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sábado, 28 de abril de 2012

O TRIUNFO DA VERDADE: e os ratos pariram… mais ratos!

Inquérito sobre Demóstenes vaza na íntegra e evidencia o que os decentes já sabiam: jornalista da VEJA estava apenas fazendo seu trabalho. Ou: como senador tentou abafar repercussão de reportagem da revista sobre a Delta a pedido de Cachoeira

Leiam com muita atenção!
O ministro Ricardo Lewandowski autorizou o envio à CPI da íntegra do inquérito que investiga as relações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com Carlinhos Cachoeira. A investigação corre em sigilo de justiça. A imprensa publicar informações que estão nessa condição NÃO É NEM DEVE SER crime. Mas vazá-las é, sim, ato criminoso! E, no entanto, se as informações chegam aos jornalistas, a sua obrigação é divulgá-las. Nesse caso —  curioso, não? —, ninguém indagou: “Qual é a fonte?” Gente que respeita a lei é que não é, certo? Mas a informação veio para o bem. Os ratos, mais uma vez, pariram, como lhes é natural, ratos. Atenção! NÃO HÁ, PORQUE NÃO HOUVE, E VOCÊS PODEM VER POR CONTA PRÓPRIA, UMA SÓ INFORMAÇÃO, UMA SÓ CONVERSA, UM SÓ DIÁLOGO que revelem o jornalista da VEJA a fazer qualquer outra coisa que não buscar informações que eram do interesse público. Não há uma só sugestão que deixe o profissional da revista em situação incômoda, vexatória ou algo assim. Muito pelo contrário.
AQUILO QUE OS VAGABUNDOS PROMETERAM — O FIM DOS TEMPOS, O SUPOSTO CONLUIO ENTRE A REVISTA E ALGUNS CRIMINOSOS — ERA, EVIDENTEMENTE, FALSO! Ao contrário: nas vezes em que a reportagem de VEJA falou com Carlinhos Cachoeira ou alguém de seu esquema, estava interessada em obter informações que protegiam os cofres públicos da ação de larápios. É uma fantasia idiota a história de que ele era a única fonte. Quando chegou a vez de o próprio Cachoeira virar reportagem, a revista não hesitou. Foi a primeira a publicar matéria sobre os vínculos do senador Demóstenes Torres com o bicheiro. E isso é apenas fato, que petralha nenhum consegue eliminar da história.
Um repórter honesto pode falar com uma fonte suspeita 10, 20, 200 vezes (esse número, aliás, é uma fantasia!). E NÃO se corrompe nas 10, nas 20, nas 200 vezes. Se Lula falou alguma vez com Carlinhos Cachoeira, isso eu não sei. O que é fato? Na CPI dos Bingos, Rogério Buratti, amigo de Antônio Palocci, denunciou que o PT recebeu R$ 1 milhão do contraventor pelo caixa dois — os tais recursos não-contabilizados. A fonte é um petista!
O caso Delta, Demóstenes e VEJA
Os ratos se deram mal. O inquérito evidencia justamente o contrário do que eles vinham alardeando. E de modo muito impressionante! Prestem atenção! A revista que começou a chegar aos leitores no dia 7 de maio de 2011 trouxe a primeira grande reportagem sobre o fantástico crescimento da Delta (aqui e aqui). Aliás, é a revista em que dois empresários denunciam a “promiscuidade total” entre Sérgio Cabral e Fernando Cavendish — as fotos de Paris são muito eloquentes a respeito, não?  Pois bem… Basta ler o inquérito para notar que Carlinhos Cachoeira e seus rapazes se mobilizaram para “abafar” a repercussão da reportagem. E quem se encarregou da operação abafa, embora, publicamente, parecesse fazer o contrário, foi justamente Demóstenes Torres. Leiam este trecho do diálogo (em vermelho).
RESUMO
Conversam sobre a reportagem da VEJA relacionada à DELTA. CARLINHOS orienta DEMÓSTENES a evitar tocar no assunto.
CARLINHOS: oi, doutor.
DEMÓSTENES: fala professor. E aí tudo bem?
