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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Saiba por que a CPI pode assar mais uma pizza




Convocada sob estrondosa unanimidade, apoiada por governistas e oposicionistas, a CPI do Cachoeira expôs seus calcanhares de vidro já na primeira sessão deliberativa. Aprovou-se um plano de trabalho que, seguido ao pé da letra, pode resultar numa pantomima que não cobrirá nem os fatos e indícios já esmiuçados nos inquéritos feitos pela Polícia Federal. Vão abaixo, em seis tópicos, os lances que sinalizam a preparação do forno:

1. A Delta: Dono da empreiteira pilhada em negócios ilícitos com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, Fernando Cavendish foi solenemente ignorado no plano de trabalho apresentado pelo relator Odair Cunha (PT-MG). A exclusão do empreiteiro do rol inaugural de depoentes é inexplicável, inacreditável e inaceitável.
É inexplicável porque o nome de Cavendish consta da Operação Monte Carlo, um dos inquéritos que motivaram a instalação da CPI. Não bastassem as menções, a PF informa que a Delta despejou R$ 39 milhões nas caixas registradoras de empresas de fachada da quadrilha. Suspeita-se que a verba tenha irrigado campanhas eleitorais. Não é dinheiro de cafezinho. A suposição de que os cifrões saíram das arcas da Delta sem o conhecimento do seu controlador é algo que não faz nexo.



O desinteresse por Cavendish é inacreditável porque a voz dele soou numa gravação feita às escondidas por dois ex-sócios. Considerando-se o conteúdo, essa fita deveria atear em qualquer congressista um desejo irrefreável de ouvir o empreiteiro, não o contrário. Cavendish disse:
“Se eu botar R$ 30 milhões na mão de políticos, eu sou convidado pra coisa pra caralho! Pode ter certeza disso, te garanto. Se eu botasse dez pau que seja na mão de nêgo… Dez pau! Ah… Nem precisava de muito dinheiro não, mas eu ia ganhar negócio. Ôooo…”

Noutro trecho, o dono da Delta declarou: “Estou sendo muito sincero com vocês: R$ 6 milhões aqui, eu ia ser convidado. Ô, senador fulano de tal, eu tenho cinco convites aqui. Toma, tá aqui ó. Pá! Se convidar, eu boto o dinheiro na tua mão.”

De resto, a sumiço de Cavendish do plano de trabalho da CPI é inaceitável porque a Delta, sexta maior construtora do país, ocupa o topo do ranking das obras do PAC, o bilionário programa de obras do governo federal. Investigar a empresa em todos os seus desvãos (da sala da diretoria à portaria) não é –ou não deveria ser— algo opcional. Tornou-se um imperativo ético.

 

2. A geopolítica: No plano de trabalho redigido por Odair Cunha e aprovado pela CPI, anotou-se que a investigação vai abarcar a quadrilha e suas ramificações. Ao citar o tentáculo privado da organização, o relator escreveu que serão perscrutadas as relações da turma de Cachoeira “com setores empresariais e agentes de mercado, inclusive com a diretoria da Delta na região Centro-Oeste”.

Ora, Delta Centro-Oeste é coisa inexistente. Afora os contratos beliscados na Esplanada dos Ministérios, a empreiteira toca obras em 23 Estados e no Distrito Federal. Imaginar-se que a empresa opera à magem da lei apenas na região central do país é algo que, de novo, não orna com a lógica. A Contraladoria-Geral da União aponta irregularidades em canteiros administrados pela Delta desde 2008.

A despeito disso, Dilma Rousseff e sua equipe de controladores só acordaram para a encrenca depois que a Delta virou sinônimo de escândalo. Só há 15 dias, por ordem da presidente, o ministro Jorge Hage, chefe da CGU, anunciou a abertura de procedimento administrativo que deve levar à declaração da inidoneidade da empresa. Por que demorou tanto?, os membros da CPI deveriam estar perguntando aos seus botões.

Embora espremido por vários de seus pares, o relator Odair bateu o pé. Recusou-se a excluir do seu plano de ação a limitadora referência ao Centro-Oeste. Trata-se, segundo ele, de mero “ponto de partida”. Alega que o vocábulo “inclusive” autoriza a eventual ampliação do alvo. Se é assim, por que diabos não suprimiu do texto, em nome da objetividade, o dique regional? O desejo do PT de resguardar o governo federal e seu PAC explica a obsessão.

