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terça-feira, 1 de maio de 2012

PF apura ligação de Delúbio com fraude no ES



Operação Lee Oswald flagrou encontro de ex-tesoureiro do PT com suspeitos de corromper contratos com prefeituras 

Um dos casos se refere a compra de lousas digitais para Presidente Kennedy, o que levou à prisão do prefeito  
Em Presidente Kennedy, no litoral sul do Espírito Santo, a Justiça determinou no mês passado a prisão do prefeito e afastou o vice e quatro dos nove vereadores da Câmara.

A decisão foi o primeiro resultado de uma operação da Polícia Federal, batizada de Lee Oswald (assassino do presidente norte-americano John Kennedy em 1963), contra esquema de fraude a licitações e desvio de verbas que envolveria empresários e administradores da cidade.

As investigações da PF e do Ministério Público estadual encontraram indícios, no entanto, que Presidente Kennedy -distante 150 quilômetros de Vitória- seria apenas a ponta de um esquema que se espalha por outros municípios do Espírito Santo, Goiás, Bahia, Minas e São Paulo.

Em dado momento, apareceu nas investigações o nome do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, um dos réus do processo do mensalão, conforme revelou a coluna Painel. Delúbio teria discutido formas de vender a outras cidades lousas digitais, um dos focos de fraude apontados.

LOUSAS
De acordo com denúncia do Ministério Público, os atos criminosos eram liderados pelo prefeito de Presidente Kennedy, Reginaldo Quinta (PTB), 65. Os vereadores afastados seriam responsáveis por evitar que os contratos fossem fiscalizados.

A CGU (Controladoria Geral da União) calcula que R$ 55 milhões foram desviados.

Um dos casos diz respeito a contrato de pouco mais de R$ 1 milhão para instalar três lousas digitais nas três escolas do município, mediante aluguel mensal de R$ 101 mil.

O contrato foi fechado pela secretária de Educação, Geovana Costalonga, sobrinha do prefeito, com Jurandy Nogueira Júnior, sócio da Matrix Sistemas e Tecnologia.

Quando as lousas foram instaladas não havia internet na cidade, nem os professores receberam treinamento.

Na época da licitação, a empresa, especializada em moda, mudou sua razão social. Sua proposta foi apresentada 15 minutos antes da abertura dos envelopes.

A Matrix tem como endereço um terreno baldio. O empresário fez o mesmo negócio em Anchieta (ES).

Em janei­ro, diz a PF, Nogueira pediu ajuda ao deputado estadual Misael de Oliveira (PDT-GO), que prometeu apresentá-lo a prefeitos.

O deputado, segundo a investigação, intermediou encontro entre o empresário e Delúbio Soares. No dia 31 de janeiro, Nogueira e seu sócio se encontraram com o ex-tesoureiro do PT em restaurante do Aeroporto Santos Dumont (Rio), por 35 minutos.

Na mesma noite, Nogueira liga para a mulher e conta que conversou com o "presidente do PT". Depois, fala do encontro com o deputado Misael e diz que "foi tudo bem".

Recordista no recebimento de royalties do petróleo no Estado -R$ 98 milhões em 2011-, Presidente Kennedy tem 10 mil habitantes, cerca de 20% deles analfabetos, e um dos piores IDHs do Estado: o 74º lugar entre 78.


Por Marco Antônio Martins

domingo, 29 de abril de 2012

A rapina da tecnologia na educação



O que parece progresso é só sofisticação de fornecedores de equipamentos inúteis para as escolas públicas 

Com vocês, Delúbio Soares 2.0. A Polícia Federal achou-o no restaurante 14 Bis, no Rio, discutindo o fornecimento de lousas digitais para escolas públicas capixabas e goianas. Segundo o empresário interessado, o companheiros disse-lhe que "um pedido do meu deputado é praticamente uma ordem". Referia-se ao deputado estadual Misael Oliveira (PDT-GO).

Desde que o homo sapiens grafitou a caverna de Altamira, há 15 mil anos, repete-se o costume de usar uma pedra (giz) para desenhar ou, mais tarde, escrever, numa superfície rígida. Desde o século 11 isso é feito em escolas. Os quadros-negros custam pouco, não enguiçam, não consomem energia nem precisam de manutenção.

As lousas digitais, cinematográficas, interativas e coloridas, tornaram-se parte de uma praga estimulada por fornecedores de equipamentos eletrônicos para a rede pública de ensino. Cada uma custa pelo menos o salário-base de um professor (R$ 1.451). Um dos municípios que contrataram lousas da empresa que tratou com Delúbio foi o de Presidente Kennedy (ES). Gastou R$ 2,7 milhões em três escolas, e o endereço da fornecedora era um terreno baldio.

O prefeito e seis secretários, inclusive a de Educação, foram presos. Com os royalties da Petrobras, Presidente Kennedy tem uma das maiores rendas per capita do Estado e um dos piores índices de desenvolvimento humano.

O pequeno município não está sozinho nessa febre. O MEC quer comprar 600 mil tablets para que professores preparem suas aulas (como, não diz). Isso e mais 10 mil lousas digitais. O governo de São Paulo estuda um investimento de R$ 5,5 bilhões para colocar lousas e tabuletas em todas as escolas públicas. Gustavo Ioschpe foi atrás da ideia e descobriu que a Secretaria de Educação não tinha um projeto pedagógico que amparasse a iniciativa. Toda a documentação disponível resumia-se a uma carta do presidente da Dell (fornecedor do equipamento), com um resumo de um estudo da Unesco. Pediu o texto, mas não o obteve.

Lousas digitais, tabuletas e laptops são instrumentos do progresso quando fazem parte de uma ação integrada, na qual tudo começa pela capacitação do professor. Hoje, no Brasil, contam-se nos dedos as experiências bem sucedidas na rede pública. Prevalecem desperdícios que poderiam ser evitados pela aplicação da Lei de Simonsen: "Pague-se a comissão, desde que o intermediário esqueça o assunto".

Quem acredita que Delúbio Soares estava interessado no aprendizado da garotada de Presidente Kennedy vá em frente.

Por Elio Gaspari