CARLINHOS: bom demais, a sogra não resistiu.
DEMOSTENES: é (… )
CARLINHOS: viu a matéria da DELTA aí?
DEMÓSTENES: isso, estou te ligando por isso, avisar o pessoal que está todo mundo em cima, ALVARO DIAS, não sei que, pan, pan…. E o que vai acontecer lá não tem jeito de aprovar nada, certo?, nós vamos fazer um requerimento, mas requerimento é convite, o cara pode recusar, agora o grande negócio é que chama a atenção do ministério público prá cima deles.
(…)
CARLINHOS: é mas eu não gosto da (…) A coisa é o seguinte: eu convivo com eles direto, não tem essa ligação com o ZE DIRCEU, ele comprou a empresa daqueles dois bandidos lá. E os caras dizendo que ele não pagou, e fez isso aí.
DEMÓSTENES: eles vão fazer barulho, vai sair um requerimento prá convidar, talvez o FERNANDO se antecipasse soltando a nota, dizendo que isso é mentira, que é um problema empresarial, que nunca teve isso e tal, tal. E pula fora, melhor alternativa. Agora o grande assunto no congresso vai ser isso, tentando chamar, tentando fazer isso e tal, já avisei a imprensa que não tem jeito de convocar, só tem jeito de convidar, porque não é autoridade, numa dessa aparece esses dois bandidos querendo palco e faz o regaço.
CARLINHOS: mas parece que eles não vão…
Voltei
O que o diálogo acima evidencia é justamente Carlinhos Cachoeira infeliz com uma reportagem da VEJA que punha em maus lençóis os seus amigos da Delta. E a razão é simples: QUEM EDITA A VEJA NÃO SÃO AS SUAS FONTES, SEJAM ELAS PESSOAS DE ÍNDOLE DUVIDOSA OU AS CARMELITAS DESCALÇAS. Das fontes, VEJA quer informações. Ponto.
O que me impressiona nessas conversas, confesso, mesmo depois de tudo o que sabemos, é a atuação de Demóstenes. O diálogo acima é do dia 8 de maio de 2011. No dia seguinte, a imprensa noticiava, como se vê abaixo, num trecho do jornal O Globo, que o senador iria pedir investigação. Leiam (em azul):
Os líderes da oposição no Senado querem ouvir os empresários Fernando Cavendish, presidente da Delta Construções, e os ex-donos da Sigma Engenharia,José Augusto Quintella Freire e Romênio Marcelino Machado, para que ele falem sobre o suposto tráfico de influência do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Em reportagem da revista Veja desta semana, Freire e Machado afirmam que Dirceu foi contratado por Cavendish, para que o ex-ministro o aproximasse de pessoas influentes no governo do PT.
A reportagem afirma ainda que Cavendish teria dito que, com “alguns milhões seria possível comprar um senador” para conseguir um bom contrato com o governo.
O líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), vai procurar o PSDB e o PPS para, numa ação conjunta da oposição, apresentarem requerimento de convite aos empresários. Para Demóstenes, caberia requerimento à Comissão de Constituição e Justiça ou à de Fiscalização e Controle.”Vamos conversar com os senadores da oposição, para tentar um requerimento conjunto. O problema é que não temos número suficiente para aprovar na comissão, caso o governo queira impedir. Se nada vingar, vamos pedir que o Ministério Público averigue as denúncias”, disse Demóstenes.
Não é impressionante? Eu mesmo reproduzi trecho da matéria do Globo no clipping do blog. Ocorre que o senador estava dando um jeito, como revelam as conversas, justamente de impedir qualquer investigação. No dia 9, em nova conversa com Cachoeira, ele mostra satisfação porque a matéria da VEJA “não deu em nada” e faz alusão justamente à reportagem do Globo, que reproduzo acima:

