Paulo Henrique Amorim esconde o seu passado.
Até mesmo quando ele
tenta revelá-lo.
Por exemplo, em seu site, Conversa Afiada, ele faz um
longo retrospecto de seus empregos e feitos passados. A certa altura,
ele conta que entre 1970 e 1974, foi editor de Economia da Revista Veja.
E acrescenta, orgulhoso, referindo-se a si próprio na terceira pessoa:
“Recebe o ‘Prêmio Esso’ de reportagem Econômica por um trabalho na Veja
sobre a distribuição de renda.” Bonito. O site do Prêmio Esso confirma.
Ganhou CR$ 5 mil (para os mais jovens, cinco mil cruzeiros, a moeda de
então) pela reportagem “A renda dos brasileiros”, publicada na edição de
7/6/1972.
O Prêmio Esso não mente: a reportagem é mesmo de PHA. Isso pode ser
comprovado pela leitura da “Carta ao leitor”, assinada por Mino Carta,
que editava a revista, segundo o próprio PHA, com total independência,
sem dar ciência aos patrões sobre o que publicava. Na carta, está dito
que PHA “conseguiu a mais autorizada análise dos dados essenciais do
estudo do professor Langoni e, em geral, das questões mais importantes
da renda dos brasileiros”. A reportagem é dele mesmo. E, como não
poderia deixar de ser, é vergonhosamente uma reportagem chapa branca.
Uma tristeza.
Apesar de ter conseguido destroçar aqueles que pegaram em armas para
combatê-la e de se orgulhar de um crescimento econômico de dois dígitos,
a ditadura sentia um desconforto enorme: números do Censo de 1970
mostravam uma brutal concentração de renda. A oposição, quando podia,
não deixava de apontar para essa ferida.
O que fez então a ditadura, com
o apoio de jornalistas como PHA? Encomendou um estudo para desmentir os
números do Censo, que havia sido divulgado no início daquele ano.
E PHA escreveu uma reportagem como que a indagar: “Concentração de
renda? Dores do parto de nossa grandeza!” São nove páginas para provar
que a concentração existia, mas era transitória e até um bom sinal.
Quando a ditadura, pela primeira vez, se sentia no corner, acusada de
enriquecer os ricos e empobrecer os pobres, Paulo Henrique Amorim lançou
uma tábua de salvação.
Fez, não uma reportagem, mas uma peça de
propaganda da ditadura, como se verá.
PHA, como sempre, começa tortuoso:
“A expressão ‘distribuição de renda’ adquiriu mágicos poderes de
persuasão. Bastava enunciá-la para subitamente surgir um poderoso
arsenal de dúvidas e suspeitas sobre os sucessos da economia brasileira.
Principalmente depois da divulgação dos dados preliminares do Censo de
1970, no início deste ano, quando, sem sofismas ou malabarismos
estatísticos, ficou possível localizar uma desagradável concentração.
(…) Um economia que atribui a 28% de sua população uma renda inferior a
99 cruzeiros, como mostra a tabela acima, seria certamente uma economia
frágil. Porém, um recente estudo encomendado pelo Ministério da Fazenda e
que se utiliza, inclusive, de dados do Censo, mostra que o adjetivo
frágil no caso é impróprio.” (…)
Ou seja, de cara, PHA já repudia a tese de que a economia do Brasil
era frágil.
A seguir, já parte para acuar a oposição de então:
(…) “Também no Brasil, a questão da distribuição da renda deixou,
inevitavelmente, de ser um tema apenas econômico para engrossar os
cáusticos argumentos dos que alimentam insatisfações políticas. No caso,
o argumento era ainda mais contundente porque se sustentava em números
insuspeitos do Censo – um trabalho do Instituto Brasileiro de
Estatística, vinculado ao Ministério do Planejamento. Há pouco tempo,
Roberto de Oliveira Campos, ex-ministro do Planejamento,escreveu um
artigo sobre distribuição de renda e utilizou como epígrafe um frase que
ele mesmo já recorrera em vários artigos: ‘As estatísticas são como
biquíni: o que revelam é importante; o que ocultam, essencial’. O
economista Mario Henrique Simonsen, em discurso recente, inventariou,
então, os motivos por que as estatísticas do Censo sobre a distribuição
de renda poderiam estar ocultando o essencial. Os censos distribuem a
população remunerada – explica Simonsen – em apenas oito classes de
renda. As duas extremas, as do que ganham menos e mais, são abertas,
isto é, indicam o número de indivíduos com renda menor do que x e maior
do que y. Para estimar a renda média dessas classes, costuma-se apelar
para o ajustamento de certas curvas estatísticas, o que provoca muitas
vezes erros graves.”
