Do ponto de vista administrativo, a operação de venda da Delta,
capitaneada pelo ex-presidente Lula, pode resolver a continuidade das
obras do PAC, mas não poupará o governo dos danos colaterais decorrentes
das relações ilegais da empresa com agentes públicos. Politicamente, a
transação remete à clássica piada do marido traído que retira o sofá da
sala.
A oposição avalia que a fartura de grampos que desmascararam o
senador Demóstenes Torres já o condenou à cassação, o que remete seu
caso para o Conselho de Ética, criando as condições para que o foco da
CPI seja, de fato, a empresa líder das obras públicas. Fixar-se no que
já se conhece conspira contra isso e favorece a meta do governo de
poupar aliados - e a si próprio.
Essa queda de braço ficou visível na última semana com o esforço
pelas convocações do empresário Fernando Cavendish, dono da Delta, e
mais três governadores (do PT, PSDB e PMDB), em contraponto à exploração
de escutas telefônicas em que Demóstenes vende influência ao
contraventor Carlos Cachoeira, mencionando encontros com autoridades do
Judiciário.
Legítima para um senador então insuspeito, essa proximidade com
juízes, alguns do Supremo Tribunal Federal, contribui hoje com o empenho
do PT em minar a credibilidade de julgadores do mensalão.
Boa parte dos parlamentares considera que o foco na Delta prevalecerá
e desvendará a teia de relações promíscuas de políticos e servidores
com o submundo do crime organizado. O que será a pá de cal na tentativa
de controle da CPI pelos seus proponentes.
Um freio na arapongagem
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) quer discutir na CPI do Cachoeira o
uso de grampos ilegais, que configuram invasão de privacidade e
"espionagem política". Sua proposta é transformar a prática em crime,
após a constatar que o monitoramento ilegal era uma das especialidades
do contraventor Carlos Cachoeira, que depois utilizava o material para
extorquir suas vítimas. Se vingar, o mesmo valerá para o governador do
Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), acusado de usar o Gabinete
Militar para espionar adversários e até o vice-governador Tadeu
Filipelli.
Ao vivo e a cores
O presidente da CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo Filho, vai garantir a
transmissão das reuniões da comissão pelas TVs Senado e Câmara. Como o
horário das reuniões coincide com as sessões plenárias, que têm
prioridade de transmissão, ele cogita mudar uma ou outra. A disposição é
garantir a transmissão integral da CPI, a partir do depoimento de
Cachoeira, programado para o dia 15.
Nem aí...
Indiferente ao escândalo Cachoeira, o senador Mozarildo Cavalcanti
(PTB-RR) torce pela aprovação de seu projeto de lei que autoriza o
funcionamento de cassinos em hotéis da região amazônica e do Pantanal.
"O funcionamento de cassinos é fator de desenvolvimento em qualquer
parte do mundo, e um estímulo ao ecoturismo", justifica. Para reforçar a
inoportunidade do tema, o relator da matéria é o atual presidente da
CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), que ainda não
apresentou parecer.
Mais juízes
Depois de negar aumento ao Judiciário, o governo garantiu recursos
para a criação de 225 novas vagas de juízes federais. O projeto, prestes
a ser votado pelo Senado, libera 120 vagas ainda no curso deste ano.
Por João Bosco Rabello
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