Mostrando postagens com marcador jornalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jornalismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de abril de 2012

Ética jornalística: uma reflexão permanente



“A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.”

VEJA nunca permitiu que suas páginas fossem usadas para outro fim que não a busca do interesse público. Sempre que uma denúncia é publicada, alguém ganha e alguém perde. Um ministro cai e outro ministro sobe. Um grupo político é prejudicado e outro grupo político é beneficiado. São consequências normais da divulgação de fatos verdadeiros. Em nosso trabalho cotidiano, essas circunstâncias são tão naturais para nós que nos dispensamos de discuti-las. Mas temos de concordar que as pessoas não diretamente envolvidas em nosso trabalho possam, de boa-fé, não entender completamente a natureza do bom jornalismo que praticamos em VEJA. Refleti sobre nossos critérios, nossas relações com as fontes de informação, enfim, nossa missão jornalística. O resultado é o texto abaixo.

“O jornalismo é feito com fontes de informação. O jornalista não é pago para saber. É pago para descobrir. Por essa razão, as relações do jornalista com suas fontes merecem uma reflexão permanente.”

O jornalismo é feito com fontes de informação. O jornalista não é pago para saber. É pago para descobrir. Por essa razão, as relações do jornalista com suas fontes merecem uma reflexão permanente. Os profissionais de VEJA seguem as regras escritas da Editora Abril, cujo Código de Conduta estabelece: “O jornalista da Abril não tem relação de trabalho com, nem presta serviço, ainda que eventual, para qualquer pessoa, empresa ou entidade que seja, ou possa a vir a ser, fonte de informação. A Abril jamais paga entrevistados por informação de nenhuma espécie, de forma direta ou indireta. Sempre que possível, o jornalista deve pagar por almoços e jantares com fontes ou seus representantes. Cabe ao profissional e a sua chefia imediata definir as situações em que a aplicação desta regra pode afetar o relacionamento com a fonte.”

Em complemento ao Código de Conduta da Abril, a redação de VEJA em seu Plano Editorial anual reafirma que a “independência” é o maior valor de um jornalista da revista. Por independência, diz o Plano Editorial, entende-se que o repórter não aceita nenhuma barganha editorial com as fontes em troca de informações. Em nosso cotidiano, embora seja uma regra não escrita, sempre avaliamos as informações que recebemos das fontes tendo como único metro o interesse público que se confunde com o interesse jornalístico. Isso significa que as inúmeras informações pitorescas ou de caráter pessoal, comportamental ou sexual de autoridades e governantes que nos chegam na forma de fotos, vídeos e gravações nunca são usadas por serem ofensivas e nada ajudarem na compreensão dos fatos públicos.

“O ensinamento para o bom jornalismo é claro: maus cidadãos podem, em muitos casos, ser portadores de boas informações.”

Os jornalistas de VEJA estabelecem com suas fontes uma relação em que fica claro desde o primeiro momento que não se trata de uma relação de troca. A fonte não terá nenhum outro privilégio por fornecer informações, a não ser a manutenção do sigilo, caso isso seja do interesse dela. As fontes nunca são desinteressadas das reportagens com as quais colaboram fornecendo informações. Um corrupto que passa informações quer se vingar de outro corrupto ou espera atrapalhar o negócio do concorrente com o governo. Nos dois casos, o jornalista precisa ter noção exata do interesse da fonte e usar a informação quando e somente se a vinda dela à luz servir mais ao interesse público do que ao do próprio informante. Um assassino que revela na cadeia um plano para assassinar o presidente da República é possuidor de uma informação de interesse público – e pelo mecanismo da delação premiada ele pode ter sua pena atenuada ao dar uma informação que impeça um crime ainda pior do que o cometido por ele. Portanto, temos aqui uma situação em que a informação é de qualidade e o informante não, por ser um assassino. O ensinamento para o bom jornalismo é claro: maus cidadãos podem, em muitos casos, ser portadores de boas informações.

“Uma informação de qualidade é verificável, relevante, tem interesse público e coíbe a ação de corruptos.”