RESUMO
CARLINHOS diz que DEMOSTENES vai trabalhar nos bastidores do SENADO para abafar a reportagem da VEJA relacionada à DELTA.
DEMÓSTENES: ah num deu em nada não cê viu né? Eu arrumei um… uma maneira de fragilizar o discurso. Eu… Única coisa que saiu foi no GLOBO dizendo que eu ia procurar o PPS e o PSDB, pra fazer um convide pros empresários, mas eles rumaram no DIRCEU. Todo mundo, e o resto num saiu porra nenhuma, e hoje eu num vou lá, é capaz que esse trem daqui pra quarta morre, falou?
CARLINHOS: é, ta bom. Eles viram a reportagem do GLOBO e me ligaram já.
DEMÓSTENES: É, num saiu nada, fala pra eles que num saiu nada que o trem era. Eles queriam um barulhão, falou?
CARLINHOS: tá bom. Obrigado aí.
DEMÓSTENES: um abraço, tchau.
E então? O senador parece orgulhoso de ter levado a imprensa no bico, de ter enganado todo mundo. Como se vê, a relação de Carlinhos Cachoeira com a cúpula da Delta é de absoluta proximidade. Ele foi procurado pelo comando da empresa — conversaram até sobre a matéria do Globo. E um dado relevante: notem que o contraventor estava garantindo que os dois empresários que denunciaram Cavendish e que acusaram a proximidade da empresa com Zé Dirceu, se convidados, não iriam ao Senado. Isso é preocupante. Dois dias depois de a matéria da VEJA ter sido publicada, a conversa sugere que ambos já tinham sido “contatados”…
Eu me orgulho de dizer que acreditei em Demóstenes ao ler no Globo, naquele dia, que ele queria investigar o esquema da Delta. Orgulho-me porque todos os valores que ele enunciava e anunciava no Senado estavam e estão corretos. Eu e milhões de pessoas achamos isso. Parece que ele não levava aquelas convicções a sério, o que não depõem contra elas, mas contra ele. Como resta evidente das duas conversas, também o seu empenho em investigar não era verdadeiro. Ao contrário: ele estava atuando a pedido de Cachoeira para impedir que a apuração prosperasse. Fui o único enganado??? Acho que não… Chego a duvidar de que ele tenha noção do mal que fez e que está fazendo não exatametne à oposição, mas aos valores da democracia liberal que ele dizia encarnar.
Agora, a imprensa
Mais uma vez, fica evidente que a tentativa de linchamento de jornalistas da VEJA é obra de obscurantistas, que odeiam, na verdade, a liberdade de imprensa. Algumas estrelas do jornalismo investigativo, que têm até uma associação, deveriam vir a público para dizer se fontes que revelaram algumas das maiores falcatruas destepaiz, como diria aquele, estavam no convento das Carmelitas Descalças. Aliás, uma personagem emblemática estará na CPI do Cachoeira: o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Eram anjos aqueles todos que forneceram aos petistas, que os vazaram para a imprensa, documentos contra o governo? São decentes alguns “companheiros” infiltrados em bancos públicos, que quebram o sigilo de desafetos do partido? Jornalistas que passaram anos sustentado a veracidade do Dossiê Cayman estavam dialogando com professores de Educação Moral Cívica? VEJA só publica reportagens depois de apurar os fatos.
Eurípedes Alcântara já escreveu um detalhado texto a respeito dos procedimentos da revista. A qualidade moral da fonte não faz a qualidade da informação. Como eu já havia escrito anteriormente neste blog, falar com o papa não nos faz santos; falar com bandidos não nos torna criminosos.  Em qualquer dos casos, há de haver apuração. As de VEJA são rigorosas — ou Dilma, supõe-se, não teria demitido seis ministros e uma penca de funcionários do Dnit. Mas é compreensível, claro!, que Lula, cuja campanha recebeu R$ 1 milhão de Cachoeira pelo caixa dois, segundo revela um companheiro seu, esteja empenhado agora em tirar a Delta da CPI para investigar a imprensa… Investigar por quê? O inquérito já é público. Qual é acusação? Qual é a suspeita? O que há além da tentativa de intimidação?
“Ah, segundo a Polícia Federal, foi o pessoal do Cachoeira que forneceu a fita do circuito interno do hotel em que Zé Dirceu aparece se reunindo com autoridades da República…” E daí? Se foi ou não, a Constituição protege o sigilo da fonte. Que jornalista nestepaiz, de posse daquela fita, não a tornaria pública? Se um ex-deputado, cassado por corrupção, chamado pelo Procurador Geral da República de “chefe de quadrilha” e hoje notório lobista — o nome politicamente correto é “consultor” — despacha com figurões do governo e do Congresso, em reuniões clandestinas, a informação deveria ser amoitada, ainda que tivesse mesmo sido fornecida por alguém de índole suspeita? Ora…
O profissional de VEJA não precisa que um inquérito da Polícia Federal ateste que faz o seu trabalho dentro das regras do jogo e de acordo com a ética da profissão. Durante alguns dias, no entanto, a vagabundagem a soldo especulou à vontade. Eis aí!
O que sai de relevante do inquérito no que diz respeito à VEJA é o esforço de Carlinhos Cachoeira para abafar reportagem da revista sobre a Delta. Sempre a Delta — a construtora que os petistas não querem investigar. Petistas, sempre os petistas — aqueles que, confessadamente, receberam R$ 1 milhão pelo caixa dois de Carlinhos Cachoeira.
E o joio, Reinaldo? E o trigo? Ah, terei de fazer mais um post. Este já foi longe demais.

