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quinta-feira, 17 de maio de 2012

CPI rechaça ofensiva de Collor e PT contra imprensa

Presidente cassado por corrupção e representantes do partido que operou o mensalão queriam usar caso Cachoeira para perseguir VEJA. Recuaram


Alvaro Dias: "Não há como aceitar qualquer tipo de ameaça à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa" Alvaro Dias: "Não há como aceitar qualquer tipo de ameaça à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa"
 
A CPI do Cachoeira rechaçou nesta quinta-feira uma tentativa de agressão à imprensa livre. O senador Fernando Collor (PTB-AL), o único presidente da história a ser cassado por corrupção, havia apresentado um requerimento pedindo à Polícia Federal (PF) todos os diálogos entre Carlinhos Cachoeira e Policarpo Júnior, chefe da sucursal de VEJA em Brasília.  O pedido, regimentalmente injustificável, tinha um objetivo claro: intimidar o trabalho da imprensa investigativa. A tentativa de intimidação teve o efeito inverso.

A reação à tentativa de Collor e seus mais novos amigos, os petistas, gerou discursos notáveis em defesa da liberdade de imprensa. O debate teve início porque o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), havia incluído o requerimento em uma extensa lista que seria votada - e aprovada - em bloco. O anúncio provocou uma mobilização imediata de parlamentares da base governista e da oposição. Eles lembraram o óbvio: a Polícia Federal isentou o jornalista de VEJA e definiu os contatos como mera relação de uma fonte com um repórter investigativo.

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) - aliado do PT e do governo Dilma - pôs-se de pé e proferiu um discurso memorável em defesa da imprensa livre: "Ninguém sabe do mundo da corrupção, quer seja do mensalão, quer seja de outros casos, ninguém pode saber desses casos conversando com perfis apenas como o da madre Teresa de Calcutá”, afirmou. "Ouvimos dois delegados de polícia. A sessão foi secreta, mas seu conteúdo não o pode ser nesse momento. Perguntei se houve crime e peremptoriamente a resposta foi não", afirmou, em referência aos investigadores Raul Alexandre Marques e Matheus Mella Rodrigues, ouvidos pela CPI do Cachoeira nas últimas semanas.

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) também condenou a iniciativa: "Não há como aceitar qualquer tipo de ameaça, por velada que seja, à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa", disse ele, lembrando que não houve qualquer ilegalidade por parte de Policarpo. "Estou estarrecido. É uma afronta à liberdade de expressão consagrada na Constituição. É uma revanche ou busca de submeter essa CPI a um prazer pessoal", disse o deputado Rubens Bueno (PPS-PR)

O senador Pedro Taques (PDT-MT), que fez carreira como procurador de Justiça, foi enfático: “Esse requerimento é absolutamente inconstitucional, é de uma inconstitucionalidade chapada. O requerimento é absolutamente ridículo. Pinçar dados apenas do senhor Policarpo se revela como vingança, autoritarismo. A CPI não é um instrumento de vingança de parlamentares contra órgãos de imprensa”, afirmou.

Vergonha - Collor também teve de passar pelo constrangimento de ouvir um colega de partido, o deputado Sílvio Costa (PTB-PE), fazer um apelo direto pela retirada do requerimento. Costa também se dirigiu aos petistas, que haviam apoiado a tentativa de intimidação: "O PT precisa de autocrítica e está colocando o coração antes da razão. Não se pode convocar um jornalista que prestou serviço à democracia do Brasil, que mostrou à opinião pública que a corrupção está muito forte".

A senadora Kátia Abreu (PSD-TO) reforçou o discurso do colega: “O jornalista vai aonde está a informação e às vezes a informação está no inferno, não está no céu”. Foi ela, aliás, quem destacou uma questão técnica que só reforçava o absurdo do requerimento de Collor: além de persecutório, o pedido não fazia sentido porque a CPI votaria, em seguida, um requerimento pedindo a íntegra de todos os áudios obtidos até agora pela Polícia Federal.

Foi a intervenção da senadora que permitiu ao relator Odair Cunha desistir da empreitada sem admitir a derrota: "Diante da fala da senadora Kátia Abreu sobre o problema da prejudicialidade e para que não venham com nenhum tipo de generalização, vou encaminhar pela prejudicialidade desse requerimento", afirmou o petista.

O senador Humberto Costa (PT-PE) e o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), que haviam apoiado o senador alagoano, se calaram. Collor foi deixado só. Como única saída, aceitou a decisão do relator. As tentativas de intimidação não devem cessar com a primeira derrota de Collor e do PT na CPI. Mas o Parlamento demonstrou estar atento às ameaças à liberdade de imprensa.

Veja o que disseram os parlamentares contrários à tentativa de intimidação:

Deputado Miro Teixeira (PDT-RJ): "Vou citar de cor, mas lhes garanto que, em poucos minutos, posso acessar aqui o computador e lhes trazer decisão do Supremo Tribunal Federal, com voto condutor do Ministro Celso de Melo, afirmando que a função do jornalista é investigar. Ele tem o dever de investigar, e ninguém sabe do mundo da corrupção, quer seja do mensalão, quer seja de outros casos de corrupção como já examinamos aqui nesta CPI, ninguém pode saber desses casos conversando exclusivamente com perfis como o da Madre Teresa de Calcutá. O jornalista de investigação, a exemplo do policial, conversa, sim, com pessoas próximas ao crime. Senão, não obtém as informações".

Senador Alvaro Dias (PSDB-PR): "Um estadista norte-americano afirmou: 'Entre um governo sem imprensa e uma imprensa sem governo, prefiro a última alternativa'. E não há como não verificar, em determinadas incursões nesta Comissão Parlamentar de Inquérito, uma velada ameaça à liberdade de imprensa, que temos de repudiar com a veemência e a contundência possíveis. A tentativa que se faz hoje, por exemplo, afronta a legislação vigente no País, desde a Constituição – e não tenho tempo para citar os artigos –, o Código de Ética dos jornalistas brasileiros,o  Código de Conduta dos Jornais, o Código Civil, o Código de Processo Civil, o Código de Processo Penal, a Convenção Americana de Direitos Humanos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esse requerimento é uma afronta a todos esses documentos legais do país e internacionais (...) Seria um precedente pernicioso e inominável, senhor Presidente! É uma indignidade tentar trazer aqui, como réu, um jornalista que apenas cumpriu o seu dever, que exercitou a sua profissão com dignidade, e essa atividade com dignidade foi aqui sustentada por dois delegados, em sessão secreta, que não admitiram ter havido qualquer ilícito praticado por esse jornalista ou por qualquer outro jornalista".

Senador Pedro Taques (PDT-MT): "Esse requerimento, com respeito ao seu autor, é ridículo, porque – e vou falar com referência às próprias palavras do seu autor – ele diz 'pincemos'. Pinça é um instrumento que se utiliza para separar do todo; pinça é algo que se revela como vingança; pinça é algo que se revela como autoritarismo. Voto contra. O PDT não aceita perseguição. Por isso, senhor presidente, este requerimento é inconstitucional, ofende tratados internacionais, como o Pacto de São José da Costa Rica, a Declaração Universal de 1948. Ele é absolutamente inconstitucional".

Senadora Kátia Abreu (PSD-TO): "O jornalista vai aonde está a informação. E, às vezes, essa informação está no inferno; não está no céu, não. Jamais esse jornalista poderia encontrar informações sobre o crime organizado do senhor Carlinhos Cachoeira com os senadores do bem, com pessoas do bem. Infeliz ou felizmente, os jornalistas têm o direito, garantido pela Constituição, de ir até às profundezas do inferno para procurar as informações para trazer à luz da sociedade (...) O Brasil não é a Venezuela, não é a Argentina e não vai caminhar por essa direção".

Deputado Rubens Bueno (PPS-PR): "Isso é uma afronta à liberdade de expressão, consagrada na Constituição Cidadã do Brasil. Isso não é absolutamente nada a não ser uma revanche ou busca de submeter esta CPI a um prazer pessoal de responder a alguém por este ou aquele momento da vida pública do País. E nós não podemos concordar com isso (...). Isso é um sentimento totalitário. E não podemos, de forma alguma, avalizar esse sentimento presente neste requerimento".