O repórter que se preza não despreza uma fonte de informação sobre casos de corrupção com base apenas no fato de que o informante é corrupto. Mas como se cativa e se mantém um informante desse tipo sem acenar com alguma vantagem para ele? O jornalista, consciente dos interesses subalternos do informante, deve tentar obter dele o que for relevante para o interesse público – e publicar. O mais provável é que o informante se sentirá gratificado por ter conseguido o objetivo de ver a informação tornada pública e o jornalista também terá cumprido sua missão de trazer à luz fatos que, de outra forma, nunca sofreriam o efeito detergente dos raios solares.

Ao jornalista cabe distinguir:
A) se a informação é verificável;
B) se a informação é relevante e de interesse público;
C) se a vinda da informação a público ajudará a diminuir o escopo de ações dos corruptos, entre eles o próprio informante.
Cumpridas as três condições acima, a informação merece ser levada a sério, a despeito, repita-se, da estatura moral do informante.

O bom jornalista não se deixa paralisar estabelecendo como critério só ter como fontes pessoas que passem pelo crivo ético mais elevado. Isso não deve ser confundido de jeito nenhum com a ideia de que vale tudo. O critério de VEJA é claro. As informações precisam ser qualificadas, independentemente da estatura moral do informante. Pessoas de estatura moral questionável podem deter informações de altíssimo padrão de qualidade jornalística. Digamos que a informação trate de uma negociação de pagamento de propina. Quem tem mais condições de contar o que aconteceu?

Quem estava lá ou quem não estava lá? A resposta é clara: quem estava lá, ou seja, um dos envolvidos.

Evidentemente, o critério acima não vale para fontes que queiram dar opiniões. Não abrimos espaço para pessoas de baixo padrão moral dar opiniões. No processo de coleta de opiniões, procuramos as mais qualificadas autoridades mundiais para entrevistar, onde quer que estejam. Se uma fonte moralmente discutível testemunhou um fato importante, quer contar o que presenciou e se o que ela narra é verificável por outros meios, consideramos que ela pode ter uma informação que vale a pena ser levada em conta. Se essa mesma fonte quiser dar uma opinião a respeito daqueles mesmos fatos, não aceitamos. A qualidade da informação pode independer da qualidade da fonte. Já a opinião é indissociável de quem a emite. A qualidade de quem opina afeta a qualidade da opinião.

“A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.”

Esse ponto merece uma análise mais detida. Como o jornalista deve diferenciar sua relação quando uma fonte é, digamos, um economista respeitado e outra fonte é um criminoso? O jornalista deve ter em mente que ambos podem ser detentores de informações da melhor qualidade. O criminoso pode ter sido testemunha de um crime e seu depoimento pode ajudar a desbaratar uma quadrilha perigosa. Não se pode desprezar o que ele tem a dizer. É preciso ouvir, analisar, pesar, checar, contextualizar. Um economista respeitado, caricaturando, pode estar teoricamente equivocado sobre algum fenômeno ou pode estar a serviço de algum especial interesse econômico ou comercial. Enfim, ambos valem pelo teor, qualidade e grau de interesse da informação verdadeira de que são detentores. É preciso atentar para o fato de que, mesmo que a fonte seja um assassino esperando a execução de uma sentença de morte (exemplo verídico transformando no livro O Jornalista e o Assassino pela americana Janet Malcolm), ela merece ser tratada com respeito. Se a fonte não tem ética, isso é problema dela. A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.

Quando o jornalista lida com uma fonte que tem uma informação verdadeira, verificável e relevante, ele precisa ter consciência dos interesses particulares do informante. Deve avaliar se o interesse público maior supera mesmo o subproduto indesejável de satisfazer o interesse menor e subalterno da fonte. Se o resultado for positivo, a informação se candidata a ser publicada. Por isso, o jornalista não pode ser amigo de fontes. Não pode aceitar presentes, convites para viagens ou quaisquer outros agrados.

