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domingo, 6 de maio de 2012

Escutas sugerem contato com novo presidente da Delta


Araponga disse ter 'amizadezinha' com executivo que dirige a empresa desde o afastamento do dono da empreiteira 

Construtora nega que Carlos Alberto Verdini tivesse qualquer tipo de amizade com o sargento Idalberto Araújo, o Dada


Escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal sugerem que o grupo do empresário Carlinhos Cachoeira também manteve contato com o executivo que passou a dirigir a Delta Construções depois que vieram à tona as ligações da empresa com Cachoeira.

Carlos Alberto Verdini assumiu a presidência do conselho de administração da Delta há duas semanas, depois que o dono da empresa, Fernando Cavendish, se afastou junto com um de seus principais executivos, Carlos Duque Pacheco.

As investigações da PF indicam que Cachoeira atuou nos últimos anos como representante da Delta em vários Estados, ajudando a negociar contratos obtidos pela construtora.

No dia 12 de abril de 2011, o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Araújo, o Dadá, disse ter proximidade com Verdini, numa conversa com o policial Marcello de Oliveira Lopes, o Marcelão.

Segundo a PF, Dadá é um araponga que tinha papel central no grupo de Cachoeira: ele atuava em benefício da Delta no Centro-Oeste e trocava telefonemas frequentes com o então diretor regional da empresa, Cláudio Abreu.

"Eu estou ligando pro Verdini, e o Verdini também é outro cara que fala a verdade. Eu não estou conseguindo falar com o Verdini. Verdini é a coroa lá do comercial, entendeu? Ele foi sargento da FAB, a gente criou uma amizadezinha com ele", diz Dadá a Marcelão, que buscava ajuda para que a Delta contratasse sua empresa de publicidade.

"Ele está abaixo do Cláudio [Abreu], mas ele mora no Rio, conhece todo mundo, tem uma força. Mas tem menos força de que o Cláudio", diz Dadá. Um dia antes desse diálogo, Dadá já havia contatado o advogado Gustavo Henrique Caputo Bastos, que atuava para a Delta, para saber onde estava Verdini.
"Sabe se o Verdini tá na área, cara?", perguntou Dadá. Caputo diz que não sabia.

A Delta nega que Verdini tenha amizade com Dadá. Cavendish, o dono da empresa, tem procurado transferir para Cláudio Abreu a responsabilidade pelo envolvimento da Delta com Cachoeira.
Mas as gravações da PF sugerem que Cavendish e Pacheco sabiam da relação entre Abreu e Cachoeira.

No caso de Pacheco, as escutas revelam que ele teve encontros com Cachoeira, com a participação de outras pessoas. Numa dessas ocasiões, também esteve presente o diretor da Delta para a região Sul e São Paulo, Heraldo Puccini Neto.

No caso de Cavendish, há indícios de que o executivo tinha ciência da atuação de Cachoeira em favor da Delta. Um almoço entre ele e Cachoeira foi marcado em Brasília, mas Cachoeira não pôde ir.


Por Breno Costa, Fernando Mello e Leandro Colon

Com o foco na Delta

Do ponto de vista administrativo, a operação de venda da Delta, capitaneada pelo ex-presidente Lula, pode resolver a continuidade das obras do PAC, mas não poupará o governo dos danos colaterais decorrentes das relações ilegais da empresa com agentes públicos. Politicamente, a transação remete à clássica piada do marido traído que retira o sofá da sala.

A oposição avalia que a fartura de grampos que desmascararam o senador Demóstenes Torres já o condenou à cassação, o que remete seu caso para o Conselho de Ética, criando as condições para que o foco da CPI seja, de fato, a empresa líder das obras públicas. Fixar-se no que já se conhece conspira contra isso e favorece a meta do governo de poupar aliados - e a si próprio.

Essa queda de braço ficou visível na última semana com o esforço pelas convocações do empresário Fernando Cavendish, dono da Delta, e mais três governadores (do PT, PSDB e PMDB), em contraponto à exploração de escutas telefônicas em que Demóstenes vende influência ao contraventor Carlos Cachoeira, mencionando encontros com autoridades do Judiciário.

Legítima para um senador então insuspeito, essa proximidade com juízes, alguns do Supremo Tribunal Federal, contribui hoje com o empenho do PT em minar a credibilidade de julgadores do mensalão.