Deputado Sílvio Costa (PTB-PE): "Eu quero saber se, realmente, o mensalão era uma mentira. Não era, porque tem 40 aí complicados. Quero saber se aquela matéria do Ministério dos Transportes era mentira. Ela também não era, e tem muita gente complicada. VEJA não compactuou com a corrupção nem prejudicou a democracia. Nós não podemos transformar esta CPI numa espécie de paraíso do revanchismo (...).  Nós passamos 20 anos neste país com a imprensa calada. Nós passamos 20 anos neste País com os censores dizendo: 'Isso pode sair; isso não pode sair'. O PT lutou pela democracia neste País. O PT é sócio da democracia neste País. O PT não pode negar a sua história. O PT precisa fazer uma autocrítica. O PT está botando o coração antes da razão. O PT está errado! Não se pode convocar um jornalista que prestou um serviço à democracia do Brasil. Não se pode convocar um jornalista que mostrou para a opinião pública do Brasil que a corrupção está muito forte. Isso é um erro do PT(...). Senador Collor, o senhor tem uma oportunidade histórica, porque com Alagoas o senhor já se reencontrou, o senhor tem oportunidade de se reencontrar com o Brasil. Eu lhe faço um apelo: o senhor poderia retirar esse requerimento. Esse requerimento não ajuda o país, não ajuda a democracia. Senador Collor, reencontre-se com o país".


Por Gabriel Castro e Laryssa Borges

CPI do Cachoeira poupa Delta, governadores e políticos de investigação

A CPI do Cachoeira livrou, nesta quinta-feira (17), governadores e parlamentares da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico e de serem convocados a explicar suas relações com o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

A empreiteira Delta, apontada pela Polícia Federal como braço financeiro do esquema, também não terá seus sigilos quebrados nacionalmente, "por falta de indícios", no entendimento da maioria da comissão. A CPI livrou ainda da investigação o presidente licenciado da empreiteira, Fernando Cavendish.

Os deputados e senadores aprovaram apenas a quebra do sigilo da empresa Delta na região Centro-Oeste, além dos sigilos de pessoas sem foro privilegiado que assessoravam Cachoeira e já foram investigadas pela Polícia Federal, conforme antecipou a Folha na edição de hoje.

A votação foi orquestrada pelo PT e PMDB, que comandam a CPI, e contou com ajuda da oposição. O relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), sequer colocou em votação os requerimentos acerca dos governadores e da Delta nacionalmente. Esses requerimentos só devem constar na pauta da CPI no dia 5 de junho. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) e Fernando Franceschini (PSDB-PR), da oposição, apoiaram a proposta de adiar a discussão.

"Nós não vamos fazer devassa", afirmou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). "A generalização cheira a devassa", complementou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP).

PIZZA
Conforme a Folha antecipou na edição de hoje, foi feito um acordão entre caciques do PT, PMDB e PSDB para poupar os governadores Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ). No pacote dos governistas entrou ainda a preservação da Delta nacionalmente, que tem obras com o governo federal.

"Reuniu-se um grupo numa sala e decidiram quem vai morrer. O Rio de Janeiro está enterrado até a alma. O que vamos dizer?", afirmou a senadora Kátia Abreu (PSD-TO). "Na minha opinião, estamos convocando os bagrinhos da história. Os importantes estão de fora", complementou.

"Dá impressão de estarem selecionando alvos por orientação político-partidária", criticou o senador Álvaro Dias (PSDB-PR). "É um mau começo desta CPI", disse o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), um dos poucos a insistir na convocação dos governadores. "Estamos amarelando", afirmou o senador Pedro Taques (PDT-MT).

DELTA
O que provocou maior polêmica foi a decisão do comando da CPI de não quebrar os sigilos da Delta em todo o país. O relator e parlamentares do PT e PMDB afirmaram que não existem indícios contra a atuação da empresa em todo o país, o que gerou protestos.

"Estamos passando vergonha aqui. A Delta recebeu mais de R$ 4 bilhões do governo federal e não vamos quebrar o sigilo da empresa? Como vamos explicar isso ao Brasil?", afirmou o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR).

"É a CPI do conta-gotas. O dinheiro do Centro-Oeste vai para a central da empresa", afirmou o líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR). "Em relação à Delta não existem apenas indícios, existem provas", disse o senador Álvaro Dias, em referência a vários diálogos interceptados pela PF que citam a empresa. Apesar das críticas, a oposição ajudou a aprovar o requerimento de quebra do sigilo apenas da Delta Centro Oeste.

ACORDÃO
O relator e deputados do PT e PMDB se esforçaram para negar um acordão para poupar alguns das investigações. "Não vamos resumir nossos trabalhos em apenas uma reunião", disse Odair Cunha. "Eu não participei de acordão nenhum. Temos que ter serenidade", disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). "Vossa excelência não consegue convencer a uma criança de três anos que essa Delta não tem que ter seu sigilo aberto em todo país", rebateu o deputado Silvio Costa (PTB-AL), em resposta ao relator.

A votação desta quinta-feira praticamente sepulta a CPI. As investigações devem ficar restritas ao que já foi apurado pela Polícia Federal sobre os membros do grupo de Cachoeira sem avançar para os pontos não apurados pela PF, até o momento, por envolverem políticos, que têm direito ao foro privilegiado. A PF também não investigou a Delta porque seu trabalho era voltado para Cachoeira.


AP COMENTA

Como já havíamos afirmado aqui anteriormente, essa CPI irá cortar a cabeça de 2 ou 3 e tudo será esquecido.
Ao ver a besteira que fizeram, os petistas se apressaram em travar as convocações, para evitar que se chegue na Delta, a lavanderia do PAC.

sábado, 12 de maio de 2012

Collor, a CPI e chance de se vingar de quem mostrou sua verdadeira face

Em 1837, Hans Cristian Andersen escreveu um conto em que um bandido, se fazendo passar por um alfaiate de terras distantes, diz a um determinado rei que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la. O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele.

O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas.

Até que um dia, o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do suposto "alfaiate". Quando o falso tecelão mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: "Que lindas vestes! Você fez um trabalho magnífico!", embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei.

Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais. A única pessoa a desmascarar a farsa foi uma criança: "O rei está nu!". O grito é absorvido por todos, o rei se encolhe, suspeitando que a afirmação é verdadeira, mas mantém-se orgulhosamente e continua a procissão.

Recorro a essa fábula para mostrar o real Fernando Collor de Mello.

Quando presidente, ele achou que poderia fazer tudo e que ninguém o incomodaria.

Até quando ele mexeu com o irmão Pedro Collor de Mello (já falecido) e as empresas da família.

Pedro resolveu abrir a boca e entregou todo o esquema Collor/PC Farias em uma entrevista bombástica na Veja (Leia AQUI).

Foi o estopim para o Impeachment que Fernando Collor sofreria meses depois, após uma série de denúncias divulgadas pela imprensa e o trabalho feito pela oposição, PT à frente.

20 anos após estes fatos, Collor ressurge.

Ressurge como um odioso revanchista, que não mede esforços, para tentar se vingar de quem fez o papel da criança e apontou que o rei estava nu.

Na CPI instalada para investigar e punir aqueles que estão envolvidos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, Collor resolveu se tornar o aríete do PT contra a imprensa, mais precisamente, a Revista Veja.

Collor vislumbrou a chance de trazer ao banco dos réus, aquela que ele considera a porta voz da sua derrocada. O PT à sua retaguarda, fornece o que ele precisa para empreender sua cruzada revanchista.

Mas, esta semana, PT e Collor de Mello sofreram um duro baque nas suas aspirações revanchistas.

Os delegados da PF ouvidos pela CPMI disseram que não viram "provas" que possam condenar a Veja por algum crime.

Esperemos para ver qual a "nova" estratégia usada pela BESTA (Blogosfera ESTAtal) para divulgar as ações revanchistas do PT e Collor de Mello.



Depoimentos à CPI do Cachoeira desmontam ofensiva de mensaleiros contra a imprensa



Fim da mentira: O delegado da PF Raul Marques (à esq.) em sessão secreta na CPI do Cachoeira: a relação entre o redator-chefe de VEJA e o contraventor era de jornalista e sua fonte de informações 
 
Fim da mentira: O delegado da PF Raul Marques (acima) em sessão secreta na CPI do Cachoeira: a relação entre o redator-chefe de VEJA e o contraventor era de jornalista e sua fonte de informações
 
 
Há vinte anos Pedro Collor deu uma entrevista a VEJA. As revelações originaram um processo que, sete meses mais tarde, obrigou seu irmão, Fernando Collor, a deixar a Presidência da República.

Há sete anos, VEJA flagrou um diretor dos Correios embolsando uma propina. O episódio foi o ponto de partida para a descoberta do escândalo do mensalão, que atingiu em cheio o governo passado e o PT.

Agora, Collor e os mensaleiros se unem contra a imprensa num mesmo front, a CPI do Cachoeira.