VEJA nunca publicou conteúdos de gravações obtidas ilegalmente, portanto o que segue aqui tem o objetivo apenas de refletir sobre certos limites. Quem se favorece conscientemente do produto de furtos, roubos ou outros crimes é potencialmente cúmplice do autor. Por essa razão, o jornalista que eventualmente receber uma gravação obtida ilegalmente e usá-la em uma reportagem pode estar se expondo aos rigores da lei. Desse modo, ele só deve dar esse passo arriscado quando o custo para a sociedade de desprezar o conteúdo da gravação for muito grande. Se o preço pessoal de evitar um crime ou uma sequência de crimes dando publicidade a gravações ilegais for incorrer em uma transgressão menor, o jornalista tem o dever de considerar correr esse risco. Em VEJA, casos assim jamais são decididos individualmente por um jornalista, mas pela direção da revista. O trabalho jornalístico envolve vários riscos. Como qualquer trabalho. Do cirurgião, do advogado. Do engenheiro. Se ele tomar todos os cuidados, os riscos serão minimizados, mas jamais eliminados. A primeira preocupação de VEJA ao ter acesso a uma informação é entender como a informação foi obtida.

Se a publicação do produto do crime tiver relevância para evitar crimes piores, e mesmo que isso ajude a vender revistas, não se incorre em falha ética. Se um jornalista furtar da pasta de uma pessoa, por exemplo, um plano para explodir a represa de Itaipu e se com a publicação do plano ele evitar o ataque terrorista – e ainda vender mais revistas –, a implicação ética lhe será altamente favorável.

“O bom jornalismo é uma atividade de informação mediada. O jornalista não é um mero repassador de declarações. Ele tem o poder discricionário de não publicar uma acusação ou uma ofensa grave.”

As informações obtidas com a garantia de manter o sigilo da fonte trazem desafios adicionais ao jornalista. As informações obtidas de fontes anônimas, que não podem ou não querem se identificar, devem ser usadas preferencialmente como confirmação de dados ou relatos já obtidos de outras fontes. Mas é um erro desprezá-las. Muitas vezes um informante testemunhou fatos relevantes e a única condição que coloca para narrá-los é a manutenção do sigilo sobre sua identidade. A regra básica para errar menos com o uso de fontes anônimas é ter em mente que o leitor pouco ou nada saberá sobre quem deu a informação, portanto o jornalista tem de saber tudo sobre a fonte. VEJA muitas vezes não tem meios de confirmar com outras fontes as informações passadas por uma fonte que pediu OFF. Digamos que uma discussão entre duas pessoas seja contada em OFF por um dos participantes. VEJA não vai publicá-la se a outra pessoa não confirmar? Talvez sim, talvez não. Depende do conteúdo do diálogo passado. A lição é a de que o bom jornalismo é uma atividade de informação mediada. O jornalista não é um mero repassador de declarações. Ele tem o poder discricionário de não publicar uma acusação ou uma ofensa grave. Se o custo de não publicar for prejudicial ao interesse público, o jornalista deve pesar os riscos e corrê-los se necessário.

Uma fita contendo revelações importantes (depois de devidamente periciada e contextualizada) tem valor extraordinariamente maior do que uma frase acusatória, seja em OFF ou em ON. VEJA sempre pericia os diálogos gravados que publicou e guarda esses registros. VEJA já publicou diálogos que lhe foram entregues degravados sem ter tido acesso ao conteúdo original – mas o fez com absoluta segurança da origem do material. Existe uma diferença grande entre uma acusação em OFF e uma fita. A fita, muitas vezes, envolve um diálogo de duas pessoas acusando uma terceira – que pode ser inocente. E ela acaba sendo envolvida num escândalo involuntariamente. Isso raramente acontece na acusação, ainda que em OFF. Por isso, todo o cuidado é pouco com esse tipo de informação.

O documento (depois de periciado e contextualizado) tem valor exponencialmente maior do que uma informação oral, desde que o conteúdo de ambos seja equivalente em relevância. Mas às vezes um documento mente e a informação falada tem mais valor. Exemplo: como forma de mostrar seu distanciamento de uma denúncia de corrupção, o ministro envia um memorando cobrando de seu assessor informações sobre a irregularidade. Esse documento pode ser apresentado pela autoridade como prova de sua inocência. Uma apuração mais aprofundada pode provar que aquele documento não passava de uma armação. Ou seja, cada caso é um caso.

“A regra para lidar com gravações ilegais que registraram atividades de cidadãos ou empresas privadas em seus negócios particulares é: descartar sem ouvir ou assistir – ou, alternativamente, entregá-las às autoridades.”