Por Reinaldo Azevedo, Veja

sábado, 21 de abril de 2012

FUNDAMENTOS DO JORNALISMO INDEPENDENTE. OU: FIQUEM ATENTOS! OS LOBOS ESTÃO VESTINDO PELE DE CORDEIRO PARA DAR UM GOLPE NAS INSTITUIÇÕES



Está criada a CPI do Cachoeira. Que investigue tudo, tendo como norte a defesa do interesse público e a preservação do patrimônio que pertence a todos os brasileiros, cotidianamente dilapidado por larápios! No Brasil, boa parte do trabalho de depuração da política, distinguindo os maus dos bons, tem sido feito pela imprensa séria, responsável, que não se subordina a nenhum outro interesse que não a defesa dos valores democráticos, consolidados na Constituição e em códigos infraconstitucionais. Estes não são estanques e preveem rituais para a sua própria mudança, que precisam ser cumpridos.
Um país não consolida seus avanços econômicos e sociais fora das regras do estado de direito. Leio que brasileiros de diversas partes do país já pensam em se mobilizar para cobrar que o STF julgue, finalmente, os mensaleiros. É o caminho! E igual mobilização deve ser feita para que esta nova CPI seja instrumento de justiça dos homens de bem — a esmagadora maioria dos brasileiros que trabalham e se esforçam para ter uma vida digna — contra as quadrilhas organizadas para assaltar os cofres públicos. É preciso deixar claro que o país repudia que a CPI seja palco de chicanas e de mesquinhas vinganças partidárias, como alguns anunciam por aí.
Este é o primeiro texto de uma série que pretendo fazer pondo, como se diz por aí, os pingos nos “is”. Fiquem atentos! Lobos estão vestindo pele de cordeiro para tentar dar um golpe nas instituições. Este é o primeiro texto de uma série, em que pretendo debater algumas questões que dizem respeito à imprensa e à sua missão. O mal não seduziria ninguém se exibisse a sua cara horrível. Se a imagem a muitos pareceu demasiado religiosa, então recorro a outra mais ao gosto laico, de apelo histórico. Os dois grandes totalitarismos do século passado, o comunismo e os vários fascismos, só se impuseram porque foram bem-sucedidos na trapaça, no engodo, da manipulação dos sentimentos de justiça de amplas camadas da população, que não percebiam que estavam tendo solapados seus direitos, suas liberdades, seus anseios.
Não por acaso, a primeira providência tomada pelos tiranos dos dois modelos, uma vez no poder, foi censurar a imprensa, acusá-la de manipulação, de estar a serviço ou dos “inimigos do estado” ou dos “inimigos do partido”. Já publiquei aqui um post com o discurso de Goebbels no primeiro grande comício nazista, realizado no dia 10 de fevereiro de 1933, depois de Hitler ter-se tornado chanceler da Alemanha. Seu principal alvo era a “imprensa dos judeus insolentes”. O resto da história é conhecida.
Criminosos das mais variadas estirpes, das quadrilhas as mais diversas, muitas vezes inimigas entre si porque suas fontes financiadoras também são adversárias, se unem hoje numa espécie de conjuração contra a imprensa livre — ou o que se chamava antigamente “grande imprensa”. Financiadas ora pelo poder público, ora por estatais, ora por gângsteres, alimentam o sonho vão de destruir a reputação do jornalismo independente para que possam, então, como direi?, “dividir Chicago” em zonas de influência. Mas não vão! Porque haverá sempre, sim, a grande imprensa no meio do caminho, para obstar a ambição de chicaneiros, de bucaneiros, de mafiosos. Vamos lá.
Jornalismo não é ciência exata, mas é uma ciência moral e ética
Nestes dias, muito por conta da mobilização dessas quadrilhas, o jornalismo tem sido alvo de questionamentos. E começo hoje a escrever uma série de textos para demonstrar, como sabem as pessoas que estudam a área, que jornalismo não é uma ciência exata, mas pode ser uma ciência moral e ética no sentido de que reúne um conjunto de saberes e de experiências que indicam escolhas: estamos sempre, ou deveríamos estar, respondendo em que mundo queremos viver e com quais valores, tendo como instrumento a verdade dos fatos e como norte a defesa do interesse público.
As fontes, as barganhas, a madre e o corrupto
Um jornalista que se preza — e é assim na VEJA, por exemplo —  sabe que a INDEPENDÊNCIA é seu maior valor. Por isso não aceita qualquer barganha editorial com as fontes em troca de informações. Em nosso cotidiano, sempre avaliamos as informações que recebemos das fontes tendo como único metro o já referido interesse público.
Informações não caem de árvores, não circulam no vento, não se materializam do nada. O jornalismo, especialmente o investigativo, se alimenta de fontes. Um jornalista, é assim na VEJA e em qualquer outro veículo sério, sempre deixa claro que não está estabelecendo com essas fontes uma relação de troca. Elas não terão nenhum privilégio ao fornecer uma informação que interessa ao conjunto da população — a não ser, quando solicitada, a garantia do sigilo, UM PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL.
Interesse das fontes
Um leitor me perguntou, de boníssima fé: “Reinaldo, mas essas fontes não têm sempre algum interesse quando passam uma informação?” COMO SABE TODO JORNALISTA, desinteressadas elas nunca são! Madre Teresa de Calcutá, quando atendia jornalistas, queria ver suas obras de caridade celebradas nas páginas de jornais e revistas e nas telas das televisões.  No extremo oposto no espectro das intenções, um corrupto que passa informações quer se vingar de outro corrupto ou espera atrapalhar o negócio do concorrente com o governo. Qual deve ser o papel do jornalista?