Criada com o nobre e necessário propósito de investigar os tentáculos de uma organização criminosa comandada pelo contraventor Carlos Cachoeira, ela seria usada, de acordo com o roteiro traçado pelo ex-presidente Lula e pelo deputado cassado José Dirceu, como cortina de fumaça para o julgamento do mensalão.

O plano era lançar no descrédito as instituições que contribuíram para revelar, investigar e levar à Justiça os responsáveis pelo maior esquema de corrupção da história do país. Tamanha era a confiança no sucesso da empreitada que o presidente do partido, Rui Falcão, falou publicamente dela e de sua meta principal: atacar os responsáveis pela “farsa do mensalão”. Tudo ia bem – até que os fatos se incumbiram de jogar o projeto petista por terra.

Na semana passada, dois delegados da Polícia Federal prestaram depoimento à CPI do Cachoeira.

Eles foram responsáveis pelas operações Vegas e Monte Carlo, que investigaram a quadrilha do contraventor. A ideia dos radicais petistas e seus aliados era utilizar a fala dos policiais para comprometer o procurador-geral da República, Roberto Gurgel (que defenderá a condenação dos mensaleiros no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal), o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo (transformado em inimigo figadal de Lula desde que declarou que o ex-presidente tinha conhecimento da existência do esquema) e a imprensa, que revelou o escândalo.

Nesse último setor, como deixou clara a performance do ex-presidente Collor, encarnado na triste figura de office boy do partido que ajudou a tirá-lo do poder, o alvo imediato era o jornalista Policarpo Junior, diretor da sucursal de VEJA em Brasília e um dos redatores-chefes da revista.

O primeiro depoimento foi do delegado Raul Alexandre Marques, que dirigiu a Operação Vegas. Marques disse aos parlamentares que entregou ao procurador Roberto Gurgel, em setembro de 2009, indícios de envolvimento de três parlamentares – incluindo o senador Demóstenes Torres – com a quadrilha de Cachoeira. Gurgel, conforme o delegado, não teria determinado a abertura do inquérito nem dado prosseguimento à apuração.

Foi a deixa para que petistas dissessem que ele tentou impedir o desmantelamento de uma organização criminosa e, por isso, deveria ser convocado para depor na CPI. O procurador-geral da República reagiu. Na seara técnica, disse que não abriu inquérito a fim de permitir a realização da Operação Monte Carlo, que desbaratou o esquema de Cachoeira no início deste ano.

No campo político, foi ainda mais incisivo. “O que nós temos são críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão”, afirmou. Ao fustigarem o procurador na CPI do Cachoeira e venderem a tese de que ele não mereceria crédito por ter uma atuação política, mensaleiros e aliados levaram procuradores e ministros do STF a sair em sua defesa.

Ataque aos acusadores - Mensaleiros, que têm no petista Vaccarezza o seu porta-voz na CPI, queriam convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele defenderá a condenação dos réus do processo do mensalão

ATAQUE AOS ACUSADORES – Mensaleiros, que têm no petista Vaccarezza o seu porta-voz na CPI, queriam convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele defenderá a condenação dos réus do processo do mensalão


Petistas, que chegaram a comemorar o resultado da primeira etapa do plano, agora já não demonstram o mesmo empenho para convocar Gurgel.

Em uma conversa recente, o ex-ministro José Dirceu contou ao seu interlocutor o motivo do recuo. “O efeito foi o contrário do imaginado. A única consequência da CPI foi acelerar o processo do mensalão”, afirmou.

Lula, o idealizador do plano, também já faz leitura semelhante. Para ele, a CPI do Cachoeira “tem de ficar do tamanho que está” – ou seja, limitar-se a investigar Cachoeira e seus tentáculos no Congresso e em governos estaduais.

Da mesma forma, a ofensiva para desqualificar o trabalho da imprensa já não seria uma prioridade. “Não podemos fazer dessa CPI um debate político ou um acerto de contas entre desafetos”, afirmou o deputado Cândido Vaccarezza, do PT de São Paulo, espécie de porta-voz do grupo dos radicais.

A declaração é uma guinada de 180 graus no discurso – guinada essa decidida apenas depois que os fatos, com sua persistente impertinência, se sobrepuseram aos interesses do partido.

Desde a prisão de Cachoeira, a falconaria petista seguiu a tática de disseminar mentiras e omitir uma parte, sempre a mais importante, da verdade.

Para isso, não hesitou nem mesmo em recorrer a fraudes e manipulações nas redes sociais da internet. 

O grupo imputou à equipe de VEJA toda sorte de crimes, os quais, esperava, seriam pontuados pelos delegados da PF. E o que disseram os policiais em depoimentos à CPI?

Que o jornalista Policarpo Junior aparece lateralmente nas interceptações telefônicas sempre no exercício da profissão, apurando e investigando informações, que não cometeu crime nem trocou favores com a quadrilha e que não trocou “mais de 200 ligações com Cachoeira”.

Na Operação Monte Carlo, apenas dois telefonemas aparecem, segundo o delegado Matheus Rodrigues.

Outros ingredientes fizeram a estratégia petista fracassar.

O primeiro foi a dificuldade para encontrar aliados que se dispusessem a levar adiante os propósitos meramente políticos e revanchistas do partido.

Diversas siglas, incluindo o PMDB, se negaram a aderir à trama.

Como disse o senador Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais: “O que está em jogo é a democracia. No momento em que nós tivermos o Ministério Público Federal fragilizado e a imprensa cerceada, teremos a democracia em xeque”.

Houve ainda a firme condução dos trabalhos da CPI pelo relator Odair Cunha (PT-MG), que não se dobrou às pressões de facções do seu partido, e a oposição contundente de Dilma Rousseff à estratégia dos radicais.

A presidente considera que, a continuar na direção em que estava, a CPI poderá virar uma disputa de políticos corruptos contra seus acusadores.

Dilma está irritada com o presidente do PT, Rui Falcão, que vem defendendo publicamente o ataque à imprensa. Na terça-feira, disse a um auxiliar: “Se algum ministro falar algo parecido com o que o Rui vem dizendo, vai para a rua na hora”.


Fotos: Orlando Brito, Bia Parreiras, Claudio Versiani, Roberto Stuckert/Ag. O Globo e Marcos Rosa
O ano em que o presidente caiu: Pedro Collor deu o pontapé inicial e os fatos fizeram o resto: PC Farias recolhia propina de empresários para cobrir os gastos de Collor, como no caso do famoso Fiat Elba; vinte anos depois do processo que o levou a renunciar ao mandato, o ex-presidente (à dir., com a ex-mulher Rosane, a "madame que gastava demais", nas palavras de PC) quer se vingar de quem o investigou

O ANO EM QUE O PRESIDENTE CAIU - Pedro Collor deu o pontapé inicial e os fatos fizeram o resto: PC Farias recolhia propina de empresários para cobrir os gastos de Collor, como no caso do famoso Fiat Elba; vinte anos depois do processo que o levou a renunciar ao mandato, o ex-presidente (Com a ex-mulher Rosane, a “madame que gastava demais”, nas palavras de PC) quer se vingar de quem o investigou

Que forças aparentemente tão antagônicas quanto Collor e os falcões do PT se juntem na CPI com o mesmo e nefasto propósito de desqualificar a imprensa livre pode parecer assustador, mas não deixa de ser também natural. Na política, as convicções balançam facilmente ao sabor das conveniências – para o bem ou para o mal, sendo que a segunda opção é mais frequente.

Já na imprensa livre, os princípios não se sujeitam às circunstâncias. O dever de fiscalizar os governos vale para quaisquer governos.

E, no caso de VEJA, ele foi levado a cabo com o mesmo rigor tanto na gestão lulo-petista quanto na cleptocracia de Collor.

Em 2009, no julgamento que derrubou a Lei de Imprensa, o ministro Carlos Ayres Britto, hoje presidente do STF, usou uma frase de Roberto Civita, presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril e editor da revista VEJA, para descrever a natureza da relação entre jornalistas e homens públicos: “Contrariar os que estão no poder é a contrapartida quase inevitável do compromisso com a verdade da imprensa responsável”.

Foi essa parte da imprensa, a responsável, que, diante do ataque perpetrado contra VEJA, ergueu a voz na semana passada na defesa dos princípios basilares do jornalismo.

O jornal O Globo, em um editorial corajoso, criticou o que chamou de “campanha organizada contra a revista VEJA” feita por “blogs e veículos de imprensa chapa-branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT”.

Escreveu O Globo: “A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo”.