 

3. Os governadores: As operações da PF levaram à grelha dois executivos estaduais: Marconi Perillo (PSDB), de Goiás; e Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal. A divulgação do audiovisual (vídeos e fotos) que desnudou a intimidade de Fernando Cavendish com o governador do Rio adicionou Sérgio Cabral (PMDB) na coluna de devedores de boas explicações. O que fez a CPI? Por ora, nada.

Para não dizerem que não falou de espinhos, o relator Odair programou para 12 de junho uma “audiência pública para debater as relações do sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos com governos estaduais.” Governos? Sim, isso mesmo. Nem sinal dos nomes do tucano Perillo e do petê Agnelo. Nada do pemedebê Cabral. Signatário de requerimentos de convocação dos três, o tucanato silenciou. O petismo ecoou o silêncio. Ficou no ar um cheiro de arranjo, um odor de deixa-como-tá-pra-ver-como-é-que-fica.

4. O procurador-geral: Nenhum nome foi mais mencionado na reunião da CPI do que o de Roberto Gurgel. O senador Fernando Collor (PTB-AL) insistiu na tese de que o chefe do Ministério Público Federal precisa ser convocado. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) deu-lhe razão: “O procurador ter sentado nestas investigações por três, quatro anos não é correto. Ele deve explicações à sociedade brasileira.”

De fato, Gurgel não está bem posto em cena. Recebera em 2009 o resultado da Operação Vegas. Nesse inquérito, a voz de Demóstenes Torres já era ouvida nos grampos da PF em diálogos tóxicos com Carlinhos Cachoeira. Ainda assim, o papelório e os CDs foram tratados na Procuradoria a golpes de gaveta por três arrastados anos.



Convidado a comparecer à CPI, Gurgel invocou uma limitação funcional. Alega que, depondo como testemunha, ficaria impedido de atuar nos inquéritos abertos agora, a seu pedido, no STF. Verdade. Ex-procurador da República, o senador Pedro Taques (PDT-MT) citou na CPI as leis e os artigos que dão suporte à argumentação de Gurgel. Porém, a convocação do procurador não é a única forma de forçá-lo a explicar-se.

A CPI tem poderes para, por exemplo, exigir de Gurgel uma justificativa escrita. Ele diz que o inquérito de 2009 não continha indícios que justificassem sua ação. Se é assim, por que não arquivou? Sustenta que optou “por sobrestar o caso, como estratégia para evitar que fossem reveladas outras investigações relativas a pessoas não detentoras de prerrogativa de foro [investigados sem mandato], inviabilizando seu prosseguimento, que viria a ser formalizado na Operação Monte Carlo.”
Ora, a Monte Carlo nasceu de uma iniciativa da PF, não de uma ordem de Gurgel. Pela lei, o procurador-geral pode, em benefício da investigação, aguardar por um desfecho mais conclusivo. Mas precisaria ter manifestado a intenção num ofício interno. Não consta que Gurgel tenha assinado algo parecido. Quer dizer: faltam explicações. E a CPI, se quisesse, teria como buscá-las sem afrontar as prerrogativas funcionais do procurador-geral.

5. Os congressistas: O plano de trabalho aprovado nesta quarta (2) prevê que a CPI jogará luzes sobre as ramificações de Carlinhos Cachoeira no Poder Legislativo. Agendou-se para 31 de maio a inquirição de Demóstenes Torres. Será ouvido depois que já tiverem passado pelo banco da CPI o próprio Cachoeira e seus operadores sem mandato. Beleza. E quanto aos deputados federais cujas biografias foram umedecidas no Cachoeiragate? Nada.

Afora o pedido de abertura de inquérito contra Demóstenes, já afogado, a Procuradoria da República requereu ao STF a instauração de processos contra três deputados: Carlos Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Nercerssian (PPS-RJ). Encontram-se com água pelo nariz. Mas a CPI, curiosamente, não parece interessada em desatar os nós monetários que os unem a Cachoeira. Por quê? Qualquer criança de cinco anos é capaz de responder.