Boa parte dos parlamentares considera que o foco na Delta prevalecerá e desvendará a teia de relações promíscuas de políticos e servidores com o submundo do crime organizado. O que será a pá de cal na tentativa de controle da CPI pelos seus proponentes.


Um freio na arapongagem
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) quer discutir na CPI do Cachoeira o uso de grampos ilegais, que configuram invasão de privacidade e "espionagem política". Sua proposta é transformar a prática em crime, após a constatar que o monitoramento ilegal era uma das especialidades do contraventor Carlos Cachoeira, que depois utilizava o material para extorquir suas vítimas. Se vingar, o mesmo valerá para o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), acusado de usar o Gabinete Militar para espionar adversários e até o vice-governador Tadeu Filipelli.

Ao vivo e a cores
O presidente da CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo Filho, vai garantir a transmissão das reuniões da comissão pelas TVs Senado e Câmara. Como o horário das reuniões coincide com as sessões plenárias, que têm prioridade de transmissão, ele cogita mudar uma ou outra. A disposição é garantir a transmissão integral da CPI, a partir do depoimento de Cachoeira, programado para o dia 15.

Nem aí...
Indiferente ao escândalo Cachoeira, o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) torce pela aprovação de seu projeto de lei que autoriza o funcionamento de cassinos em hotéis da região amazônica e do Pantanal. "O funcionamento de cassinos é fator de desenvolvimento em qualquer parte do mundo, e um estímulo ao ecoturismo", justifica. Para reforçar a inoportunidade do tema, o relator da matéria é o atual presidente da CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), que ainda não apresentou parecer.

Mais juízes
Depois de negar aumento ao Judiciário, o governo garantiu recursos para a criação de 225 novas vagas de juízes federais. O projeto, prestes a ser votado pelo Senado, libera 120 vagas ainda no curso deste ano.

Por João Bosco Rabello

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Braço-direito de Cachoeira trabalhava na Delta Construções

O escritório da Delta Construções em Goiânia serviu para diversos encontros de negócios da quadrilha do contraventor Carlos Augusto Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso acusado de explorar jogos de azar em Goiás e no Distrito Federal. De acordo com os relatórios da Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal em 29 de fevereiro, Cachoeira e integrantes do grupo usaram o escritório da empresa para, entre outras ações, obter junto à cúpula de Segurança Pública de Goiás o vazamento de informações sobre as operações realizadas pela Polícia Civil contra a prática do jogo ilegal. O relatório mostra que a proximidade com a Delta também levou Cachoeira e Idalberto Matias, o Dadá, o seu braço-direito, a utilizarem as dependências da construtora em Goiânia para fazer reuniões. No relatório, Dadá é identificado como segurança da Delta, assim como André Teixeira Jorge, apontado como “laranja” de Cachoeira.

Apesar de o escritório de Cachoeira funcionar no mesmo prédio da Delta, o documento da PF confirma que as reuniões ocorreram no escritório da empresa. Cachoeira se reuniu em 30 de maio do ano passado com o delegado Hylo Marques Pereira. Nas interceptações telefônicas, de 11h29m, Cachoeira marca o encontro com Hylo na Delta às 13h30m. Para a polícia, o encontro dos dois também foi para que o contraventor agilizasse a liberação de materiais da quadrilha apreendidos. Em outro trecho do diálogo telefônico, em 14 de março do ano passado, às 9h11m, Cachoeira diz a Lenine Araújo de Sousa, um dos homens de confiança do contraventor, segundo a PF, que o está esperando na sede da Delta em Goiânia.

— Oh, Lenine, eu tô aqui, ué — disse Cachoeira.

— Na Delta? — pergunta Lenine.

— Tô aqui, onde é que você está? — quis saber Cachoeira.

— Tô aqui no trevo de Goiânia, passando aqui em frente ao aeroporto — responde Lenine.

— Tô aqui na Delta, vem cá — pediu Cachoeira.

— Tá. Tô chegando — encerrou Lenine.

Conforme O GLOBO mostrou neste domingo, a Delta é apontada como integrante do esquema, com repasses de dinheiro para empresas de fachada — a Brava Construções e a Alberto & Pantoja, entre 2010 e 2011. Os saques eram feitos pelo tesoureiro da quadrilha de Cachoeira, Giovane Pereira da Silva, em valores de no máximo R$ 99 mil — para escapar ao controle do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que fiscaliza a movimentação de valores acima de R$ 100 mil.