Fiscalizar os atos de governo foi uma função que surgiu praticamente junto com a imprensa. Durante a revolução inglesa, no século XVII, comerciantes e industriais insurgiram- se contra o poder absolutista dos reis.

Defendiam a supremacia das leis em relação à vontade do monarca e o fortalecimento do Parlamento como forma de diminuir a corrupção na corte. Nascia assim o conceito de accountability, ou o dever dos governantes de prestar contas à população. Para divulgarem suas ideias, os insurgentes ingleses usavam papéis impressos em uma máquina inventada dois séculos antes, a prensa tipográfica, que passou a produzir os primeiros jornais.

Ailton de Freitas/ Ag. O Globo, Tasso Marcelo/AE, Beto Barata/AE
Os réus: Jefferson, Dirceu, Delúbio e Valério devem ser julgados em breve pelo STF. A denúncia que deu origem ao processo partiu de VEJA, com prova em vídeo
Os Réus: Jefferson, Dirceu, Delúbio e Valério devem ser julgados em breve pelo STF. A denúncia que deu origem ao processo partiu de VEJA, com prova em vídeo

No que se refere às suas instâncias fiscalizatórias, o Brasil já atingiu um patamar seguro.

É uma situação diferente da que existia no tempo do processo de impeachment de Collor, quando o país vivia uma espécie de “lacuna fiscalizatória”.

A Constituição havia sido promulgada recentemente e o aparato estatal de autodepuração era ainda incipiente.

O Ministério Público, por exemplo, estava assimilando seu novo papel de representante da sociedade, e não do estado, e a Polícia Federal apenas começava a se livrar da poeira autoritária que a recobria.

Mas, ainda que as instituições tenham amadurecido, elas sozinhas não bastam para assegurar a vigilância constante sobre os governos e os homens públicos. Sua natureza as obriga a se mover vagarosamente.

“Por esse motivo, o papel de precursor das denúncias não costuma ser das instituições públicas, mas da imprensa”, diz Alexandre Camanho, presidente da Associação Nacional de Procuradores da República.

O jornalismo brasileiro vem cumprindo com vigor sua missão de revelar os casos de desídia e corrupção na esfera pública.

Nos últimos anos, têm sido inúmeros os registros de parlamentares, prefeitos, governadores e ministros obrigados a deixar o cargo em razão de revelações feitas pela imprensa e comprovadas pelas autoridades.

A imprensa livre não é ideológica.

Não persegue indivíduos nem empreende cruzadas contra partidos ou administrações. Ela se volta, sim, contra os que, no poder, se dedicam à prática de espoliar o bem público, guiados pela presunção da impunidade e pela convicção de estarem acima do bem e do mal.

Se alguma lição pode ser tirada até agora do último escândalo em curso na República, ela pode ser resumida em mais uma frase do ministro Ayres Britto: “À imprensa cabe vigiar o estado – nunca o contrário”.


Por Daniel Pereira, Otavio Cabral e Laura Diniz, da Revista Veja

Cachoeira pede no STF adiamento da ida à CPI




Márcio Thomaz Bastos, advogado de Carlinhos Cachoeira, protocolou um habeas corpus no STF. Na peça, pede que seja adiado o depoimento do contraventor na CPI que leva o seu nome. A inquirição está marcada para a próxima terça-feira (15).

Ex-ministro da Justiça de Lula, Thomaz Bastos alega na petição que o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), negou o acesso da defesa aos dados disponíveis na comissão. Nessa tese, Cachoeira não teria como se defender de acusações que desconhece.

“É imperativo que Carlos Augusto e seus advogados conheçam previamente todas as provas que poderão servir de substrato aos questionamentos que decerto lhe serão dirigidos pelos parlamentares”, anota o advogado. Cachoeira, obviamente, conhece as provas. Só não está ligando o nome à pessoa.

Por isso, Thomaz Bastas pede ao Supremo que mande Vital do Rêgo abrir aos defensores do pós-bicheiro “todo o material das Operações Vegas e Monte Carlo.” Tudo isso “em prazo razoável antes de sua oitiva.” O pedido foi à mesa do ministro Celso de Mello, que só deve tomar uma decisão na segunda, véspera do depoimento.

Por Josias de Souza

PT desiste de convocar Gurgel e já fala em adiar decisão sobre presença de governadores na CPI

Demóstenes cumprimenta Gurgel  após aprovação 
de sua recondução ao cargo.

O PT realiza nesta segunda-feira (14) uma reunião para definir a estratégia que vai adotar na CPI do Cachoeira após a inquirição dos delegados da Polícia Federal que conduziram as operações Vegas e Monte Carlo. Participarão os representantes do partido na comissão e seus líderes no Congresso.

Uma das deliberações que o PT tomará nesse encontro diz respeito ao procurador-geral da República Roberto Gurgel. Pretende-se reiterar a cobrança para que o chefe do Ministério Público Federal explique o fato de ter paralisado o inquérito da Operação Vegas, que lhe chegou às mãos em 15 de setembro de 2009. Porém…

O PT já não faz questão de aprovar o requerimento de convocação para que Gurgel se explique na CPI. Líder do partido no Senado, Walter Pinheiro (BA) disse ao blog: “Nós tínhamos definido que a primeira fase, até o dia 17 de maio, seria de coleta de informações. Agora é a hora de cruzar os dados.”



Pinheiro prosseguiu: “De posse das informações, temos condições de responder às perguntas. Os dados foram coletados? Chegaram à Procuradoria? Quem recebeu deu prosseguimento à investigação? Se os elementos forem tão fortes que evidenciem um caso de negligência, nem precisamos ouvir o procurador-geral.”

Nessa hipótese, disse Pinheiro, “não cabe à CPI fazer um julgamento político” de Gurgel. A comissão tampouco está credenciada para “fazer um julgamento jurídico”. A providência a ser adotada, na opinião do líder petista, é submeter o caso à apreciação do Conselho Nacional do Ministério Público.”

Ex-líder do PT e um dos representantes do partido na CPI, o senador Humberto Costa (PE) resumiu numa frase o mote que deve ser encampado pela legenda: “Não vamos transformar a CPI na CPI do procurador-geral. É a CPI do Cachoeira.”

Relator da comissão de inquérito, o deputado Odair Cunha (PT-MG) passou a defender como alternativa à convocação de Gurgel a requisição de explicações por escrito. Um pedido que, se vier a ser formalizado, o procurador-geral não cogita atender.

Em privado, Gurgel diz que, no limite, não hesitará em recorrer ao STF para resguardar sua autoridade, abstendo-se de prestar esclarecimentos à CPI. Sustenta que não deve fazê-lo sob pena de ficar impedido de atuar como acusador nos processos que correm no Supremo contra Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Necerssian (PPS-RJ).



O deputado Cândido Vaccarezza, outra voz do PT na CPI, antecipou ao blog a posição que vai levar à reunião de segunda-feira: “Entendo que a CPI tem poderes para convocar qualquer pessoa. Está previsto na Constituição e no regimento. Insisto em que o procurador-geral deve explicações. Mas nunca defendi a convocação dele na CPI. Quando o [Fernando] Collor apresentou o requerimento eu me posicionei contra. Minha tendência é a de defender a convocação da mulher do procurador.”

Chama-se Cláudia Sampaio Marques a mulher de Gurgel. É subprocuradora-geral da República. Coube a ela informar à Polícia Federal que a Procuradoria não enxergara nas páginas do inquérito da Operação Vegas indícios suficientes para requerer ao STF providências contra os detentores de privilégio de foro acusados de envolvimento com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Entre eles Demóstenes.
A comunicação de Cláudia foi feita, em outubro de 2009, ao delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques de Souza, que presidia a investigação. Ouvido pela CPI, ele disse que a mulher de Gurgel ficara de formalizar a posição da Procuradoria nos autos. Algo que jamais ocorreu. O inquérito foi paralisado, disse o delegado aos congressistas. A idéia de convocar Cláudia não é consensual no PT.

E quanto aos governadores? Consolida-se na bancada do PT a tendência de protelar a votação dos requerimentos de convocação do tucano Marconi Perillo (GO), do petê Agnelo Queiroz (DF) e do pemedebê Sérgio Cabral (RJ).



“Agora não é hora de convocar governadores”, diz Vaccarezza. “Nesse momento, temos de convocar os bandidos que estão presos e que têm peso na quadrilha. O Cachoeira já está convocado. Faltam os outros. Por exemplo: o Cláudio Abreu [ex-diretor da Delta Construções na região Centro-Oeste]”.