 

6. O calendário: O relator Odair Cunha anotou no item três do seu plano de ação: “O prazo para conclusão dos trabalhos da CPI é de 180 dias, com término em 4 de novembro de 2012.” Os regimentos da Câmara, do Senado e do Congresso prevêem que comissões parlamentares de inquérito são passíveis de prorrogação.

Considerando-se as dimensões do aguaceiro, seria lícito supor que a nova CPI cogitasse a hipótese de esticar o seu calendário. Com o assentimento de seus pares, o relator prefere não considerar, nem como hipótese, a ideia de uma prorrogação. Na semana passada, logo depois de ser acomodado na cadeira de relator, Odair Cunha dissera, em timbre peremptório:
“Nós temos que analisar o que realmente existir de provas, de indícios. E, a partir dessas provas ou indícios, produzir uma investigação que pode atingir A ou B. Essa é uma questão que nós não temos controle. […] Produziremos uma investigação doa a quem doer.”

Considerando-se o resultado da sessão inaugural, Odair, os 65% de governistas da CPI e até um pedaço da bancada oposicionista parecem agora mais preocupados em controlar “o que nós não temos controle”,  escolher o A e o B que “uma investigação pode atingir” e administrar a cota de sofrimento de cada um. Se doer, que não doa tanto. Encrencas assim, tão vastas e multipartidárias, são um convite à construção dos fornos onde são assados os grandes acordos. Resta saber se o imponderável vai permitir.

Por Josias de Souza

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Os alvos da CPI do Cachoeira


Políticos e empreiteira campeã no recebimento de recursos federais estão na mira de comissão



Carlos Cachoeira, acusado de comandar esquema de corrupção
Carlos Cachoeira, acusado de comandar esquema de corrupção
 


Preso desde o dia 29 de fevereiro após a deflagração da Operação Monte Carlo, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, é acusado de comandar um esquema de exploração de jogos ilegais e de corrupção que envolveria congressistas de seis partidos diferentes, integrantes do governo de dois Estados e a empreiteira campeã no recebimento de recursos do Executivo federal. Veja quem são os principais alvos da CPI que investiga as relações do empresário.


DEMÓSTENES TORRES SENADOR (Sem Partido-GO) 

AS SUSPEITAS
O senador tinha relação próxima com Cachoeira e, segundo indicam as gravações, atuava no Congresso, no Judiciário e no Executivo em prol de interesses do empresário. A Procuradoria-Geral da República diz que ele recebeu R$ 3,1 milhões do grupo
LOBBY NO EXECUTIVO
Senador ajudou a abrir portas na Anvisa para representantes de laboratório controlado por Cachoeira. Também disse ter pedido a Fernando Haddad (Educação) reunião para discutir pendência em faculdade de aliado do empresário
LOBBY NO CONGRESSO
Acompanhava e informava Cachoeira sobre a tramitação de projetos de interesse do grupo, como o que tratava dos jogos
LOBBY NO JUDICIÁRIO E NO MINISTÉRIO PÚBLICO
Após receber pedido de Cachoeira, Demóstenes diz que atuaria para promover a transferência de MS para GO de PMs acusados de integrar grupo de extermínio
CARGOS
Demóstenes acionou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e conseguiu emprego no governo de MG para parente de Cachoeira. O tucano diz que desconhecia parentesco da funcionária
ALERTA
O senador, que é procurador de Justiça, avisou o grupo de Cachoeira de que haveria operação policial e do Ministério Público de combate a caça-níqueis
NEGÓCIOS
Demóstenes é apontado como sócio oculto da Delta, já que em grampos aparece trabalhando por interesses da empresa, como na ocasião em que, diz a PF, negociou para que a Prefeitura de Anápolis (GO) pagasse dívida de R$ 20 milhões à empreiteira
PAGAMENTO
Senador ganhou R$ 3,1 milhões do grupo, segundo o Ministério Público. Demóstenes também recebeu presentes de Cachoeira, entre eles um lote do vinho Cheval Blanc, lote 1947
O QUE DIZ A DEFESA
Não se manifesta sobre diálogos isolados. Afirma que essas gravações são ilegais, por terem sido feitas sem autorização do Supremo (senadores têm foro privilegiado)