Para a PF, o ex-diretor da Delta Claudio Abreu é sócio informal de Cachoeira. No dia 28 de janeiro de 2011, Geovani, que é identificado como o tesoureiro do grupo, atende uma ligação de Gleyb Ferreira (ligado a Cachoeira), que, segundo a PF, confirma a relação de sociedade entre Claudio e o bicheiro. Segundo a polícia, o pagamento seria “possivelmente referente ao retomo dos pagamentos superfaturados que a empresa Delta ganha com seus contratos com poder público”. Num dos diálogos que mais mostram a proximidade da Delta com a organização criminosa, Claudio Abreu avisa que a construtora fará repasses de R$ 700 mil.

A Delta nega que “pessoas estranhas” tenham se reunido no escritório da empresa. Alega que a PF não denunciou o caso à Justiça Federal, embora o fato esteja no inquérito. A Delta também negou que Dadá fosse segurança da construtora, apesar de o nome dele aparecer no relatório da PF nessa função. Sobre André Teixeira Jorge, a Delta informa que ele era motorista de Claudio Abreu e que ambos já foram afastados.


Por O Globo

domingo, 15 de abril de 2012

Investigação expõe um velho operador do submundo do poder

A Operação Monte Carlo trouxe à tona um velho personagem de recentes escândalos e dos bastidores de Brasília, o terceiro sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, o Dadá.

Nos diálogos telefônicos ele também aparece como "Chicão", apelido usado por ele e pelo empresário Carlinhos Cachoeira, pivô da operação policial.

Aos 51 anos e aposentado do serviço militar, o sargento é um homem cobiçado por policiais, empresários e políticos pelo trânsito que sempre teve no submundo da espionagem.

Ele já trabalhou na Abin (Agência Brasileira de Inteligência), sucessora do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações).

O nome de Dadá ganhou projeção nacional em 2008, por causa da Operação Satiagraha, que investigou negócios do banqueiro Daniel Dantas e levou à sua prisão.

Na época, Dadá foi apontado como uma das pessoas que teria participado de forma irregular na operação, levantando informações para o delegado e hoje deputado federal Protógenes Queiroz (PC do B-SP).

Em depoimento à CPI dos Grampos, Dadá disse não ter participado das investigações da Satiagraha.

A declaração contrariou a versão do delegado de que o militar repassou a ele informações sobre o paradeiro de aviões de Daniel Dantas. Na versão de Protógenes, Araújo trabalhou legalmente na operação como um colaborador eventual e teria inclusive recebido por seus serviços.

As provas obtidas pela Satiagraha foram anuladas no ano passado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

DOSSIÊ

Dois anos depois da operação, Dadá apareceu como personagem de outro escândalo, quando um grupo de petistas se reuniu para produzir um dossiê contra o tucano José Serra na campanha presidencial de 2010.

Dadá esteve numa reunião com membros da campanha de Dilma Rousseff à Presidência, num restaurante em Brasília. Na ocasião, foi discutido o levantamento de informações sobre Serra, adversário do PT. Descobriu-se, logo depois, que o sigilo fiscal de pessoas ligadas a Serra fora quebrado ilegalmente.

Mais dois anos se passaram e agora Dadá foi parar na cadeia graças à Operação Monte Carlo. Ele aparece, segundo as investigações, como um dos principais agentes do grupo de Carlinhos Cachoeira, acusado de comandar um esquema de jogos ilegais e outros negócios em Goiás e no Distrito Federal.

Foi Dadá, por exemplo, quem entregou a aliados do empresário alguns dos rádios habilitados nos Estados Unidos, que o grupo acreditava serem imunes a grampos. Para a polícia, Dadá também era o elo do grupo de Cachoeira com um esquema de interceptação ilegal de e-mails.

Dadá também foi a ponte utilizada por Cachoeira, segundo a investigação da PF, para procurar um funcionário da Infraero que teria facilitado a entrada de contrabando no país.

Oficialmente, apresentava-se como presidente de uma associação de varredores da Delta Construções, mencionada na investigação como ligada ao grupo de Cachoeira. A empresa, que nega envolvimento com Cachoeira, diz que jamais contratou os serviços de Dadá.

Diálogos dele com Protógenes gravados na operação criaram desgaste para o deputado, um dos articuladores da CPI que vai investigar o caso.