Walter Pinheiro chega mesmo a considerar a hipótese de a CPI simplesmente não chamar os governadores. “Não podemos cair numa pirotecnica convocatória. Essa é uma CPI atípica. Nas outras, o Congresso foi atrás das informações. Nessa, recebemos investigações prontas ou em estágio avançado.”

E daí? “Temos que cruzar as informações”, disse Pinheiro. “Se no dia 17 concluirmos que temos material suficiente para mandar para a Justiça ou para o Ministério Público, talvez não seja preciso nem ouvir ninguém. Nosso problema é decidir sobre o decoro de parlamentares. Governadores devem ser processados no STJ. O que nos cabe fazer é dar encaminhamento.”

Nesse ponto, a posição de Pinheiro não orna com a dos demais. A maioria pende para o adiamento da convocação dos governadores por razões táticas. Avalia-se que, antes, convém esmiuçar os dados disponíveis na CPI e aguardar por informações que a Polícia Federal ainda não digeriu. “Não podemos e não devemos passar a idéia de que a CPI já acabou”, pondera Vaccarezza. “A investigaçãoo está apenas começando.”



O delegado federal Matheus Mella Rodrigues (foto acima), que também depôs na CPI nesta semana, informou aos parlamentares que a Polícia Federal recolheu nas batidas de busca e apreensão da Operação Monte Carlo material suficiente para encher 82 malotes. Desses, cerca de 30 foram abertos.
Portanto, mais da metade do papelório e dos computadores recolhidos pela PF nas casas de Cachoeira e de oito dezenas de comparsas ainda não foram manuseados. “Temos de assegurar que esses dados sejam enviados para a CPI à medida que for sendo processados”, disse Vaccarezza.

Guiando-se pelo que foi dito pelo delegado Matheus Mella, o petismo trabalha com a perspectiva de que os vínculos de Marconi Perillo com a turma de Cachoeira, já insinuados, serão adensados quando vierem à luz todos os detalhes da investigação. Imagina-se que ocorrerá o oposto com Agnello Queiroz e Sérgio Cabral.

Nessa linha, o partido defenderia mais adiante apenas a convocação do tucano. Farejando o cheiro de queimado, o líder do PSDB Alvaro Dias (PR) afirma: “Os requerimentos dos governadores têm que ser votados em bloco.” Confirmando-se o adiamento das convocações, outros governadores podem ser levados à grelha.

Os grampos da PF revelam, por exemplo, que Cachoeira aparelhava-se para levar seus negócios ilícitos ao Paraná, Estado governado por Beto Richa (PSDB). Agia também no Mato Grosso, gerido por Silval Barbosa (PMDB). A profusão de nomes potencializa as chances de um acordo político que transfira a análise sobre as culpas para os Legislativos estaduais, o Ministério Público e o STJ, foro em que são julgados os governadores.

No mais, o petismo deve abandonar, ao menos temporariamente, seus planos de arrastar a revista ‘Veja’ para dentro da CPI. Não por falta de vontade, mas por ausência de matéria prima. Tentou-se arrancar dos dois delegados federais informações capazes de comprometer a revista e seu diretor em Brasília, o repórter Policarpo Júnior.



Raul, o delegado que presidiu a Vegas (foto acima), disse que não dispunha de dados que desabonassem a ‘Veja’. Inquirido, Matheus, o condutor da Monte Carlo, declarou que a revista não foi alvo da investigação. Mais: até onde sua vista pôde alcançar, o repórter da revista estava atrás de informação.

“O delegado não disse nada que pudesse comprometer o Policarpo”, viu-se compelido a reconhecer Vaccarezza.

Simultaneamente ao reposicionando-se em relação à convocação de Gurgel e à gana sobre ‘Veja’, o PT esforça-se para desvincular a CPI do julgamento do processo do mensalão. Um vínculo que o próprio Rui Falcão, presidente da legenda, cuidara de estabelecer num vídeo tóxico que veiculara há um mês.

Na peça, Falcão insinuara que o PT urilizaria a investigação legislativa como corneta antimensalão: “A bancada do PT na Câmara e no Senado defende uma CPI para apurar esse escândalo dos autores da farsa do mensalão.” Com suas palavras, o mandachuva do petismo ofereceu a escada que Gurgel escalou para rebater as críticas que lhe foram dirigidas agora. O procurador-geral disse que seus críticos desejam, em verdade, proteger os réus mensaleiros.

Walter Pinheiro, que torcera o nariz para o vídeo de Falcão, rebate Gurgel: “Não fomos nós que decidimos que esse escândalo seria divulgado agora, perto do julgamento do mensalão. Se pudesse escolher, eu teria escolhido julho de 2010, antes da eleição. Não teria o segundo turno na disputa presidencial [entre José Serra e Dilma Rousseff]. Não teria Demóstenes. Não estaríamos discutindo a convocação do Perillo. Talvez não tivesse nem o Agnello. Quem sabe nem mesmo o Cabral.”

Vaccarezza ecoa Pinheiro: “Não fizemos nenhuma trama para que esses fatos aprecessem agora como contraponto do mensalão. Preferíamos que o escândalo tivesse sido denunciado pelo procurador em 2010. O debate da campanha presidencial não teria sido desviado para o aborto. Na verdade, a coincidência do escândalo com o mensalão só atrapalha, porque radicaliza o cenário, joga a mídia contra nós e prejudica as investigações.”

Por Josias de Souza

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Possível venda não muda processo sobre idoneidade da Delta, diz CGU


delta (Foto: globo news) 

A Controladoria Geral da União (CGU) anunciou nesta quarta-feira (9) que a venda da Delta Construções, empreiteira líder de contratos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) suspeita de envolvimento com o grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira, não altera o processo em andamento para verificar a idoneidade da empresa.

"A possível venda da Delta, em princípio, não muda nada em relação ao processo em curso na CGU para analisar a possível declaração de inidoneidade da empresa. Mas há que se aguardar a forma da anunciada transação para se ter uma avaliação mais completa de suas consequências jurídicas", afirmou nota divulgada pela Controladoria pouco depois do anúncio de que a A J&F, grupo que controla o JBS, assumirá a partir da próxima semana a gestão da Delta Construções.

A CGU determinou no fim de abril a instauração de processo para investigar a empreiteira Delta, que poderá resultar numa declaração de inidoneidade e impedir a empresa de firmar contratos com o governo federal.

A Controladoria disse que o objetivo é "a apuração de atos ilícitos supostamente por ela (Delta) praticados em suas relações com a Administração Pública Federal - especialmente com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes -, bem como outros possíveis atos ilícitos correlatos, noticiados e que venham a ser apurados no curso do processo, praticados por pessoas físicas ou jurídicas coligados ou vinculados àquela primeira pessoa jurídica, com vistas a eventual aplicação das sanções administrativas previstas na legislação, entre elas a declaração de inidoneidade para licitar e contratar com a Administração Pública".
A Delta é a sexta maior empreiteira do Brasil e está envolvida em denúncias de favorecimento a Cachoeira, preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo, acusado de chefiar um esquema de jogo ilegal.

Relatório da Polícia Federal apontou que Cachoeira passava informações sigilosas de licitações públicas para Claudio Abreu, ex-diretor da Delta em Goiás. Áudios também apontam o envolvimento do ex-diretor da Delta Carlos Pacheco com o grupo. Fernando Cavendish, dono da construtora, foi citado em escutas, mas não conversa diretamente com Cachoeira. A PF diz que a Delta repassava dinheiro a empresas fantasmas controladas por Cachoeira.

Desde então, a empresa deixou obras nas quais participava em consórcio com outras empreiteiras e vem sofrendo pressão para abandonar empreendimentos estatais que toca sozinha. No último dia 25, a Delta divulgou um comunicado no qual a empresa assegurava que "continuará a cumprir seus contratos, obrigações e compromissos assumidos com seus fornecedores e clientes, com a habitual regularidade".

Poucos dias antes, no entanto, segundo notícias publicadas na mídia, a empresa deixou de fazer aportes no consórcio responsável pela reconstrução do Maracanã. No dia seguinte ao comunicado, a empresa deixava outro consórcio no Rio de Janeiro.

No final de abril, Cavendish anunciou sua saída do conselho de administração da empresa. O ex-diretor da empresa CLáudio Abreu, flagrado em diversas conversas com Cachoeira, deve ser chamado para prestar depoimento na CPI criada para investigar as denúncias contra Cachoeira e políticos, enquanto parlamentares ainda pressionam para que o novo presidente compareça à comissão.

