em 2010, 3,5 bilhões de reais, um crescimento de 1 400%. O ritmo das doações também aumentou. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Delta doou, legalmente, meros 60 000 reais em 2002. Em 2010, doou 2,3 milhões - metade para o PT, metade para o PMDB.
Com reportagem de Alessandra Medina e Ana Luiza Daltro



 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Delta lembra "valerioduto", diz oposição


Passados seis anos do fim da CPI dos Correios, lideranças da oposição identificaram no "deltaduto" - rede abastecida pela Delta Construções para doações eleitorais por meio de empresas de fachada do grupo do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira - esquema semelhante ao utilizado pelo empresário Marcos Valério para enviar dinheiro aos partidos aliados ao governo, o que deu origem ao escândalo do mensalão.
Diante das evidências do esquema, a oposição já se mobiliza para tentar aprovar na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, criada nesta quinta, requerimentos para que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) envie ao Congresso toda a movimentação bancária da Delta e de seu dono, o empresário Fernando Cavendish. "Há semelhança gritante entre o que já foi divulgado a respeito da Delta com o que apuramos ao investigar o mensalão", disse o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR).
O "deltaduto", como revelou ontem o jornal O Estado de S. Paulo, irrigou a campanha do tucano Marconi Perillo ao governo de Goiás. Mas, como a empresa atua nacionalmente e o grosso de seus contratos é com o governo federal e com o Estado do Rio - cujo governador, Sérgio Cabral (PMDB), é aliado do Planalto -, a oposição enxerga potencial de desgaste na operação.

Indicações
Os partidos têm até terça-feira, dia 24, para indicar os nomes dos parlamentares que integrarão a CPI, que deverá ter sua primeira reunião na quarta-feira, dia 25, quando será eleito o presidente e escolhido o relator. O favorito para a presidência é o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB). O relator é nomeado pelo presidente após acordo. O cargo é disputado por petistas, sendo Odair Cunha (MG) o favorito.
Além de requerimentos ao Coaf, a oposição também se prepara para pedir a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Cavendish e da Delta, de seus sócios e de supostos laranjas. Já os governistas pregam cautela. Defendem que, antes de qualquer convocação ou aprovação de requerimento, seja feita a análise dos documentos produzidos pelas operações Vegas e Monte Carlo, ambas da Polícia Federal.
"Não é preciso pressa. Temos de ver os documentos da PF e assim fazer nossa programação", disse o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA). "Não pode ter pirotecnia. Não pode chamar já na primeira semana o dono da Delta", disse o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP). "Temos de conhecer primeiro os documentos que já existem", argumentou.

Por João Domingos e Eugênia Lopes - Agência Estado

terça-feira, 17 de abril de 2012

ARRUDA ABRE AS COMPORTAS DE CORUMBÁ IV


Às 8 horas e 20 minutos da manhã do dia 14 de março de 2012, o processo do maior escândalo político do Distrito Federal aumentava de volume com a participação do principal personagem dessa história: o ex-governador José Roberto Arruda. Foi num depoimento de 3h 14 min, gravado em áudio e vídeo, no Ministério Público Federal, aos cuidados de Ronaldo Albo, que o processo da Caixa de Pandora ganhou novos rumos e revelou novos personagens neste enredo, que ocupam o alto escalão da República.

