domingo, 6 de maio de 2012

Só na amizade: favores e dinheiro alimentam relação entre Carlos Alberto Leréia e Carlinhos Cachoeira

O contraventor Carlinhos Cachoeira e o deputado federal Carlos Alberto Leréia

O contraventor Carlinhos Cachoeira e o deputado federal Carlos Alberto Leréia: muy amigos



O deputado federal Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) admite sem qualquer pudor sua amizade com o contraventor Carlinhos Cachoeira, pivô do escândalo do momento em Brasília.

Leréia fez questão de subir à tribuna da Câmara dos Deputados, na última quinta-feira, para parabenizar o bicheiro por seu aniversário de 49 anos.

Cachoeira foi preso em fevereiro durante a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal (PF), que desmontou a rede de exploração de jogos ilegais comandada pelo contraventor. O envio de felicitações na fala de Leréia tem explicação: o deputado quer reforçar a tese de que ele e o bicheiro são nada mais do que bons “amigos pessoais”.

Para além do pleonasmo, o argumento não se sustenta. Será difícil Leréia manter esse discurso por muito tempo. Escutas da PF feitas com autorização judicial durante a Monte Carlo mostram que Leréia trabalhava norteado pelos interesses da quadrilha de Cachoeira e usava seu prestígio e seu cargo para prestar favores e serviços ao contraventor.

A PF flagrou 72 contatos telefônicos entre Cachoeira e Leréia, muitos feitos por meio de radiocomunicadores habilitados nos Estados Unidos e distribuídos a pessoas da estrita confiança do bicheiro.

O nome do deputado é citado em outras 26 ligações entre integrantes da quadrilha.
A conduta do deputado está sendo analisada pelo Conselho de Ética da Câmara e é alvo de um inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF).

A filiação de Leréia no PSDB também está a perigo. Caciques tucanos pressionam para que ele se licencie do partido até o fim das investigações, mas o deputado resiste. A direção do partido deve bater o martelo na próxima terça-feira.

As atitudes de Leréia se enquadram nos crimes de tráfico de influência e exploração de prestígio, apontados pela Polícia Federal na conclusão do relatório.

O comportamento contraria ainda dois requisitos do Código de Ética e Decoro da Câmara, o que pode implicar em perda de mandato. São eles: abusar das prerrogativas constitucionais asseguradas aos integrantes do Congresso – como fez quando usou sua influência para conseguir um visto de viagem para a sogra de Cachoeira – e receber vantagens indevidas em proveito próprio ou de outra pessoa.

As conversas interceptadas revelam que Cachoeira pagou pelo menos 65 000 reais a Leréia ao longo de seis meses no ano passado. Há menção ainda a um cheque de 206 000 reais e a um empréstimo de 400 000 reais para o deputado. Assim, a cifra repassada a Leréia pela quadrilha de Cachoeira ultrapassaria os 600 000 reais. Trata-se, sem dúvidas, de uma amizade valiosa.

Por Carolina Freitas e Cida Alves

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