Nos dois casos, ele precisa ter noção exata da intenção da fonte e usar a informação se a sua publicação servir mais ao interesse público do que ao do próprio informante. Um criminoso que revele, na cadeia, um plano para assassinar o presidente da República é possuidor de uma informação de interesse público. Segundo o mecanismo da delação premiada, por exemplo, ele pode ter sua pena atenuada ao contribuir para impedir um crime ainda pior do que o cometido por ele próprio. Nesse caso, estamos diante de uma situação em que a informação é de qualidade, embora o informante não! A síntese que, parece-me, serve de ensinamento aos repórteres é esta: maus cidadãos podem ser portadores de boas informações!
Como alguém chega a ser fonte? E o bê-á-bá
Olhem, minhas caras, meus caros, o que estou expondo aqui é o bê-á-bá do jornalismo que se leva a sério. La no mundo da esgotosfera a soldo, as coisas certamente transitam por outros caminhos. Sigamos. Leitores indagam também como alguém chega a ser fonte e quem escolhe quem: o jornalista escolhe a fonte ou o contrário?
O informante quer, obviamente, maximizar os efeitos da informação que lhe interessa ver publicada. O mais provável, então, é que tente passá-la para um jornalista que tenha credibilidade e trabalhe em um veículo de grande circulação. A tarefa do jornalista é distinguir:
a) se a informação é verdadeira;
b) se a informação é relevante e de interesse público;
c) se a publicação ajudará a diminuir o raio de ações dos corruptos, incluindo o próprio informante.
Avaliados esses três quesitos, a informação pode ser levada a sério, a despeito, reitero, da estatura moral do informante. Nem sempre a fonte escolhe o jornalista. Muitas vezes, como resultado de uma apuração, o repórter se vê diante de uma pessoa que acaba se tornando sua fonte — ou seja, esta acaba conhecendo o jornalista porque foi procurada por ele. Às vezes, ela escolhe, sim, o veículo e o repórter. Para isso, vale-se muitas vezes do trabalho de assessores de imprensa. Não há uma regra, mas, seguramente, passa pela credibilidade do veículo e do profissional. No caso da VEJA, porque esta é uma orientação claríssima, essa fonte fica sabendo imediatamente que sua história será ouvida sem compromisso de publicação. E que, caso publicada (atendidos aqueles requisitos), seu nome poderá ser mantido em sigilo.
Jornalista não é nem amigo nem juiz das fontes. Ou: Dos cuidados
Nunca se esqueçam: o norte do jornalismo é o interesse público. Cuidados são necessários. E o principal é ter consciência dos objetivos do informante. Essa análise vai ser da maior relevância no momento de decidir, ATENÇÃO!!!, se aquele interesse público supera o subproduto indesejável, mas inevitável, de publicar informação que interessa à fonte. Por isso, o jornalista nunca deve confundir fonte com amizade. Não pode aceitar presentes, convites para viagens ou quaisquer outros agrados materiais.
A qualidade moral da fonte, infelizmente, não qualifica, necessariamente, a informação. Um  criminoso pode ter sido testemunha de um outro crime, e seu depoimento pode ajudar a desbaratar uma quadrilha perigosa. Não se pode desprezar, por princípio, o que ele tem a dizer. É preciso ouvir, analisar, pesar, checar, contextualizar. Fazendo uma caricatura, observo que um economista respeitado pode estar tecnicamente equivocado sobre algum fenômeno ou pode ainda estar a serviço de algum grande interesse econômico ou comercial. Ambos valem, enfim, pelo teor, qualidade e grau de interesse da informação verdadeira de que são detentores.
O papa e o corrupto
Há muitas coisas, minhas caras, meus caros, a tratar nessa área. De certo modo, exponho aqui o que é curiosidade de muita gente: como os jornalistas lidam com as informações e como, recorrendo a uma expressão que está nas ruas, ficam “sabendo de tanta sacanagem”. Não é nos conventos e nos seminários — ainda que os informantes fossem aqueles padres do Eça de Queirós… Responderei em outros artigos, por exemplo, a uma questão espinhosa: “Se uma fonte criminosa passa uma informação verdadeira, relevante e de interesse público, mas que é fruto de um crime — grampo, por exemplo —, isso faz do jornalista cúmplice desse crime?” Mas fica para outro artigo.
Neste, quero retomar a questão da qualidade moral da fonte. Ora, mesmo que ela seja um assassino esperando a sentença de morte (exemplo verídico, relatado no livro “O jornalista e o Assassino”, da americana Janet Malcolm),  merece ser tratada com respeito. ATENÇÃO! Se a fonte não tem ética, isso é problema dela. A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Ter o Papa como informante não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe, pouco importa se falamos com ele 10 ou 10 mil vezes.
Um eventual maledicente que chegou até aqui poderia indagar: “Ah, então você permitiria que um criminoso escrevesse no seu blog, Reinaldo?” Não! De jeito nenhum! Vagabundo dando opinião no meu blog sob o pretexto da pluralidade? Nunca! Se quiser me passar uma informação que seja do interesse público, seguirei o roteiro que estabeleci até aqui. Não terá nada em troca. Mas também a este assunto pretendo voltar.
Os lobos em pele de cordeiro
A canalha, também aquela da esgotosfera, do subjornalismo a soldo, está fazendo o trabalho dos totalitários e dos demônios: a inversão moral, que transforma o certo em errado, o bem em mal. No post abaixo, vocês verão dois exemplos escandalosos dessa prática. Um deles apela ao discernimento da própria presidente Dilma Rousseff.
Não digo que essa gente perdeu a vergonha porque não se perde o que não se tem. Lamento pelos totalitários! Lamento pelos demônios! Terão de suportar a imprensa livre e independente.