A fita (periciada, contextualizada) tem muito valor. A perícia ajuda a mostrar se a fita chegou à redação em condições de ser usada como prova. Às vezes, as gravações são inaudíveis ou indecifráveis – ou a fita pode ter sido adulterada com o propósito de mudar o sentido das falas. Nesses casos, ela vai para o lixo.

É crucial enfatizar um ponto da mais alta importância. O que se discute aqui é a publicação de informações que dizem respeito à atuação de autoridades e suas relações com terceiros quando tratam de questões que envolvem dinheiro ou outros bens públicos. A regra para lidar com gravações ilegais que registraram atividades de cidadãos ou empresas privadas em seus negócios particulares é: descartar sem ouvir ou assistir – ou, alternativamente, entregá-las às autoridades.

“As informações são tratadas em VEJA como portas que se abrem para a obtenção de novas informações. Todas elas são checadas.”

Nenhuma reportagem de VEJA – com a exceção óbvia da entrevista das Páginas Amarelas – é feita com base em apenas uma única fonte de informação. As informações são tratadas em VEJA como portas que se abrem para a obtenção de novas informações. Todas elas são checadas, contextualizadas e comparadas, de modo que os eventuais erros que possam ocorrer sejam aqueles que conseguiram escapar de nossos rigorosos mecanismos de filtragem – e nunca resultado de má-fé.


Por EURÍPEDES ALCÂNTARA, DIRETOR DE REDAÇÃO DE VEJA

sábado, 21 de abril de 2012

FUNDAMENTOS DO JORNALISMO INDEPENDENTE. OU: FIQUEM ATENTOS! OS LOBOS ESTÃO VESTINDO PELE DE CORDEIRO PARA DAR UM GOLPE NAS INSTITUIÇÕES