Grupo que assumirá a Delta
A J&F engloba os negócios da família Batista, a mesma que controla o JBS, maior produtor de carne bovina do mundo; além da Eldorado Brasil, do setor de celulose; a Flora, empresa de produtos de limpeza; e o Banco Original, com foco em financiamento do agronegócio.

Em março deste ano, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles passou a ser o presidente do conselho da J&F. A família Batista mostrou nos últimos anos ser uma especialista em formar grandes companhias por meio de aquisições a baixo custo de empresas em dificuldades financeiras.

Por G1

Conselho abre procedimento preliminar contra Protógenes

O Conselho de Ética da Câmara abriu nesta quarta-feira (9) procedimento preliminar de investigação contra o deputado Protógenes Queiroz (PC do B-SP), que foi gravado em conversas telefônicas com Idalberto Matias Araújo, o Dadá, um dos integrantes da quadrilha de jogo ilegal comandada pelo Bicheiro Carlinhos Cachoeira. O requerimento que pede a abertura de processo por quebra de decoro contra Protógenes foi protocolado pelo PSDB.

O relator do procedimento preliminar será escolhido pelo presidente do Conselho de Ética, deputado José Carlos Araújo (PSD-BA), dentre os três nomes sorteados na reunião desta quarta- feira: deputados Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Amauri Teixeira (PT-BA) e Jorge Corte Leal (PTB-PE).

José Carlos Araújo disse que irá conversar com os três parlamentares antes de tomar a decisão. O relator do procedimento deverá decidir se abre ou não processo disciplinar por quebra de decoro contra o deputado Protógenes. Se ele sugerir a abertura das investigações, Protógenes terá 10 dias para apresentar defesa, segundo o presidente do conselho.

Denúncias
De acordo com reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo”, investigações da Polícia Federal revelam seis conversas do deputado com  Dadá, apontado pela PF como um dos principais colaboradores de Cachoeira.

Segundo a a publicação, Dadá esteve a serviço de Protógenes na Operação Satiagraha, que prendeu o ex-banqueiro Danial Dantas. O ex-delegado da PF, ainde de acordo com o jornal, dá orientações a Dadá sobre como agir para atrapalhar investigação aberta pela corregedoria da polícia sobre irregularidades no comando da Satiagraha. Protógenes foi o autor do pedido de CPI na Câmara para investigar o envolvimento de parlamentares com Cachoeira.

O deputado Protógenes compareceu à reunião do Conselho de Ética e criticou a abertura de investigação preliminar. “O teor das minhas conversas com o Idalberto não indicam qualquer relação com a quadrilha do Cachoeira”, afirmou.

Por Nathalia Passarinho

Prisão de Carlinhos Cachoeira atrasou um ano

Uma discussão jurídica paralela atrasou a operação sobre o bicheiro, mas acabou permitindo o aprofundamento da investigação e a chegada a novos integrantes do esquema
 
A prisão do bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, aconteceu quase um ano depois de ter sido planejada. Apesar disso, o atraso de 11 meses entre o esperado e o realizado permitiu que fossem incluídas mais provas de caráter financeiro, como extratos bancários, cheques e declarações de imposto de renda, para fortalecer a denúncia. Em março, 81 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal em Goiás. Cachoeira e seus principais operadores estão presos até hoje.

O atraso aconteceu por conta de uma discussão jurídica iniciada na cidade goiana de Valparaíso, no entorno do Distrito Federal, sobre a participação de pessoas de fora do “mundo político”.


Bem antes disso, porém, desde o início das apurações sobre o grupo, em outra operação da PF, houve um grande cuidado dos policiais, procuradores e juízes responsáveis pelas investigações e pelo processo quanto ao envolvimento que se constatou de políticos e outras autoridades com foro privilegiado. Os autos mostram que esses políticos e autoridades não estavam envolvidos com o foco inicial da investigação, que era a exploração ilegal de jogos de azar por parte da quadrilha de Cachoeira. Seu envolvimento supostamente acontecia em outros atos, como fraudes em licitações e tráfico de influência. Já em 2007, os responsáveis pela investigação esbarraram pela primeira vez em políticos, na Operação Vegas.

Na Operação Monte Carlo, que começou em 2010, o cuidado que se tomou foi separar todos os grampos e demais constatações que envolviam autoridades com foro privilegiado do inquérito principal, e não se aprofundar sobre eles, para não haver risco de invalidação das provas. Tais informações seriam remetidas ao procurador-geral da República para o envio aos foros adequados. Como de fato se fez: na Vegas, Roberto Gurgel tinha conhecimento, por exemplo, das informações sobre o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) desde 2009; na Monte Carlo, recebeu as informações tempos depois.


Entretanto, no assunto principal da Operação Monte Carlo (exploração de jogos de azar sem atuação de políticos), a intenção inicial dos delegados da Polícia Federal era deflagrar o caso no dia 23 de março de 2011. Em 16 de março do ano passado, a PF pediu a prisão de Cachoeira, de seus principais operadores – Lenine Araújo, José Olímpio Queiroga, Idalberto Matias de Araújo (o araponga conhecido como Dadá) e Gleyb Ferreira – e de policiais que recebiam propinas para garantir a “segurança” da jogatina na região do entorno de Brasília em vez de fechar os pontos de máquinas caça-níqueis.

Os autos do processo mostram que o juiz José Augusto de Melo Silva, da 1ª Vara Criminal de Valparaíso, cidade goiana próxima do Distrito Federal, se preparava para decretar a prisão da quadrilha, mas teve de recuar a contragosto. “A corrupção tomou conta de quase toda a força pública policial na cidade de Valparaíso, não sendo demais se dizer que grande parte dos policiais ali lotados faz parte de uma força policial particular”, escreveu o juiz, em despacho, naquela ocasião.

Anular investigação
Apesar disso, o magistrado, que acompanhava a investigação desde 2010, teve que remeter todos os autos para a Justiça Federal de Goiânia, fazendo o caso quase começar do zero. Por quê? Porque o Ministério Público local fez um parecer sobre o pedido de prisão da PF no qual diz que o caso não deveria correr na cidade pelo simples fato de haver grampos telefônicos que mostravam a participação de um policial rodoviário federal no esquema. Para os promotores do Grupo de Combate ao Crime Organizado, isso fazia com que o caso tivesse de ser remetido para a Justiça Federal. José de Melo Silva discordou, mas, mesmo assim, fez o que os promotores queriam. O juiz temeu que, caso não seguisse a orientação deles, no futuro os advogados de Cachoeira usassem o parecer para anular toda a investigação policial.
“Após a manifestação ministerial, a defesa dos investigados poderá arguir nulidade na manutenção do feito perante este juízo, (…) jogando por terra todo o trabalho realizado até agora”, lamentou o juiz.

Temor
O parecer do Ministério Público que atrasou a prisão de Cachoeira foi assinado por quatro promotores do Grupo de Combate ao Crime Organizado. Eles assumiram o caso depois que duas promotoras que cuidavam do inquérito em Valparaíso, Marivânia Feres e Claudine Abranches, se declararam suspeitas para atuar na investigação por razões de “foro íntimo”. Os grampos da Operação Monte Carlo mostram que a quadrilha de Cachoeira temia a atuação de Marivânia exatamente porque ela trabalhava na repressão aos jogos de azar na região. Não se sabe quais seriam os motivos particulares que levaram a procuradora a deixar o caso.

Num dos áudios, Lenine Araújo, o “braço direito do bicheiro” contata um servidor do fórum cooptado pela organização criminosa para saber quando seriam as férias da promotora, porque acreditava que, na sua ausência, ficariam facilitadas as atividades de Cachoeira. A reportagem entrou em contato com Marivânia para esclarecer o caso, mas ela disse que não diria nada além do que está nos autos.

Queixas
Num primeiro momento, o atraso nas prisões provocou indignação do delegado Matheus Rodrigues, que presidia a investigação. Em ofício ao juiz da 11ª Vara Federal, Paulo Augusto Moreira Lima, ele ressaltou sua “preocupação de que as organizações criminosas se beneficiem de entendimentos jurídicos minoritários (ou quase inexistentes)”. O delegado reclamou ainda da situação do juiz da Vara de Valparaíso, que, no seu entender, poderia ficar exposto em função do atraso. Segundo o delegado, o juiz José Augusto trabalhava por “horas a fio” sem ajuda de seus funcionários de cartório, já que havia funcionários corrompidos até ao lado dele. “Não podemos deixar de comentar acerca da enorme frustração de um magistrado estadual que, depois de trabalhar horas a fio (…) [viu] questionadas todas as suas decisões”, protestou Matheus Rodrigues.