Por Reinaldo Azevedo

domingo, 1 de abril de 2012

A rede suja na Internet e a tentativa de melar o processo do mensalão e livrar a cara de José Dirceu

Ontem, os blogueiros de aluguel e assemelhados — o JEG, que vive de dinheiro público, como se sabe à farta — atuaram como ordem unida. Todos eles anunciavam, cada um segundo o seu estilo: “O mensalão nunca existiu! Foi tudo uma conspiração”! Um sustenta a tese com aquele amontoado de orações coordenadas que revela uma estirpe de analfabetos. O outro, coitado!, para não variar, atropela o bom gosto e o bom senso nas subordinadas, expondo outro veio do analfabetismo. Um terceiro é boçal e analfabeto moral pura e simplesmente. Mas a tese era uma só! E, obviamente, não lhes faltam alguns leitores que vão lá buscar o que já sabem que vão encontrar.

A tropa de choque está furiosa. E parte dessa fúria foi dirigida contra mim. Compreendo os motivos. São todos ex-jornalistas. Cada um deles, num dado momento, foi banido da grande imprensa porque não soube distinguir o certo do errado, o lícito do ilícito, o virtuoso do criminoso. Deixaram de trabalhar para o veículo que represetavam e passaram a operar para a fonte, por motivos muito convincentes. Não é gente, lá vai a palavra de novo!, da estirpe de Policarpo Junior, sobre quem Carlinhos Cachoeira lamenta: “O Policarpo Nunca vai ser nosso! Ele é foda!” Não vai mesmo! Os que se aproveitam agora dos vazamentos das gravações para dizer que o mensalão nunca existiu “não são foda”, não! E sabem que “são de alguém”. Recorram à Internet, e vocês saberão a mão que balança o berço.