Está criada a CPI do Cachoeira. Que investigue tudo, tendo como norte a defesa do interesse público e a preservação do patrimônio que pertence a todos os brasileiros, cotidianamente dilapidado por larápios! No Brasil, boa parte do trabalho de depuração da política, distinguindo os maus dos bons, tem sido feito pela imprensa séria, responsável, que não se subordina a nenhum outro interesse que não a defesa dos valores democráticos, consolidados na Constituição e em códigos infraconstitucionais. Estes não são estanques e preveem rituais para a sua própria mudança, que precisam ser cumpridos.
Um país não consolida seus avanços econômicos e sociais fora das regras do estado de direito. Leio que brasileiros de diversas partes do país já pensam em se mobilizar para cobrar que o STF julgue, finalmente, os mensaleiros. É o caminho! E igual mobilização deve ser feita para que esta nova CPI seja instrumento de justiça dos homens de bem — a esmagadora maioria dos brasileiros que trabalham e se esforçam para ter uma vida digna — contra as quadrilhas organizadas para assaltar os cofres públicos. É preciso deixar claro que o país repudia que a CPI seja palco de chicanas e de mesquinhas vinganças partidárias, como alguns anunciam por aí.
Este é o primeiro texto de uma série que pretendo fazer pondo, como se diz por aí, os pingos nos “is”. Fiquem atentos! Lobos estão vestindo pele de cordeiro para tentar dar um golpe nas instituições. Este é o primeiro texto de uma série, em que pretendo debater algumas questões que dizem respeito à imprensa e à sua missão. O mal não seduziria ninguém se exibisse a sua cara horrível. Se a imagem a muitos pareceu demasiado religiosa, então recorro a outra mais ao gosto laico, de apelo histórico. Os dois grandes totalitarismos do século passado, o comunismo e os vários fascismos, só se impuseram porque foram bem-sucedidos na trapaça, no engodo, da manipulação dos sentimentos de justiça de amplas camadas da população, que não percebiam que estavam tendo solapados seus direitos, suas liberdades, seus anseios.
Não por acaso, a primeira providência tomada pelos tiranos dos dois modelos, uma vez no poder, foi censurar a imprensa, acusá-la de manipulação, de estar a serviço ou dos “inimigos do estado” ou dos “inimigos do partido”. Já publiquei aqui um post com o discurso de Goebbels no primeiro grande comício nazista, realizado no dia 10 de fevereiro de 1933, depois de Hitler ter-se tornado chanceler da Alemanha. Seu principal alvo era a “imprensa dos judeus insolentes”. O resto da história é conhecida.
Criminosos das mais variadas estirpes, das quadrilhas as mais diversas, muitas vezes inimigas entre si porque suas fontes financiadoras também são adversárias, se unem hoje numa espécie de conjuração contra a imprensa livre — ou o que se chamava antigamente “grande imprensa”. Financiadas ora pelo poder público, ora por estatais, ora por gângsteres, alimentam o sonho vão de destruir a reputação do jornalismo independente para que possam, então, como direi?, “dividir Chicago” em zonas de influência. Mas não vão! Porque haverá sempre, sim, a grande imprensa no meio do caminho, para obstar a ambição de chicaneiros, de bucaneiros, de mafiosos. Vamos lá.
Jornalismo não é ciência exata, mas é uma ciência moral e ética
Nestes dias, muito por conta da mobilização dessas quadrilhas, o jornalismo tem sido alvo de questionamentos. E começo hoje a escrever uma série de textos para demonstrar, como sabem as pessoas que estudam a área, que jornalismo não é uma ciência exata, mas pode ser uma ciência moral e ética no sentido de que reúne um conjunto de saberes e de experiências que indicam escolhas: estamos sempre, ou deveríamos estar, respondendo em que mundo queremos viver e com quais valores, tendo como instrumento a verdade dos fatos e como norte a defesa do interesse público.
As fontes, as barganhas, a madre e o corrupto
Um jornalista que se preza — e é assim na VEJA, por exemplo —  sabe que a INDEPENDÊNCIA é seu maior valor. Por isso não aceita qualquer barganha editorial com as fontes em troca de informações. Em nosso cotidiano, sempre avaliamos as informações que recebemos das fontes tendo como único metro o já referido interesse público.
Informações não caem de árvores, não circulam no vento, não se materializam do nada. O jornalismo, especialmente o investigativo, se alimenta de fontes. Um jornalista, é assim na VEJA e em qualquer outro veículo sério, sempre deixa claro que não está estabelecendo com essas fontes uma relação de troca. Elas não terão nenhum privilégio ao fornecer uma informação que interessa ao conjunto da população — a não ser, quando solicitada, a garantia do sigilo, UM PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL.
Interesse das fontes
Um leitor me perguntou, de boníssima fé: “Reinaldo, mas essas fontes não têm sempre algum interesse quando passam uma informação?” COMO SABE TODO JORNALISTA, desinteressadas elas nunca são! Madre Teresa de Calcutá, quando atendia jornalistas, queria ver suas obras de caridade celebradas nas páginas de jornais e revistas e nas telas das televisões.  No extremo oposto no espectro das intenções, um corrupto que passa informações quer se vingar de outro corrupto ou espera atrapalhar o negócio do concorrente com o governo. Qual deve ser o papel do jornalista?