AGNELO QUEIROZ GOVERNADOR (PT-DF)
 
AS SUSPEITAS
Integrantes de seu governo tinham relação próxima com o grupo de Cachoeira, cujo interesse estaria no contrato da Delta com o DF para coleta de lixo.
INFLUÊNCIA
O então chefe de gabinete de Agnelo, Cláudio Monteiro, recebeu de Cachoeira um aparelho de telefone supostamente a prova de grampo. Monteiro também teria tido reuniões com o grupo. Segundo a PF, há suspeita de pagamento de propina para que a Delta recebesse verbas do governo do DF
NEGÓCIOS
Grupo de Cachoeira negociava propinas para receber pagamento por contratos da Delta no DF, indicam escutas
RELAÇÃO
Um dia depois de negar, Agnelo admitiu que se encontrou uma vez com Cachoeira, quando era diretor na Anvisa. O empresário também atua no ramo farmacêutico. Petista afirma que conversa girou em torno de amenidades
GRAMPOS
Adversários de Agnelo teriam sido monitorados ilegalmente por integrante da Casa Militar do governo que tem contato com o grupo de Cachoeira
O QUE DIZ A DEFESA
Nega relação do governador com Cachoeira e influência dele no governo do DF


DELTA CONSTRUÇÕES
 
AS SUSPEITAS
Empresa, que é campeã no recebimento de recursos do Executivo federal, atuaria conjuntamente com o grupo de Cachoeira na obtenção de contratos com o poder público. Tanto Cachoeira quanto Demóstenes são apontados na investigação como sócios ocultos da empreiteira
CONEXÃO GOIÁS
O diretor da empresa no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, que foi demitido e atualmente está preso, era parceiro de Cachoeira
CONEXÃO SP
Cachoeira tinha contato direto com diretor da Delta em SP e na região Sul, Heraldo Puccini Neto, contra quem há ordem de prisão
CONEXÃO DIRETA
O presidente da empresa, Fernando Cavendish, sabia das ações de Cláudio Abreu no DF e em GO, segundo a PF. O número 2 da empresa, Carlos Pacheco, também tinha participação no grupo, diz a investigação. Em meio à crise, os dois se licenciaram da administração da empresa
O QUE DIZ A DEFESA
A Delta abriu uma auditoria para identificar o que foi feito pela direção da empresa no Centro-Oeste. Nega irregularidades em contratos públicos e diz que é vítima de vazamentos "parciais e descontextualizados" de áudios


MARCONI PERILLO GOVERNADOR (PSDB-GO)
 
AS SUSPEITAS
Integrantes e aliados do governador têm atuação próxima a Cachoeira, entre eles três funcionários do alto escalão do governo, que foram exonerados após serem citados em gravações da Operação Monte Carlo. Sua então chefe de gabinete, por exemplo, teria recebido de Cachoeira presentes e informações sigilosas sobre operações policiais. Em escutas, o ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcez (PSDB), aliado de Perillo há mais de 20 anos, dá a entender que Cachoeira fazia nomeações de pessoas para cargos do governo
RELAÇÃO
No início das investigações, Perillo disse que tinha relação "quase inexistente" com Cachoeira. Segundo ele, os encontros que teve como o empresário foram protocolares. Em uma escuta interceptada pela PF, entretanto, ele liga para cumprimentar Cachoeira por seu aniversário e sinaliza intimidade
Rapaz, faz festa e não chama os amigos?", diz Perillo, em telefonema de 2011 para congratular Cachoeira por seu aniversário
INFLUÊNCIA
Grupo de Cachoeira tinha relação com servidores de confiança do governador, como sua ex-chefe de gabinete, Eliane Pinheiro, para quem, diz a PF, bancava viagens e presentes. Outro que constantemente se comunica com Cachoeira é o ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcez (PSDB), aliado de Perillo
PAGAMENTO
Cachoeira enviou dinheiro a aliado de Perillo que estaria dentro do palácio do governo, apontam áudios captados pela PF. Tucano diz que suspeita é "leviana".Além disso, Cachoeira ordena, em um grampo, entrega de dinheiro "para o governador". Perillo nega ter negociado com Cachoeira e diz que vendeu imóvel seu para outra pessoa, sem saber que ela teria relação com Cachoeira. O empresário foi preso nesse imóvel
O QUE DIZ A DEFESA
Nega qualquer influência de Cachoeira no governo. Afirma que o governador mantém apenas uma relação "esporádica" com o empresário