Arruda foi preso, em flagrante, em janeiro de 2010, tentando corromper o jornalista Edson Sombra, testemunha no processo. A autorização para a prisão do então governador correu em ritmo meteórico no Superior Tribunal de Justiça. Alí, já se percebiam as digitais do Palácio do Planalto tentando amordaçar Arruda. Na ocasião, o ex-governador ameaçava divulgar nomes que entrariam na Caixa de Pandora e alcançariam até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A procuradora Raquel Dodge recusou-se a colher o depoimento de Arruda por conta deste assunto. A bomba era a usina hidrelétrica Corumbá IV capaz de revelar o envolvimento de José Dirceu, Gilberto Carvalho secretário especial da Presidência da República, o governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB), Marcos de Almeida Castro, suplente do senador Gim Argelo, o ex-governador Joaquim Roriz e outras 17 pessoas com menos expressão política.
José Roberto Arruda, paralelamente ao seu depoimento, no final do mês passado, entregou ao MP uma pasta com documentos que comprometem meio mundo no DF e em Goiás. O ex-governador tentou prestar este depoimento várias vezes, mas a procuradora Raquel Dodge não queria colocar na Caixa de Pandora altos figurões da República, porque isto dificultaria a denúncia, que seria ralentada.
Passados dois anos, o procurador Alexandre Camanho, amigo de Arruda, conseguiu junto ao procurador Geral Roberto Gurgel que ex-governador finalmente prestasse o depoimento ao promotor criminal Ronaldo Albo.
Na construção de Corumbá IV foi feito um consorcio onde empresas de grande porte inicialmente faziam parceria com a CEB. Posteriormente foram substituídas por outras que, segundo Arruda, abasteceram os bolsos de José Dirceu, Gilberto Carvalho, Marconi Perillo, Marcos de Almeida Castro, Joaquim Roriz e outras 17 pessoas com menos expressão política.
Com isso tudo, Arruda vai ganhar alguns anos neste processo. A maioria dos envolvidos, terão que prestar depoimento e tem foro privilegiado. Com isso, a Caixa de Pandora continuará aberta revelando lentamente todas as mazelas praticadas pelos personagens ilustres e outros nem tanto desta nossa República.

Por Mino Pedrosa - Quid Novi

Cachoeira nomeou pessoas na administração de Marconi Perillo em GO, mostram escutas da PF.

A realidade exposta pelos grampos que jorram do escândalo Carlinhos Cachoeira está cada dia mais inacreditável. As penúltimas escutas vazadas do inquérito da Polícia Federal indicam que o megabicheiro acomodou pessoas na folha salarial do governo tucano de Marconi Perrilo, em Goiás.

Veiculadas em reportagem do repórter Vladimir Netto, as interceptações telefônicas captaram diálogos de Cachoeira com um ex-vereador do PSDB chamado Wladimir Garcez. Coisa de 11 de março de 2011. Num trecho, Garcez diz a Cachoeira:

“Então, é o seguinte: o governador liberou os negócios dele e eu falei pra ele que nós temos mais quatro pedidos. Esse de Anápolis, ele resolveu que vai lotar nas nomeações. Os de Goiânia, ele vai ver a questão de gerência aqui. Aí, ele tem duas ou três gerências pra vir pra nós, pra gente discutir quem são os nomes.”

E Cachoeira, autoconvertido em chefe de Recursos Humanos da administração Perillo: “Tá, cê põe a Vanessa numa. A Rosana pode ser um salário de R$ 2 mil. A Vanessa é gerência, tá?”

Mais adiante, Garcez contabiliza as nomeações: “Nós estamos com sete pessoa só aqui, né?” Com seu português de matuto, Cachoeira elogia seu lugar-tenente: “Ocê, é o seguinte, Waldimir, ocê é o cara que mais põe gente nesse governo aí!”Wladimir promote mais: “Agora, tem uns carguinhos aí que nós vamo poder atender muita gente.”

Ouvido, Marconi Perillo tomou distância: “Isso é de responsabilidade de quem fez as indicações: os secretários. Os secretários têm liberdade para fazer as escolhas. Eu não vi a reportagem. Vou analisar o conteúdo. Vou verificar se isso realmente tem procedência. Se tiver procedência, nós vamos tomar as medidas cabíveis.”

Desde que estourou o escândalo, Perillo vem adotando a tática de apagar os focos de incêndio à medida que vão aparecendo. Sempre alega não ter nada a ver com as chamas. De labareda em labareda, sua gestão vai sendo carbonizada. Mesmo no PSDB, está difícil encontrar alguém disposto a pôr a mão no fogo pelo governador.


Por Josias de Souza