sábado, 21 de abril de 2012

Cachoeira e Delta levaram seus negócios à CEF

Em privado, Dilma Rousseff declara-se traquila quanto aos riscos de a CPI do Cachoeira respingar em seu governo. Nesta sexta, mandou pendurar no site do Dnit, o órgão que cuida das estradas, 284 contratos firmados com a Delta Construções desde 2002. Coisa de R$ 3,2 bilhões, em cifras não atualizadas.

Enquanto Dilma vacinava-se no Dnit, foram ao ar grampos que revelam que a quadrilha de Cachoeira faz água noutro guichê: a Caixa Econômica Federal. As escutas da Polícia Federal fisgaram diálogos reveladores. Conversas de Cachoeira com Cláudio Abreu, que respondia pela direção da Delta no Centro-Oeste até a explosão do escândalo.
Deve-se a veiculação das interceptações telefônicas ao repórter Andrei Meirelles. Numa delas, gravada pela PF em 14 de abril do ano passado, um entusiasmado Cláudio Abreu informa a Cachoeira que a Delta beliscara um contrato milionário na Caixa. A empreiteira ergueria em Brasília o Centro Tecnológico da casa bancária estatal. Negócio de R$ 69,7 milhões.
Cachoeira também era portador de uma boa nova. Disse ao telefone que “Marise” seria a nova superintendente da Caixa no Estado de Goiás. Marise Fernandes Araújo, eis o nome completo da personagem citada pelo pós-bicheiro. Indicara-a para o posto estratégico da Caixa Marcelo Limírio, do laboratório NeoQuímica, um sócio de Cachoeira.
“Vou levar ela aí para você conhecê-la”, diz Cachoeira no grampo. Cláudio Abreu responde que a nomeação será importante. “Sabe por quê? As obras de saneamento aí do PAC em Catalão [cidade goiana], que nós vamos fazer. Isso tudo vai depender da superintendência”. Decorridos 20 dias desse diálogo, Marise foi confirmada na superintendência da Caixa em Goiás, exatamente como previra Cachoeira.
Dali a sete meses, em 22 de novembro de 2011, a Delta foi contratada para tocar as obras de saneamento no município de Catalão, precisamente como vaticinara Cláudio Abreu. Contrato de R$ 22,1 milhões.


Noutra conversa captada pelo Guardião, o sistema de escutas da PF, Carlinhos Cachoeira e Cláudio Abreu voltam a celebrar o contrato da obra do centro tecnológico brasiliense da Caixa. “Carliiiinhos, que vitória lá em Brasília! Essa obra da Caixa. É o edifício digital da Caixa”, diz Cláudio Abreu. Cachoeira entra no clima: “Excelente, Cláudio! Excelente”.
O homem da Delta prossegue: “Isso pra nós vai ser muito bom. Vamos fazer um negócio bacana, bonito, show de bola”. E Cachoeira: “Vamos matar a pau, Cláudio, matar a pau.” Procurada, a Caixa manifestou-se por meio de nota. Sobre a obra que encheu de ânimo o pós-bicheiro e o empreiteiro, disse que decorreu de uma licitação regular.
A despeito disso, premida pelo conteúdo tóxico das escutas, a instituição optou por tomar uma providência: “A Caixa, em respeito à transparência dos atos da administração, embora não tenha verificado nenhum procedimento em desacordo com os aspectos legais que orientam a contratação, instaurará processo de análise preliminar para rever todos seus aspectos, assim como solicitará uma auditoria no processo.”
Sobre o negócio milionário de Catalão, a Caixa eximiu-se de responsabilidade. Informou que a Delta foi contratada pela prefeitura, beneficiária de um convênio com o Ministério das Cidades. A Caixa não fez senão repassar as verbas. Quanto à promoção de Marise, a Caixa informou que a funcionária cultuada por Cachoeira trabalha na Casa desde 1981. Não há em sua ficha funcional nada que a desabone.
Aos pouquinhos, a Delta, empreiteira número um do PAC, vai se convertendo em epicentro da CPI que começará a funcionar no Congresso na semana que vem. A alegada tranquilidade de Dilma não orna com o teor dos grampos.

Por Josias de Souza

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