E,
então, a reportagem nos traz um momento curioso. Há pouco tempo PHA
tripudiou do conceito de renda não monetária, e disse que é um absurdo
supor que um pobre é um pouco menos pobre por ter uns porcos no quintal,
um roçado. Em 1972, quando adulava a Ditadura, ele não pensava assim.
Veja o que PHA escreveu para explicar os erros a que Simonsen se
referia:
“Simonsen mostra ainda que os dados dos censos se referem à renda
monetária recebida pelos indivíduos, e isso, de alguma forma, distorce
as comparações, pois não são computados os serviços gratuitos prestados
pelo governo, as diferenças regionais de renda e, ainda, a renda não
monetária derivada do autoconsumo – as roças do fundo do quintal, onde
algumas famílias plantam o mínimo necessário para a subsistência.”
E PHA prossegue:
“Finalmente, Mário Henrique Simonsem fornece outro argumento para se
desconfiar de que o Censo está ocultando demais: os dados classificam as
rendas por indivíduos Se classificassem as rendas por famílias, os
resultados nas camadas mais pobres seria provavelmente melhores, pois
exatamente entre os mais pobres há um número maior de pessoas
trabalhando numa mesma família. Já que o Censo era muito sovina com suas
informações, o governo decidiu patrocinar estudos mais completos. O
Ministério da Fazenda financiou o Instituto de Pesquisas Econômicas da
Faculdade de Economia e Administração da USP, que incumbiu Carlos
Geraldo Langoni, 27 anos, um de seus mais jovens e talentosos
professores, de realizar a tarefa.” (…)
E quem divulgou na capa de uma grande revista esse estudo contra o
Censo, acolhendo-o como verdadeiro?
Paulo Henrique Amorim! Ele enumera
os achados do estudo do Governo:
“Foi bastante expressiva a redução da população economicamente ativa
(os que trabalham e têm algum tipo de renda) que vive no campo e,
paralelamente, houve um aumento dos que foram para as cidades; em
nenhuma das categorias chegou a haver diminuição dos rendimentos – ou
seja, todos, com exceção dos analfabetos, que ficaram praticamente onde
estavam em 1960, melhoraram de renda; aumentou drasticamente a proporção
dos que na população economicamente ativa têm um nível de instrução
superior ao primário (além da diminuição do número de analfabetos);
quanto mais alto o nível de instrução, maiores os ganhos em renda;e,
finalmente, uma descoberta de valor inestimável – a renda é pior
distribuída na cidades que no campo e vai ficando mais concentrada à
medida que se passa dos analfabetos para melhores níveis de instrução.
(…) Porém, parece sintomático que nenhum dos setores da população tenha
perdido dinheiro na década.”
E para confirmar o estudo da ditadura, PHA foi buscar, distorcendo-o,
um estudo de um economista que, anos depois, se tornaria um de seus
maiores desafetos: José Serra.
Seria engraçado, se não causasse enjôo
(mas mostra, pelo menos nesse ponto, coerência, com PHA no campo oposto
de Serra):
“Aliás, até um estudo, ‘Além da Estagnação” de autoria de M.C.Tavares
e J. Serra [isso mesmo, José Serra], economistas da Cepal, com sede em
Santiago do Chile, tradicional opositora da política econômica
brasileira, admite: ‘O esquema de distribuição de renda em 1970
mostraria uma maior taxa global de desigualdade, uma maior concentração
na cúpula, se comparado com 1960; em compensação, tanto os grupos médios
alto quanto os médios em seu conjunto aumentaram significativamente sua
participação na renda.’”
