Após desembarque em Ilhéus, no sul da Bahia,
no início da tarde deste domingo (22), um delegado do Comando de
Operações Táticas (COT) e 30 agentes da Polícia Federal foram enviados
para a área de disputa de terras entre índios e fazendeiros, situada
entre as cidades de Pau Brasil, Camacan e Itaju do Colônia.
O objetivo,
segundo o delegado federal local Rodrigo Reis, é a realização de triagem
do tamanho da área para avaliar a necessidade de novos reforços.
"Irá chegar o número que for necessário para conter toda aquela área.
Hoje ele fará o levantamento imediato do número necessário e irá indicar
as datas [para chegada de reforços]", explica Reis.
Equipes da Polícia Civil e Militar também irão apoiar as ações dos
policiais federais. A força-tarefa montada não tem autorização legal de
invadir fazendas apenas por queixa dos fazendeiros; seria necessário
mandados de busca e apreensão. Por isso, a função inicial é de
monitoramento. "A lei permite a entrada, no entanto, em caso de
flagrantes, se acontecer conflito visível e imediato", afirma.
O delegado quantifica cerca de 64 fazendas tomadas pela população
indígena, mas a Fundação Nacional do Índio (Funai) aponta 68. A série de
ocupações por parte dos índios foi iniciada em janeiro deste ano, porém
o conflito persiste na região há mais de 30 anos. O cacique Nailton
Muniz indicou que, durante as últimas décadas,
393 propriedades foram empossadas pelos índios em todo o estado, com atualmente mais de quatro mil pessoas residentes.
Delegado Rodrigo Reis pretende retirar armas das
áreas de conflitos (Foto: Imagem/TV Santa Cruz)
De acordo com o delegado Rodrigo Reis, há o conhecimento de que, após a
ocupação das terras, os índios não permitem a entrada de ninguém. "A
Funai está sendo acionada e, quando preciso, há o reforço policial. Os
fazendeiros vão junto, entram na fazenda e pegam os pertences e o gado.
No entanto, como há pouco efetivo da Funai, os fazendeiros ficam
aguardando", descreve.
O delegado afirma ainda que não há como relacionar, sem investigar, os
crimes ocorridos nos dois últimos dias com a situação de disputas de
terra que ocorre na região. No sábado (21), um
homem foi encontrado morto dentro de uma fazenda com um tiro na nuca. Na sexta-feira (20), um
índio foi pescar no rio em uma das fazendas ocupadas e foi atingido com um tiro na perna.
"Tentamos fazer uma separação do que está acontecendo. Todo crime na
região está sendo computado na conta do conflito. Estamos com uma equipe
na área há 15 dias", relata o delegado.
Caminhão incendiado
Caminhão incendiado em Pau Brasil no sábado
(Foto: Imagem/TV Santa Cruz)
Um caminhão onde estavam trabalhadores rurais foi incendiado na manhã
deste sábado, também na cidade de Pau Brasil. Ninguém ficou ferido.
Segundo testemunhas, vaqueiros que usavam o veículo para seguir até
propriedades rurais e retirar cabeças de gado foram obrigados a fugir
correndo antes do caminhão ser incendiado.
Na delegacia, eles contaram que foram abordados por homens encapuzados e
armados. Os suspeitos não foram localizados. O homem que dirigia o
carro relatou que os trabalhadores chegaram a sofrer agressões, como
chutes, antes de conseguirem correr para fugir do grupo.
Disputa
Desde janeiro, os índios já invadiram 68 fazendas. Eles querem ocupar
54 mil hectares de terra, entre os municípios de Itaju do Colônia,
Camacan e Pau Brasil.
Em Itaju do Colônia, foram invadidas todas as fazendas que, segundo a
Fundação Nacional do Índio (Funai) estão dentro da área que seria da
reserva indígena. No total, são 57 fazendas ocupadas só no município.
Segundo o sindicato dos produtores da região, mais de 500 trabalhadores
rurais já foram demitidos nas propriedades tomadas pelos índios.