Definido, porém, o atraso no final da operação, em 22 de março, em meio às queixas, o delegado pediu ao juiz Paulo Lima para suspender o pedido de prisão e fazer mais grampos nos investigados, além de monitorar também as conversas dos delegados da PF e agentes da Polícia Rodoviária Federal envolvidos.

Mas os procuradores da República em Goiás, Daniel Salgado, Léa Batista e Marcelo Ribeiro, entenderam ser preciso aumentar o conjunto de dados bancários da quadrilha. Incluíram ali a necessidade de quebrar o sigilo bancário e fiscal dos parentes e dos laranjas de Cachoeira, como sua ex-mulher Andréa Aprígio, e seu ex-cunhado Adriano Aprígio.

Os atrasos provocados pela discussão jurídica, no entanto, acabaram ao final beneficiando o aprofundamento da investigação. Depois de receber alguns dados bancários e fiscais, a polícia pediu mais informações em agosto sobre outros investigados, solicitação autorizada pela 11ª Vara Federal.

Por Eduardo Militão


AP COMENTA

Temos como dúvida se foi esse realmente o motivo principal ou se foi deixado para "explodir" o caso, quando o STF se preparasse para julgar o caso mais emblemático hoje na Corte Maior, que é o Mensalão e seus 36 acusados.

Será que irão acusar a PF de "parceira de crime" do Cachoeira e da Veja??

O PT decidiu investir todas as fichas em transformar a CPI criada para apurar as relações de Carlinhos Cachoeira com autoridades de várias instâncias numa investigação sobre a imprensa. A estratégia, antes discreta, se intensificou após reunião de petistas ontem.
No depoimento secreto do delegado Raul Alexandre Sousa, que conduziu a Operação Vegas, as perguntas de petistas e aliados se concentraram nas ligações de Cachoeira com jornalistas. Sousa disse que, após longa investigação, a Polícia Federal não verificou nada de impróprio nessas relações nem viu razões de indiciar jornalistas ou investigar órgãos de imprensa.
A tropa de choque anti-imprensa na sessão secreta de ontem foi composta pelos senadores Fernando Collor (PTB-AL) e Humberto Costa (PT-PE) e pelos deputados Luiz Sérgio (PT-RJ), Doutor Rosinha (PT-PR) e Protógenes Queiroz (PC do B-SP).

Comento

Se o delegado da PF, responsável pela investigação afirma isso, será que vão acusar a PF de estar em conluio com a Veja e Cachoeira? 


E olhando os nomes da tropa de choque, percebe-se que o porquê do ataque figadal à Veja...


(Não estou defendendo a Veja e seu modus-operandi. Estou defendendo a liberdade de imprensa que ela tem pra tomar partido, assim como a Carta Capital o faz à esquerda).

Controladora do JBS finaliza negociações para compra da Delta


A J&F Participações, holding que controla o frigorífico JBS, maior produtor mundial de carne bovina, deve anunciar nesta quarta-feira a compra do controle da Delta Construções, empresa  suspeita de ser a maior envolvida no esquema de corrupção de Carlinhos Cachoeira, investigado pela Polícia Federal por envolvimento com a exploração de jogos ilegais.

Conforme apurou o Valor, os últimos detalhes da negociação estão sendo fechados nesta noite e o anúncio de fechamento da operação está previsto para a manhã desta quarta-feira. A Delta marcaria a entrada da holding J&F, da família Batista Sobrinho, no negócio de engenharia e construção civil.

Com faturamento de R$ 2,8 bilhões em 2010, a Delta detém um grande número de contratos de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e de projetos da Petrobras, como o da refinaria do Comperj, no Rio, e da Reduc, além de obras ligadas aos eventos da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

A empresa carioca, controlada pelo empresário Fernando Cavendish, foi posta à venda devido aos escândalos de corrupção envolvendo sua atuação com Cachoeira e à iminente perda de contratos.

Outro empreendimento de peso da J&F é a Eldorado Celulose e Papel, fábrica de celulose de eucalipto em instalação em Três Lagoas (MS), com investimento de R$ 6,2 bilhões e previsão de inauguração em novembro.

A holding, que contratou recentemente o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para presidir seu conselho de administração, também é dona do Banco Original, assim como da fabricante de produtos de higiene e limpeza pessoal Flora e da fabricante de lácteos Vigor. O faturamento anual do grupo supera R$ 55 bilhões.

Procurada, a assessoria de comunicação da J&F não comentou a informação sobre a compra da Delta.

Por Ivo Ribeiro, Valor


AP COMENTA

Essa venda, nada mais é, que uma tentativa do Governo Federal de blindar a Delta e a tirar do foco das investigações da CPI do Cachoeira.

Procuradoria paralisou a investigação, diz delegado


Mulher de Roberto Gurgel teria dito à PF que não havia elementos contra Demóstenes
O delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Souza afirmou ontem à CPI do Cachoeira que uma investigação da PF que indicou o envolvimento de políticos com o grupo de Carlinhos Cachoeira ficou paralisada após ser encaminhada à Procuradoria-Geral da República.

"Não foi feita nenhuma diligência, investigação, após a entrega dos autos", disse sobre a Operação Vegas, que precedeu a Operação Monte Carlo contra Cachoeira.

A Vegas investigou vazamentos de informações sigilosas para o grupo de Cachoeira e esbarrou em autoridades com foro privilegiado, que só podem ser processadas pela Procuradoria no Supremo Tribunal Federal.

Segundo o delegado Souza, em 15 de setembro de 2009, a Procuradoria foi comunicada de que a operação havia identificado a participação de parlamentares no esquema de Cachoeira, entre eles o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO) e Sandes Junior (PP-GO).

O delegado disse que, após a entrega dos documentos, ele se reuniu com a subprocuradora-geral da República, Claudia Sampaio, que lhe explicou, falando em nome do procurador-geral, Roberto Gurgel, que a Procuradoria não tinha encontrado elementos para processar o senador e os deputados.

Claudia é mulher de Gurgel.

O depoimento fez com que aumentasse a pressão para convocar Gurgel para que explique por que não agiu diante dos fatos narrados pela PF.

O delegado se comprometeu a ir amanhã checar se o material recebido pela CPI sobre a Vegas corresponde a tudo que foi produzido pela polícia. Senadores suspeitam que não. Os congressistas devem apresentar ainda um pedido para que Claudia Sampaio seja ouvida.


Por Andreza Matais e Rubens Valente, FSP

CPMI: princípios, métodos e produtos


Eu recebi a tarefa de ser o relator da CPMI. Não haverá desrespeito à presunção de inocência, pirotecnia ou convocações sem propósito 

Há menos de duas semanas, recebi da liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados a tarefa de ser o relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito destinada a apurar os crimes cometidos pelo senhor Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e também por pessoas ligadas a ele, bem como as suas ramificações em corporações empresariais e no chamado aparelho de Estado, a partir dos inquéritos da Polícia Federal derivados das operações Vegas e Monte Carlo.

Na quarta-feira passada, eu e o presidente da comissão, o senador Vital do Rego (PMDB-PB), recebemos os autos do Supremo Tribunal Federal com a íntegra do inquérito da PF referente à operação Vegas. No mesmo dia, apresentei o plano de trabalho à comissão, e o texto foi debatido e aprovado.

O decorrer dos trabalhos, a execução do plano e o próprio relatório final, previsto inicialmente para novembro, provarão a seriedade e os princípios éticos que pautam os trabalhos de relatoria desta CPMI.

A lógica de investigação prevê, em um primeiro momento, a oitiva dos delegados da PF responsáveis pelos inquéritos das operações Vegas e Monte Carlo, de forma a dirimir quaisquer dúvidas dos autos, com o objetivo de municiar os integrantes da CPMI para inquirirem suspeitos e testemunhas.

Em seguida, serão ouvidos Carlinhos Cachoeira e demais integrantes da organização criminosa, bem como o ex-diretor da Delta para o Centro-Oeste. Também serão ouvidos, conforme o plano de trabalho aprovado, "testemunhas das ações dessa organização criminosa; autoridades públicas, servidores e representantes da sociedade civil; e especialistas nos temas conexos ao objeto de investigação desta CPMI".

Teremos, assim, outros cinco meses de trabalho, tempo suficiente para tomarmos todos os depoimentos que forem considerados necessários. Apresentado o cronograma inicial e a metodologia de oitivas, vale ressaltar o norte ético que pauta esta relatoria.

A CPMI se destina a apurar os crimes cometidos pela organização de Cachoeira. Assim, é justo comunicar que autoridades públicas, empresários ou quaisquer pessoas sobre as quais haja indícios de que tenham sido corrompidas pela organização serão chamadas a prestar esclarecimentos.