Por FSP


AP Comenta

Estes são os alvos postos.
Mas o ex-presidente Lula tem a Revista Veja como inimiga figadal e semeia isso, fazendo com que os "blogueiros progressistas(?!?!)" a coloquem como alvo real.

sábado, 21 de abril de 2012

O primeiro round

A CPI criada para investigar os negócios do contraventor Carlos Cachoeira tem um grande desafio: desvendar o segredo do sucesso da empreiteira Delta, que tem na raiz de sua impressionante trajetória amizades influentes e pagamentos a políticos em troca de obras em governos e estatais


Por Hugo Marques, Daniel Pereira e Rodrigo Rangel

SOCIEDADE - A investigação sobre um esquema ilegal de jogos comandado por Cachoeira (à esq.) revelaram que a Delta, do empresário Fernando Cavendish (à dir.), usa políticos e dinheiro sujo para expandir seus negócios SOCIEDADE - A investigação sobre um esquema ilegal de jogos comandado por Cachoeira (à esq.) revelaram que a Delta, do empresário Fernando Cavendish (à dir.), usa políticos e dinheiro sujo para expandir seus negócios (Fotos Dida Sampaio/AE; Eduardo Knapp/Folhapress)

 
A Polícia Federal sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos
VEJA publicou em maio do ano passado uma reportagem exclusiva mostrando o que já parecia ser muito mais que uma simples coincidência: a empreiteira Delta fora alçada à condição de maior parceira do governo federal no mesmo ano em que contratou os serviços de consultoria do deputado cassado e ex-ministro José Dirceu. A Delta, mostrou a reportagem de VEJA, além de multiplicar sua carteira de obras, expandira sua atuação para setores nos quais não tinha experiência, como óleo e gás. Na ocasião, dois ex-sócios da empresa forneceram a primeira pista para desvendar essa impressionante história de sucesso. Segundo o depoimento deles, a empreiteira usava a influência que mantinha junto a políticos para obter vantagens. O próprio presidente da empresa, Fernando Cavendish, explicou como agia e qual era o preço a ser pago. Ele disse que com "6 milhões de reais comprava um senador". Sua explicação seguinte ficaria famosa: "Se eu botar 30 milhões de reais na mão de políticos, sou convidado para coisas pra c...". A conversa, gravada pelos ex-sócios, foi classificada como simples bravata por Cavendish. Não era. Ela era reveladora de um método.
A Delta vai aparecer como figura de proa na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada na semana passada no Congresso Nacional, em Brasília, para investigar as relações do contraventor Carlos Cachoeira - preso por comandar um esquema ilegal de exploração de jogos - com políticos e empresas que têm contratos com a administração pública. A construtora figurará como a principal acusada no esquema baseado em pagar propina em troca de favores e contratos em governos. Segundo a Polícia Federal, a empreiteira usou os tentáculos de Cachoeira para corromper autoridades nos governos de Tocantins, Distrito Federal e Goiás. Cavendish e a Delta tiveram sua ação restrita a essas três unidades da Federação? Não. O esquema atuou também no âmbito federal, usando o mesmo método de subornar políticos e servidores públicos para obter contratos. A engrenagem funcionou ativamente dentro de ministérios no governo passado e engolfou até mesmo a Petrobras, a maior e a mais poderosa das estatais brasileiras. A Petrobras é o principal dínamo dos investimentos públicos do país, protagonismo acentuado com a descoberta das reservas de petróleo no pré-sal. No governo Lula, foi aparelhada politicamente por militantes do PT, que ganharam o controle de cargos de diretoria. O aparelhamento político de estatais, como sempre, termina em prejuí­zo para a empresa e os contribuintes.
 