Por Folha de São Paulo

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Grampos revelam elos de Protógenes com citados no esquema de Cachoeira

Autor do requerimento de criação de uma CPI para investigar a ligação de políticos com Carlinhos Cachoeira, acusado de comandar uma rede de jogos ilegais no País, o deputado Protógenes Queiroz (PC do B-SP) foi flagrado em pelo menos seis conversas suspeitas com um dos mais atuantes integrantes do esquema do bicheiro goiano: Idalberto Matias Araújo, o Dadá. Os grampos da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, revelam a proximidade do parlamentar com um possível alvo da CPI que deverá ser instalada no Congresso Nacional.


Protógenes passou orientações a faz-tudo de Cachoeira - André Dusek/AE - 21.12.2011
Protógenes passou orientações a faz-tudo de Cachoeira

Espécie de faz-tudo do esquema e conhecido araponga de dossiês políticos, Dadá esteve a serviço de Protógenes na Operação Satiagraha e, nas conversas, recebe orientações do ex-delegado sobre como agir para embaraçar a investigação aberta pela corregedoria da PF sobre desvios no comando da operação que culminou com a prisão do banqueiro Daniel Dantas - a Satiagraha.

A ligação de Protógenes com Dadá permite questionamentos sobre sua autoridade para integrar a CPI. Os diálogos revelam o empenho do deputado, delegado licenciado da PF, em orientar Dadá na investigação aberta contra ele próprio, no ano passado.

Numa das conversas, Protógenes lembra ao araponga para só falar em juízo. "E aí, é aquela orientação, entendeu?, diz ele, antes do depoimento de Dadá. As ligações foram feitas para o celular do deputado. Fica evidente a preocupação de Protógenes em não ser visto ao lado de Dadá. Eles sempre combinam encontros em locais distantes do hotel onde mora o deputado, como postos de gasolina e aeroportos.

Procurado pelo Estado por três vezes em seu gabinete ontem, Protógenes não foi localizado e também não respondeu às ligações para seu celular.

Dadá foi identificado na Operação Monte Carlo - que o levou e ao bicheiro Cachoeira à prisão, em fevereiro -, como o encarregado de cooptar policiais e agentes públicos corruptos, de obter dados sigilosos para a quadrilha e de identificar e coordenar a derrubada de operações de grupos concorrentes. Ele está preso desde o mês passado, acusado de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e exploração de máquinas caça-níqueis.

Em agosto do ano passado, Dadá tratou de seu depoimento no inquérito da Satiagraha com o próprio Protógenes, com o advogado Genuino Lopes Pereira e com o escrivão da Polícia Federal Alan, lotado na Coordenação de Assuntos Internos da PF(Coain-Coger), uma subdivisão da Corregedoria-Geral. O assunto é o mesmo: Dadá e Jairo Martins, outro araponga ligado a Cachoeira e que esteve informalmente sob o comando de Protógenes na Satiagraha, só deveriam se manifestar em juízo.Se integrar a CPI contra Cachoeira, Protógenes investigará dois de seus colaboradores, como indicam os grampos obtidos pelo Estado.

O advogado Genuino Pereira afirmou que não conhece Protógenes e negou que seus clientes tenham combinado a versão que dariam em depoimento à PF. Alega que eles se comportaram daquela forma por coincidência. Alan não foi encontrado no local de trabalho.

Xerife. Com uma imagem de quem se tornaria o "xerife" da Câmara, Protógenes foi eleito graças à carona que pegou nos 1,3 milhão de votos do palhaço Tiririca (PR-SP) para preencher o total de votos exigidos pelo quociente eleitoral de São Paulo. A iniciativa de criar uma CPI para investigar Cachoeira e seus colegas é, até agora, o auge de sua promessa de campanha.

Nos áudios da Monte Carlo, Dadá trata o deputado por "professor" e "presidente". Uma das interceptações mostra Protógenes sugerindo a Dadá que o encontre num novo hotel. "Não tô mais naquele não", avisa, num sinal de que os encontros são constantes. No grampo de 11 de agosto de 2011, acertam o local da conversa, mas se desencontram. "Tá onde?", pergunta. Dadá responde: "Em frente da loja da Fiat", ao que o deputado constata: "Ah, tá. Estou no posto de gasolina". "No primeiro?", indaga Dadá. "Isso", confirma o deputado.


Por Rosa Costa - O Estado de São Paulo