À relatoria não interessa "blindar" este ou aquele governo, partido, empresa, servidor público ou parlamentar.

Também é necessário esclarecer que a relatoria não vai promover o desrespeito ao princípio constitucional de presunção de inocência.

Asseguro que, no que depender do meu trabalho, não haverá pirotecnia nem convocações sem propósito. Condutas individuais não serão generalizadas para partidos, governos ou corporações empresariais. E sempre haverá o respeito ao depoente e ao direito ao contraditório.

Dessa conduta de preservação do norte ético, devem surgir resultados sólidos, como se espera de uma CPMI: apontamento para a punição de quem houver cometido crimes e um rol de sugestões consistentes e aplicáveis destinadas a aprimorar a administração pública.

Por ODAIR CUNHA, 35, advogado, é deputado federal pelo PT-MG, em FSP

O segredo como patologia

Às vésperas da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, no próximo dia 16, a CPI do Cachoeira protagonizou ontem uma cena que se encaixaria à perfeição num filme do grupo de humor britânico Monty Python: uma sessão secreta (sic) na qual estavam presentes cerca de 50 pessoas, entre congressistas e servidores.

Em regra, não deve haver segredo no Congresso. É a "Casa do Povo". Na prática, querer manter em sigilo uma reunião com 50 participantes é tarefa inglória, patética ou as duas coisas juntas. Em CPIs anteriores era comum um deputado ou um senador deixar seu celular ligado e captando tudo para repórteres que ficavam do lado de fora.

Ontem, no início da sessão dita secreta, houve uma tentativa de obrigar todos os presentes a deixar seus celulares do lado de fora da sala. A exigência não vingou.

O depoente foi o delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Souza. Ele comandou a chamada Operação Vegas, que precedeu e deu origem à Operação Monte Carlo. Ambas desvendaram o esquema de negócios comandado por Carlos Cachoeira, raiz da CPI.

Antes de serem entregues ao Congresso, documentos dessas operações vazaram copiosamente para a mídia. O delegado Raul, por dever de ofício, já colocou tudo o que sabe em seu relatório. A CPI tem acesso a esses documentos -bem como qualquer cidadão com alguma habilidade em navegar pela internet.

Nada além de uma obsessão patológica pelo sigilo justifica o depoimento secreto de ontem. Da mesma forma, é ilógico impedir cada integrante da CPI de ter uma cópia da documentação sobre o escândalo. Só assim todos teriam como formar convicção sobre o que se passou.

Ao perder tempo sendo bedel de deputados e de senadores, o comando da CPI desacelera o ritmo da investigação. Por tabela, ajuda quem deveria ser punido com rapidez.

Por Fernando Rodrigues, FSP

domingo, 6 de maio de 2012

CPI de Cachoeira 'promete espalhar mais sujeira do que o normal', diz 'Economist'

O escândalo do esquema de corrupção comandado pelo empresário Carlos Augusto de Almeida Ramos, o "Carlinhos Cachoeira", "promete espalhar mais sujeira do que o normal", diz a edição da revista britânica The Economist que chegou às bancas nesta sexta-feira. 

A revista diz que escândalos como esse seriam comuns em Brasília, mas que a CPI que investigará o caso coloca políticos de todos os partidos na berlinda.
A reportagem cita o envolvimento do senador Demóstenes Torres e de outros políticos – e lembra que Torres foi descrito como um homem de "princípios e convicções" em uma lista dos cem brasileiros mais influentes publicada em 2009 pela revista Época.

"Até agora, os custos políticos da investigação parecem recair sobre a oposição ao governo de centro-esquerda de Dilma Rousseff", diz o texto.

"Mas as revelações não são necessariamente um presente político para Rousseff."

Planos

Segundo a reportagem, apesar de a linha dura adotada pela presidente contra a corrupção desde o início de seu governo lhe garantir "uma reserva de credibilidade com o público", os resultados de CPIs costuma ser imprevisíveis.

"Mesmo que Rousseff saia politicamente ilesa, a investigação provavelmente irá atrapalhar alguns de seus planos", diz o artigo, citando a votação sobre a distribuição dos royalties do pré-sal e projetos de infra-estrutura para a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, que podem ser atrasados, especialmente pelo envolvimento da construtora Delta, que está sendo investigada.
"Quanto mais a podridão na política brasileira é exposta, menor o número de políticos nos quais os brasileiros sentem que podem confiar", diz a revista.

Por  BBC

Além de Carlinhos Cachoeira


Ou a principal descoberta do caso continua encoberta ou é a ação da CPI e da PF que exige esclarecimento 

Mesmo com tudo o que já foi divulgado e pressentido, ou a principal descoberta da Polícia Federal ainda está encoberta, por misteriosas razões, ou são comportamentos estranhos da própria PF e já também da CPI mista (CPMI) que precisam ser esclarecidos. Tanto quanto a rede de Carlinhos Cachoeira e seus fins.

O noticiário está bastante aturdido, nele se encontrando, por exemplo, de uma só vez, a inclusão de Fernando Cavendish nos escalados para depor e a afirmação de que a Delta Construtora, de que Cavendish é dono ou "dono", está "blindada" na CPMI, por pressão do governo. Ao aturdimento diário deve-se parte das coisas estranháveis. Outras, porém, são fatos demonstrados.

Já citado o calendário de depoimentos, nele mesmo é surpreendente a reserva de todo o mês de junho para debates entre os integrantes da comissão. Assim também quanto aos depoimentos marcados para este mês. Seja pela quantidade dos relacionados para um só dia (cinco e ainda "outros" em 25 de maio), o que não faz prever inquirições habilidosas e minuciosas; seja pelas datas, com o mês todo à espera de que o senador Demóstenes Torres deponha no dia 31, encerrando os apenas sete dias com inquirições em todo o mês.

O normal seria que a busca intensificada de informações, confissões e denúncias fosse preliminar, porque fundamental para a previsível ramificação das apurações, em um caso com múltiplas faces.
As providências para a guarda do inquérito entregue à CPMI lembram a Sala de Situação da Casa Branca ou do Pentágono. Por certo nunca houve no Congresso nada parecido com a sala em que os integrantes da comissão terão entrada restrita. E, lá, sua consulta ao inquérito será sob a vigilância de várias câmeras, negado-lhe até o porte de celular.

O que contém o inquérito a justificar tudo isso? A explicação de evitar vazamento para a imprensa é pueril. Todos sabem que a comissão está repleta de congressistas sempre prontos a repassar para repórteres, segundo suas predileções pessoais, o que ocorre em reuniões sigilosas, o teor de documentos e os segredinhos de sempre. E a imprensa, ainda mais na agitação de uma CPMI, em que os suspeitos e depoentes ficam meio indefesos, estará satisfeita com informações parciais, pontuais mesmo, do que um congressista-colaborador tenha lido na sala-fortaleza.

Por trás do pretexto, ou haverá de surgir algo muito grave, ou a CPMI se tornará devedora de explicações à opinião pública, assim como se dá com a Polícia Federal. Sempre por pedido a um juiz, a transferência de presos para distantes penitenciárias de segurança máxima é reservada a criminosos de alta periculosidade -chefes do tráfico, de milícias armadas, matadores. Até hoje não se sabe que motivo levou ao pedido, e à concordância do Judiciário, de transferência de Carlinhos Cachoeira para Mossoró, Rio Grande do Norte. Onde ficou em situação (não declarada, mas real) de isolamento, inclusive impedido de contato normal com seus advogados.

Noticiada a estranha situação, o Judiciário acedeu ao pedido, dos advogados, de retorno do preso a Brasília. Mas as condições de prisão a que Carlinhos Cachoeira foi submetido de imediato, em Brasília, só podem ser entendidas como intimidatórias. Ou há algo encoberto, que levou a PF e um juiz a isolar o preso para impedi-lo de mandar mensagens e orientações, ou a polícia exorbitou, suspeitamente, e teria que responder por isto. Os delegados do caso abrem o calendário da CPMI, o que será boa oportunidade de buscar-lhes o esclarecimento.

É preciso dizer que, nisso tudo, inexistem indícios de má-fé do presidente e do relator da CPMI, Vital do Rêgo e Odair Cunha. Seu modo de agir no comando do inquérito parlamentar ainda está por ser visto. É, aliás, o que menos promete espantos dentre o tanto que está por ser visto e ouvido, no caso que é muito mais espantoso do que se mostrou até agora. Mais espantoso, claro, se for devidamente exposto.


Por  Janio de Freitas