E, então, PHA dá a grande notícia: se houve concentração de renda,
ela era apenas transitória. Por quê? Porque a educação oferecida ao povo
pela ditadura não parava de melhorar. Querem piada melhor? Pois leiam:
“Outro dado revelador é que aumentou brutalmente a oferta de educação
para os níveis ginasial, colegial e superior. (…) Conclui-se daí que a
concentração de renda é maior nas cidades e entre os universitários
porque a agricultura não faz grandes distinções entre os qualificados e
não qualificados; e porque a rápida evolução da economia exigiu uma mão
de obra qualificada. Como não havia suficiente oferta para essa demanda
no primeiro momento, ocorreu uma valorização brusca dos que tinham
diploma universitário, colegial ou ginasial. A educação parece ser,
portanto, a maior causa da diferenciação da renda e do aumento da
desigualdade na década de 60. (…) A situação brasileira seria grave se a
concentração da renda estivesse aumentando ao mesmo tempo que
diminuíssem as possibilidades de acesso à educação. O que acontece é
exatamente o contrário. Parece estar havendo uma ampliação das
oportunidades, pois a base de lançamento – o acesso á educação – é cada
vez mais ampla. (…) No momento em que a oferta [de educação] for se
ajustando à demanda, haverá ma redução das desigualdades – o país será
mais qualificado e a renda melhor distribuída.”
E PHA termina triunfante, para a alegria da ditadura:
“Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento.(…)”
A reportagem, para cumprir tabela, traz também um artigo de Albert
Fishlow, já na época, aos 36 anos, um especialista em Brasil (hoje ele é
diretor do Instituto de Estudos Latinos Americanos e do Centro para
Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia). Fishlow era dos
maiores críticos da política econômica dos militares, pondo o dedo na
ferida: ela era desgraçadamente concentradora de renda. Mas Paulo
Henrique Amorim, ao introduzir o artigo, trata de antecipar que não
concorda com ele: “Veja considera poucos realistas muitas teses de
Fishlow – mas encomendou o seguinte artigo para permitir uma visão mais
completa dos argumentos que alimentam o debate em torno da distribuição
da renda dos brasileiros.” Argumentos, evidentemente, desmentidos pela
reportagem de PHA.
Aquela edição traz também uma entrevista de PHA com Delfim Netto, o
todo-poderoso ministro da Fazenda da ditadura. Para um desavisado, a
entrevista pode parecer correta, com perguntas que vocalizam os
argumentos da oposição de então. Mas, na verdade, para usar uma metáfora
inspirada no vôlei, PHA levanta para que Delfim cortar. E, o mais
importante, Delfim convenceu PHA de cabo a rabo, pois todas as teses do
então czar da Fazenda foram acolhidas na reportagem que ele publicou.
Basta verificar que o fecho da reportagem de PHA é quase integralmente
uma cópia de uma das respostas de Delfim:
PHA: “(…) Não seria justo exigir uma distribuição melhor de uma economia que cresce tanto?”
Delfim: “Não creio. O que se pode exigir é o seguinte: um processo de
rápido crescimento tende a gerar um processo de melhor distribuição.
Essa experiência é universal. O que eu acho é que não é possível colocar
essa distribuição como objetivo superior ao da produção. Se não, você
acaba querendo distribuir o que não existe.”
Em outra resposta, Delfim disse:
“Os dados agora levantados [por Langoni] não dão ao Brasil nenhuma
grandeza maior. É apenas um caso típico de desenvolvimento econômico.
Mas os dados também não deixam o Brasil numa posição incômoda quanto à
dua distribuição de renda.”
Ou como disse PHA no fim de sua reportagem, acolhendo integralmente as teses de Delfim:
“Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento.(…)”
Taí um Prêmio Esso que não dá orgulho a ninguém. Em vez de deixar a
ditadura acuada, com os inequívocos dados do Censo, PHA preferiu dar
guarida a um estudo cujo objetivo foi servir de bóia de salvação. Só PHA
mesmo.
Por Fábio Pannunzio