PROPINA - Em maio do ano passado, reportagem de VEJA revelou que o ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à Delta. Sócios da empreiteira, José Quintella e Romênio Machado revelaram a natureza do trabalho encomendado ao ex-ministro: abrir as portas do governo e de estatais
PROPINA - Em maio do ano passado, reportagem de VEJA revelou que o ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à Delta. Sócios da empreiteira, José Quintella e Romênio Machado revelaram a natureza do trabalho encomendado ao ex-ministro: abrir as portas do governo e de estatais
No fim de 2008, a Petrobras convidou a Delta para duplicar o parque de expedição de diesel na Refinaria de Duque de Caxias (Reduc). Um convite inusitado, uma vez que a empreiteira era especializada em obras rodoviárias e construção civil. Para suprir a carência técnica e se habilitar, a Delta comprou a Sigma, empresa que já tinha diversas parcerias com a estatal. Depois dessa negociação, a empreiteira assinou um contrato com a Petrobras no valor de 130 milhões de reais. A aproximação entre a Delta e a Sigma foi feita pelo engenheiro Wagner Victer, auxiliar do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que é compadre de Cavendish. O negócio parecia bom para todos os envolvidos. A Petrobras contratou a obra por um preço considerado baixo, a Delta se cacifou para atuar no bilionário ramo do petróleo e os donos da Sigma ficariam ainda mais ricos. Mas nem tudo correu como se esperava. Cavendish e seus sócios se desentenderam ao cabo de disputas financeiras. Dos ex-sócios inconformados partiu a revelação, certamente de alto interesse para a CPI instalada na semana passada, segundo a qual, para conseguir o contrato na Petrobras, a Delta teria pago propina. Sob a condição de anonimato, um deles contou a VEJA que a Sigma, além de servir como fachada técnica para as operações da Delta, funcionou como caixa para quitar faturas em que a própria Delta preferia não aparecer como devedora. Para ocultar o pagamento de propina, segundo o relato gravado do ex-sócio, que diz temer por sua segurança, a Sigma foi orientada a simular a contratação de serviços para justificar a saída da propina. Os diretores da Delta indicavam o valor e os funcionários da estatal a ser beneficiados. A fatura era então encaminhada a José Augusto Quintella e Romênio Marcelino Machado, ex-donos da Sigma que continuaram na empresa. Seguindo orientações de Cavendish, eles providenciavam notas frias para justificar os gastos com a propina. Essas notas eram assinadas por Quintella e Machado e por Flávio Oliveira, diretor da Delta. Só funcionários da área operacional da Petrobras, segundo o ex-sócio, receberam 5 milhões de reais. Um volume ainda maior teria sido pago a dirigentes da empresa. Desse mesmo caixa saíram os recursos para pagar os trabalhos de consultor prestados por José Dirceu.
Quintella e Machado não quiseram dar detalhes sobre o caso a VEJA. "Essa história será devidamente esclarecida no momento oportuno", disse Quintella, em nome dos antigos donos da Sigma. Os dois conhecem de perto a Delta. Foram eles que contaram a VEJA que Cavendish contratou, em 2009, o deputado cassado e ex-ministro José Dirceu como consultor com o objetivo de azeitar negócios junto à Petrobras, que era comandada por José Sergio Gabrielli, integrante da corrente política de Dirceu. Foi em uma reunião com Quintella e Machado que Fernando Cavendish fez seus notórios comentários sobre os preços e as vantagens de comprar autoridades. Na mesma conversa, gravada, Cavendish traçou o caminho até o cofre da Petrobras: "A Reduc foi convidada pelo jogo político da Delta. A gente foi convidado por uma articulação, um pedido que foi para cá, foi para lá...".
 