Eles estão bravos porque as gravações feitas pela Polícia Federal — como se isso fosse necessário … — evidenciam, ao contrário do que dizem, a honestidade de Policarpo, não o contrário. Adiante, que isso já é matéria vencida.

Eles querem enrolar. Eu desenrolo
Qual é a conexão, o liame, a ligação do caso Cachoeira com o mensalão? Quase nada! E explico o “quase”. Fica por conta de um único evento, importante, sim, mas irrelevante no que respeita à essência do maior escândalo de corrupção da República. Foi a VEJA que trouxe a reportagem sobre a cobrança de propina nos Correios, aquela em que Maurício Marinho, homem do PTB na empresa, aparecia recebendo propina de Carlinhos Cachoeira. Sim, reportagem de Policarpo Júnior! Que grande mal faz este rapaz à República… dos larápios, não?

A revista começou a chegar aos leitores no dia 14 de maio de 2005!!! No dia 6 de julho daquele ano, o então deputado Roberto Jefferson (RJ), chefão do PTB, botava a boca no trombone numa entrevista à Folha e expunha as entranhas do modo petista de governar. Estava descontente com o modo como José Dirceu conduzia o, como chamarei?, condomínio de partidos e entendeu que ele e seu partido estavam sendo fritados.

Só para registro: Jefferson, o que denunciou o mensalão — e parte substancial de sua denúncia se mostrou verdadeira —, não gosta da revista VEJA. Tanto é que também a critica em seu blog, o que não deixa de ser interessante. As duas personagens que polarizaram os embates em 2005, Jefferson e Dirceu, criticam a revista. Faz sentido. O primeiro porque a reportagem apontou o cancro nos Correios; o outro…, bem, o outro pelo conjunto da obra, não é? O evento mais recente que lhe diz respeito foi o estouro do bunker montado num hotel, em que ele “despachava” com autoridades da República, como se fosse, assim, um superministro sem pasta. O Zé detestar a VEJA, a exemplo de uma meia-dúzia, é dessas coisas, entendo, que têm de ser alardeadas: “VEJA, A REVISTA QUE O DIRCEU DETESTA. MAS LÊ!”. Ok. Eles que vão dizendo mentiras sobre a revista, que ela continuará a dizer verdades sobre eles — e os demais.

O que a desgraça em que caiu o senador Demóstenes Tores (DEM-GO) e as atividades ilegais de Carlinhos Cachoeira têm a ver com as lambanças de Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério? Em que negam, relativizam ou põem sob nova perspectiva os empréstimos fraudulentos, a dinheirama sacada na boca do caixa, a mala de dinheiro repassada ao PTB (o próprio Jefferson o confessou) e ao então PL, o dinheiro depositado no exterior na conta de Duda Mendonça? Bem, vocês façam aí o elenco de memória da montanha de irregularidades cometidas. A resposta é esta: NADA!

Tentativa de desmoralizar o Judiciário e a imprensa
Que Cachoeira pague pelo que fez!
Que Demóstenes pague pelo que fez!

Mas o que tem a ver o que ambos fizeram com o que fez José Dirceu?
O que tem a ver o que ambos fizeram com o que fez José Genoino?
O que tem a ver o que ambos fizeram com o que fez Delúbio Soares?
RESPOSTA: NADA!!!

A turma, no entanto, está assanhada. O objetivo é jogar lama na imprensa e no Judiciário para reforçar a tese de que o mensalão foi uma invenção. O próprio Lula, diga-se, este monstro da moral, chegou a afirmar, ainda na Presidência, que iria querer investigar a sério este assunto, sugerindo que era tudo uma trama da oposição. Como se a dinheirama assumidamente ilegal que circulou no partido jamais tivesse existido.

José Dirceu é autor de uma frase estupefaciente sobre aqueles dias: “Estou cada vez mais convencido da minha inocência”. De tanto ler os seus amigos, ele ainda acaba acreditando...

Por: Reinaldo Azevedo - Veja