Nos dois casos, ele precisa ter noção exata da intenção da fonte e usar a informação se a sua publicação servir mais ao interesse público do que ao do próprio informante. Um criminoso que revele, na cadeia, um plano para assassinar o presidente da República é possuidor de uma informação de interesse público. Segundo o mecanismo da delação premiada, por exemplo, ele pode ter sua pena atenuada ao contribuir para impedir um crime ainda pior do que o cometido por ele próprio. Nesse caso, estamos diante de uma situação em que a informação é de qualidade, embora o informante não! A síntese que, parece-me, serve de ensinamento aos repórteres é esta: maus cidadãos podem ser portadores de boas informações!
Como alguém chega a ser fonte? E o bê-á-bá
Olhem, minhas caras, meus caros, o que estou expondo aqui é o bê-á-bá do jornalismo que se leva a sério. La no mundo da esgotosfera a soldo, as coisas certamente transitam por outros caminhos. Sigamos. Leitores indagam também como alguém chega a ser fonte e quem escolhe quem: o jornalista escolhe a fonte ou o contrário?
O informante quer, obviamente, maximizar os efeitos da informação que lhe interessa ver publicada. O mais provável, então, é que tente passá-la para um jornalista que tenha credibilidade e trabalhe em um veículo de grande circulação. A tarefa do jornalista é distinguir:
a) se a informação é verdadeira;
b) se a informação é relevante e de interesse público;
c) se a publicação ajudará a diminuir o raio de ações dos corruptos, incluindo o próprio informante.
Avaliados esses três quesitos, a informação pode ser levada a sério, a despeito, reitero, da estatura moral do informante. Nem sempre a fonte escolhe o jornalista. Muitas vezes, como resultado de uma apuração, o repórter se vê diante de uma pessoa que acaba se tornando sua fonte — ou seja, esta acaba conhecendo o jornalista porque foi procurada por ele. Às vezes, ela escolhe, sim, o veículo e o repórter. Para isso, vale-se muitas vezes do trabalho de assessores de imprensa. Não há uma regra, mas, seguramente, passa pela credibilidade do veículo e do profissional. No caso da VEJA, porque esta é uma orientação claríssima, essa fonte fica sabendo imediatamente que sua história será ouvida sem compromisso de publicação. E que, caso publicada (atendidos aqueles requisitos), seu nome poderá ser mantido em sigilo.
Jornalista não é nem amigo nem juiz das fontes. Ou: Dos cuidados
Nunca se esqueçam: o norte do jornalismo é o interesse público. Cuidados são necessários. E o principal é ter consciência dos objetivos do informante. Essa análise vai ser da maior relevância no momento de decidir, ATENÇÃO!!!, se aquele interesse público supera o subproduto indesejável, mas inevitável, de publicar informação que interessa à fonte. Por isso, o jornalista nunca deve confundir fonte com amizade. Não pode aceitar presentes, convites para viagens ou quaisquer outros agrados materiais.
A qualidade moral da fonte, infelizmente, não qualifica, necessariamente, a informação. Um  criminoso pode ter sido testemunha de um outro crime, e seu depoimento pode ajudar a desbaratar uma quadrilha perigosa. Não se pode desprezar, por princípio, o que ele tem a dizer. É preciso ouvir, analisar, pesar, checar, contextualizar. Fazendo uma caricatura, observo que um economista respeitado pode estar tecnicamente equivocado sobre algum fenômeno ou pode ainda estar a serviço de algum grande interesse econômico ou comercial. Ambos valem, enfim, pelo teor, qualidade e grau de interesse da informação verdadeira de que são detentores.
O papa e o corrupto
Há muitas coisas, minhas caras, meus caros, a tratar nessa área. De certo modo, exponho aqui o que é curiosidade de muita gente: como os jornalistas lidam com as informações e como, recorrendo a uma expressão que está nas ruas, ficam “sabendo de tanta sacanagem”. Não é nos conventos e nos seminários — ainda que os informantes fossem aqueles padres do Eça de Queirós… Responderei em outros artigos, por exemplo, a uma questão espinhosa: “Se uma fonte criminosa passa uma informação verdadeira, relevante e de interesse público, mas que é fruto de um crime — grampo, por exemplo —, isso faz do jornalista cúmplice desse crime?” Mas fica para outro artigo.
Neste, quero retomar a questão da qualidade moral da fonte. Ora, mesmo que ela seja um assassino esperando a sentença de morte (exemplo verídico, relatado no livro “O jornalista e o Assassino”, da americana Janet Malcolm),  merece ser tratada com respeito. ATENÇÃO! Se a fonte não tem ética, isso é problema dela. A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Ter o Papa como informante não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe, pouco importa se falamos com ele 10 ou 10 mil vezes.
Um eventual maledicente que chegou até aqui poderia indagar: “Ah, então você permitiria que um criminoso escrevesse no seu blog, Reinaldo?” Não! De jeito nenhum! Vagabundo dando opinião no meu blog sob o pretexto da pluralidade? Nunca! Se quiser me passar uma informação que seja do interesse público, seguirei o roteiro que estabeleci até aqui. Não terá nada em troca. Mas também a este assunto pretendo voltar.
Os lobos em pele de cordeiro
A canalha, também aquela da esgotosfera, do subjornalismo a soldo, está fazendo o trabalho dos totalitários e dos demônios: a inversão moral, que transforma o certo em errado, o bem em mal. No post abaixo, vocês verão dois exemplos escandalosos dessa prática. Um deles apela ao discernimento da própria presidente Dilma Rousseff.
Não digo que essa gente perdeu a vergonha porque não se perde o que não se tem. Lamento pelos totalitários! Lamento pelos demônios! Terão de suportar a imprensa livre e independente.

Por Reinaldo Azevedo