A Petrobras não quis se pronunciar sobre os fatos narrados por Cavendish e seus ex-sócios. A Delta diz que ganhou o contrato legalmente e não pagou propina. A CPI instalada na semana passada certamente terá meios de obter de Cavendish e da própria Petrobras informações mais consistentes sobre como o jogo político levava determinadas empresas a obter contratos na estatal no tempo em que Dirceu e Gabrielli reinavam. A Delta passou a existir como empreiteira de grande porte e alcançou o posto de maior fornecedora de serviços do estado brasileiro no governo Lula. Um "jogo político" que a CPI faria aos brasileiros o enorme benefício de elucidar. Não é pouca coisa. Segundo as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público que levaram Carlos Cachoeira à prisão, o contraventor funcionava como captador de negócios e lobista destacado da Delta Construções. Cachoeira operava em sintonia com Cláudio Abreu, designado formalmente pela empreiteira como seu representante para a Região Centro-Oeste. Os dois cuidavam de obter contratos junto aos governos do Distrito Federal, Goiás e Tocantins. Abreu tinha também missões junto a órgãos do governo federal. Foi ao cumprir uma dessas missões que ele emplacou a Delta como a principal parceira do Ministério dos Transportes e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Diretores da Delta passaram a visitar quase diariamente as dependências do ministério durante a gestão do senador Alfredo Nascimento, demitido no ano passado do cargo de ministro pela presidente Dilma Rousseff.
Na semana passada, Luiz Antonio Pagot, ex-diretor do Dnit demitido no bojo do episódio que levou à queda do ministro Alfredo Nascimento, se disse vítima de uma trama que teria sido tecida contra ele exatamente por ter oferecido obstáculos aos interesses da Delta no órgão. Estranha linha de defesa. Foi na gestão de Pagot que a Delta mais do que dobrou seu faturamento em contratos com o Dnit, alcançando 658 milhões de reais em 2010. É quase 90% de tudo o que a empreiteira faturou no governo federal. Que obstáculo, então, foi esse? Suposta vítima de uma conspiração, Pagot, lembre-se, foi quem reuniu empresários no Ministério dos Transportes para ouvir uma explanação do deputado Valdemar Costa Neto, do PR, réu no processo do mensalão. Entre os convidados por Pagot estavam empreiteiros e consultores. Costa Neto falou da importância para o PR de tirar do papel obras bilionárias de restauração de rodovias federais. Muitos dos participantes da reunião, inclusive concorrentes da Delta, ficaram sabendo mais tarde que, se fossem escolhidos para fazer as obras, deveriam entregar ao partido propinas de 4% a 5% do valor de cada fatura paga. A investigação jornalística tem de se contentar com as informações recebidas e checadas das fontes que participaram da reunião. A CPI tem força e os meios legais para passar a limpo essa história.
A Polícia Federal sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Carlinhos Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos. Entre 2010 e 2011, empresas-fantasma criadas por Cachoeira receberam da Delta nada menos que 40 milhões de reais. Ras­trean­do o caminho do dinheiro, os policiais e promotores descobriram que parte dele foi parar na contabilidade de empresas que no mesmo período fizeram repasses a políticos - doações eleitorais declaradas, inclusive. O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) estão entre os que receberam doações de campanha de empresas cujas contas foram irrigadas com recursos que Cachoeira recebia da Delta. Na semana passada, Cavendish foi assertivo em uma entrevista à Folha de S.Paulo. Ele disse que dá dinheiro a políticos para receber, em troca, informações sobre licitações. "Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é toma lá dá cá." O método da Delta é conhecido. Para ganhar os contratos, a empresa joga o preço lá embaixo. O pulo do gato vem depois, quando a parceria já está em vigor. Em alguns casos, a empresa não executa os serviços certa de que não será incomodada pelos órgãos contratantes comandados por políticos de partidos aquinhoados com doações. Dessa forma, sobra dinheiro para abastecer os cofres da empresa e para remunerar os amigos no poder. Outra prática é inflar contratos com reajustes e aditivos. Conforme revelado por VEJA, a presidente Dilma Rousseff, antes de demitir a cúpula dos Transportes, deu um pito nos seus integrantes justamente em razão do excesso de aditivos contratuais: "Vocês precisam de babá".
O procurador Marinus Marsico, representante do Ministério Público no Tribunal de Contas da União, diz que os aditivos que inflam os contratos não têm outro nome: "É roubalheira mesmo". Incentivador da CPI do Cachoeira, o ex-presidente Lula sabe dos riscos embutidos na investigação de aliados. Na quarta-feira, ele perguntou a peemedebistas: "E o Serginho, como está?". Ele se referia a Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro. Cabral é padrinho de casamento de Cavendish. Conheceram-se em 2000 e se tornaram amigos inseparáveis. O fortalecimento dessa relação foi acompanhado pelo crescimento vertiginoso da Delta em contratos com a administração fluminense. Em dez anos, a empresa conseguiu 2,2 bilhões de reais com o estado do Rio. A maior parte - 1,4 bilhão - veio depois que Cabral assumiu o governo, em 2007. Em 2003, a Delta faturou 228 milhões de reais, entre clientes públicos e privados. Em 2010, 3,5 bilhões de reais, um crescimento de 1 400%. O ritmo das doações também aumentou. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Delta doou, legalmente, meros 60 000 reais em 2002. Em 2010, doou 2,3 milhões - metade para o PT, metade para o PMDB.
Com reportagem de Alessandra Medina e Ana Luiza Daltro