Garantia de território
Em nota à imprensa, a Funai informou que as ocupações são estratégicas
para a garantia de posse do território tradicional do índio. "Frente à
espera de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal da ação proposta
ainda em 1982, os pataxó hã hã hãe passaram a ocupar, desde janeiro
deste ano, áreas que se encontram no interior da terra indígena mas que
ainda são exploradas por fazendeiros. A decisão é tomada pelas
comunidades indígenas e embasada em seus laços culturais e afetivos com
suas terras, enquanto não se efetiva a plena proteção territorial a que
fazem jus".
A Funai aponta que os índios têm, constitucionalmente, garantida a
proteção de terras no sentido de favorecer a qualidade de vida e os
costumes da população. Também indica a recorrência de "graves" violações
aos direitos humanos dos índigenas como a morte, segundo a Funai, por
omissão de socorro, de José Reis Muniz de Andrade, em fevereiro deste
ano. "A ocupação de áreas tem se mostrado como uma estratégia para
grupos que se encontram impedidos de gozarem de seus direitos
territoriais, especialmente em áreas em que há grave ameaça à qualidade
de vida dos indígenas e do meio ambiente de suas terras. Por ordem
constitucional, é garantida a proteção das terras indígenas com
condições ambientais e sociais mínimas para a manutenção dos modos de
vida desses povos, segundo seus usos, costumes e tradições", afirma a
nota.
Índios já ocuparam 68 fazendas no sul da Bahia
(Foto: Reprodução/TV Bahia)
Pedido de nulidade
Segundo o chefe da coordenação da Funai em Pau Brasil, Wilson Jesus de
Souza, o objetivo dos índios não é a posse das terras, e sim, a nulidade
dos títulos que garantem a posse aos fazendeiros. Ele afirma que, em
abril de 1982, a Funai entrou com um pedido junto ao Supremo Tribunal
Federal requerendo a nulidade dos títulos de terra que foram concedidos
aos fazendeiros.
O representante da Funai explicou que os índios reivindicam 54.100
hectares, área que foi demarcada como território índigena entre 1937 e
1938. "Dez anos após a demarcação das terras, em 1948, o Serviço de
Proteção ao Índio (STI), órgão que era vinculado ao Ministério da
Agricultura, inicia um processo de arrendamento das terras para os
fazendeiros. Nessa época os índios não tinham que aceitar ou não, eles
simplesmente eram obrigados a se submeter a determinação do STI, porque o
STI era quem coordenava, administrava e dava as ordens na terra”,
afirma.
O coordenador da Funai conta que, na medida em que os fazendeiros
recebiam as terras, os índios acabavam sendo expulsos. “Nesse período
houve uma grande chacina de índios. Isso aconteceu entre 1938 e a década
de 1970. Eram 50 mil índios nesse território e hoje existe pouco mais
de três mil índios na região sul”, explica. Wilson ainda comenta que, em
1926, houve uma primeira tentativa de demarcar os 54.100 hectares como
território indígena, mas acabou sendo barrado pelos fazendeiros que
dominavam a região cacaueira na época.
Ele também relata que, na década de 1970, já não havia índios na região
e apenas oito famílias indígenas conseguiram continuar morando em
aldeia na região de Itaju do Colônia. Nessa época, vários líderes
indígenas se reuniram e formaram uma comissão, que foi até algumas
capitais brasileiras, entre elas, Salvador, Rio de Janeiro e Brasília,
para reivindicar às autoridades a posse das terras que ficam no
“Território Indígena Catarina Paraguassu”, informou Wilson Souza.
De acordo com o coordenador, em 1976, três anos após a criação da
Funai, a antropóloga Maria Hilda Baqueiro Paraíso, da UFBA, produziu um
relatório identificando os índios que moravam ou trabalhavam na região
e, a partir do trabalho, a Funai, em 1982, reúne os índios que estavam
dispersos em uma fazenda chamada São Lucas, área de 1079 hectares, e
reembolsou o fazendeiro que estava na terra, área que já havia sido
demarcada como território indígena. “A Funai achou que seria rápido o
processo de reintegração e ingressou com uma ação de nulidade dos
títulos que estavam dentro dos 54.100 hectares junto ao Supremo Tribunal
Federal. A partir daí inicia a luta pelas terras e os Índios aguardam
uma determinação judicial”.
Por G1