 

domingo, 15 de abril de 2012

Agnelo Queiroz não toma jeito e apronta mais uma



Assessor da Subsecretaria de Publicações da Presidência da República em 2004, Luiz Antônio Moreti foi um dos condenados pelo TCU no rolo de superfaturamento milionário na impressão de cartilhas de propaganda do primeiro mandato de Lula.

Instado pelo tribunal a devolver aos cofres públicos 170 000 reais em 2010, Moreti sumiu das páginas oficiais, deixou o tempo passar.

Agora, reapareceu.

Onde? Na comissão de licitação que vai escolher a nova agência de publicidade do governo do Distrito Federal. Agnelo Queiroz é um governador destemido: pôs um condenado por superfaturamento para cuidar de um contrato de 147 milhões de reais apenas para este ano (e de novo na área de publicidade).

Por Lauro Jardim

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Agnelo agora admite que já esteve com Cachoeira




Chamado de 01 pelos integrantes do esquema de Carlos Cachoeira, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), reconheceu nessa quarta-feira, 12, que já se encontrou pessoalmente com o contraventor.

Na quarta-feira à tarde, após o estadão.com.br revelar que Agnelo, segundo a Polícia Federal, pedira um encontro com Cachoeira, o governador disse que nunca estivera com o contraventor. Nessa quarta, voltou atrás.

O encontro, segundo relato do porta-voz do governador, Ugo Braga, "ocorreu entre 2009 e 2010, ele não se lembra bem", numa reunião com empresários da indústria farmacêutica, em Anápolis (GO). Na ocasião, Agnelo diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e esse tipo de reunião, explicou o porta-voz, "fazia parte das rotinas do cargo".

A PF levantou indícios de que Cachoeira fez doação de caixa dois para a eleição do governador e depois passou a cobrar contrapartidas em contratos para empresas ligadas à quadrilha.

"O governador foi apresentado a Cachoeira em 2009 ou 2010. Ele não lembra com exatidão porque foi durante uma visita que ele fez a uma empresa farmacêutica em Anápolis. Lá estavam vários empresários desse ramo", relatou o assessor. A cidade, há 30 quilômetros de Goiânia, é o maior polo farmacêutico da região. Lá funciona o laboratório Vitapan, que pertenceu a Cachoeira e hoje está registrado em nome da ex-mulher dele.

Escuta. Em telefonema gravado pela PF em 16 de junho de 2011, com autorização judicial, o sargento Idalberto Matias, o Dadá, avisa a Cachoeira que foi procurado por João Carlos Feitosa Zunga, ex-subsecretário de Esportes e funcionário do governo do DF. Zunga foi demitido ontem por Agnelo. O governador já havia demitido o chefe de Gabinete, Cláudio Monteiro, e outro assessor, também suspeitos de envolvimento com a quadrilha do contraventor.

Nessa quarta, Agnelo passou o dia dando satisfações à base aliada. Ao final, arrancou um manifesto de apoio assinado por 19 dos 24 deputados distritais, filiados a 12 partidos. Encabeça a lista o deputado Agaciel Maia (PTC), pivô do escândalo dos atos secretos do Senado, denunciado em 2009 em série de reportagens publicadas pelo Estado. Cauteloso, Maia não divulgou a adesão na sua página na Internet, como fizeram os demais.


Por Vannildo Mendes, de O Estado de S.Paulo

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Da série: Perguntar não ofende

 

O Ex-ministro dos esportes de Lula e candidato do PT ao Governo do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, viu com antecedência o vídeo de Arruda recebendo a sacola de dinheiro e não quis denunciá-lo à polícia ou ao Ministério Público.

Qual o interesse do ex-ministro e do PT nisto??